UMA ILHA NO ARQUIPÉLAGO ILIBERAL ESTADUNIDENSE

O Iluminismo sombrio não é um partido nem uma escola de pensamento estável. O termo, cunhado por Nick Land, designa uma neorreação hostil à igualdade política, à democracia de massas e à ideia de progresso compartilhado. Curtis Yarvin deriva dele um projeto institucional: o Estado democrático deveria ser substituído por uma estrutura administrada como uma corporação, com um líder permanente e poucos mecanismos de controle.

Esse grupo central é minoritário, mas faz parte de uma recomposição mais ampla. O cientista político estadunidense Patrick Deneen descreve o liberalismo como um regime que destrói as próprias afiliações das quais depende; Adrian Vermeule defende um constitucionalismo do bem comum; J. D. Vance combina catolicismo, nacionalismo econômico e uma crítica às elites progressistas. Todos convergem para o mesmo diagnóstico: o regime liberal dissolveu as comunidades e paralisou a ação.

O magma resultante surge do encontro deles com o libertarianismo tecnológico. Os pós-liberais invocam a comunidade, os empreendedores de tecnologia buscam contornar a deliberação – mas concordam em um adversário comum: a mediação democrática. A inovação, então, se separa do progresso: seu valor agora reside em sua capacidade de romper um equilíbrio e contornar uma regra. O mercado, a inteligência artificial e as redes se tornam forças autônomas, e sua velocidade serve como substituto para a legitimidade. A pergunta “para qual bem?” desaparece atrás de outra: “até onde podemos ir?”.

A escatologia dá profundidade a essa fuga. Girard nos ajuda a entender a ascensão aos extremos; na tradição cristã, o katechon designa a força que detém o Anticristo e adia o fim dos tempos. Para Thiel, a ameaça assume a forma de uma ordem mundial que paralisaria a ciência ou a inteligência artificial: consequentemente, qualquer regulamentação torna-se um sinal de tirania, e o compromisso, de capitulação.

Esse arquipélago estadunidense pós-liberal, o Iluminismo sombrio ocupa a parte visível, o posto avançado. Ele revela sua lógica: uma direita que usa a crítica ao liberalismo para libertar de todas as restrições aqueles que já possuem capital, tecnologia e acesso ao Estado.

A filosofia convertida em poder

A coerência do sistema é evidente em Peter Thiel, que conecta finanças tecnológicas, Palantir, a direita republicana, J. D. Vance e redes pós-liberais: ele personifica sua forma política. No vocabulário do Iluminismo sombrio, o fundador de empresas se torna uma figura do príncipe-CEO, cujo sucesso econômico supostamente lhe confere o direito de saber mais e decidir mais rápido que o Estado.

Leo Strauss fornece a estrutura intelectual para essa afirmação. Sua crítica à modernidade deriva de um problema real: o historicismo e o relativismo dificultam qualquer afirmação de justiça, daí seu retorno aos Antigos para restaurar a boa vida e a lei natural.

Seu pensamento, contudo, contém uma tensão. Strauss separa nitidamente o filósofo do Estado: o primeiro busca uma verdade que a opinião comum nem sempre pode aceitar, e a escrita esotérica protege o pensamento da perseguição. Isso também estabelece uma assimetria entre aqueles que compreendem e aqueles que vivem dentro das crenças necessárias para a ordem política. O próprio Strauss desconfia dos excessos modernos e deixa o filósofo com autoridade exclusiva sobre o pensamento. O problema reside no sistema que ele mobiliza: se a verdade pertence a poucos escolhidos e se certas ficções são necessárias, uma elite pode acreditar ser a única competente para escolher o que deve ser dito, ocultado ou imposto.

Thiel, no entanto, transforma essa possibilidade em doutrina da exceção. Em O momento straussiano, o 11 de setembro prova que o liberalismo desarmou o Ocidente, e a fragilidade do regime justifica o sigilo e a tomada de decisões sem controle. A distinção entre filosofia e opinião torna-se, então, uma separação entre fundadores lúcidos e a massa mimética: a mentira nobre torna-se técnica de governo.

A mudança decisiva reside na fonte de legitimidade. Para Strauss, o filósofo permanece vinculado à questão do bem; para Thiel, o fundador deriva o bem unicamente da sua eficácia, e seu sucesso é considerado prova de previsão. A verdade é então presumida à medida que se obtém sucesso. Eis a inversão: a filosofia não mede mais o poder; agora é o poder que se apresenta como filosofia.

Pode-se objetar que Peter Thiel está apenas expandindo o trabalho de Strauss. Mas onde Strauss deixa um mecanismo prontamente disponível, Thiel o operacionaliza: um mantém a lacuna entre verdade e opinião como uma tensão, o outro a converte em uma dinâmica de poder. O monopólio, defendido em De zero a um (Objetiva, 2014), torna-se sua forma: uma autoridade que não quer nem rival nem controle.

A Palantir fornece a essa visão uma infraestrutura: a empresa agrega dados e equipa as agências governamentais, os militares e os serviços de segurança. Aqueles que veem o todo dominam aqueles que veem apenas fragmentos, e a assimetria entre conhecimento e opinião torna-se o que separa o proprietário dos dados de seus objetos. Peter Thiel, portanto, não sai do âmbito do Estado: ele se apropria de suas funções soberanas. Ele critica a burocracia enquanto lhe vende as ferramentas para uma vigilância mais sofisticada; o setor privado, assim, aumenta o poder público sem receber o mesmo nível de responsabilidade. O resultado: o CEO-filósofo torna-se o parceiro opaco do Estado.

Esse projeto é um falso conservadorismo. O conservadorismo clássico desconfia do excesso e aceita a finitude, enquanto Thiel celebra a ruptura, a superação do envelhecimento e a soberania do fundador. Ele invoca os Antigos para legitimar o controle total: a tradição serve então para sacralizar a ação.

Essa prática inverte a filosofia assim como a concebia Pierre Hadot, para quem filosofar é um exercício espiritual: transformar o próprio olhar, aprender a morrer. Na obra de Thiel, a filosofia torna-se um reservatório de referências destinadas a justificar a ação, e o domínio do mundo substitui o autodomínio. A filosofia não corrige mais o príncipe: ela o empodera.

Libertar-se do monopólio espiritual

O gesto permanece o mesmo. O que Peter Thiel eleva a uma virtude econômica em De zero a um – o monopólio, a ausência de rivais, a recusa do controle –, ele estende à salvação: o fundador, sem concorrência, torna-se o único guardião do futuro. É esse monopólio que precisa ser afrouxado. Pois o Iluminismo sombrio é produto de um Ocidente pós-católico, onde a salvação, o fim dos tempos e o Anticristo retornam na linguagem da tecnologia, a serviço de empreendedores que se apresentam como guardiões do futuro.

Esse monopólio espiritual tem uma longa história. Durante séculos, as Igrejas alegaram deter a única verdade sobre a salvação, muitas vezes reduzindo a vida espiritual a um dogma, uma instituição, uma narrativa única. Thiel adota essa posição, secularizada: o fundador ocupa o lugar do clérigo, o fim dos tempos o lugar do dogma. O vazio deixado por uns torna-se disponível para os outros.

A resposta reside em voltar a conceber a espiritualidade como uma experiência compartilhada do mundo, sem restaurar um monopólio religioso ou abandonar a inovação. Uma técnica convivial, no sentido de Ivan Illich, permanece compreensível, reparável e governável. Heráclito, por sua vez, não nos ensina a interromper o devir: ele nos ensina a habitá-lo. Quanto à kenosis – que designa o abaixamento e o esvaziamento voluntário de Cristo –, ela pode ser reinterpretada como uma renúncia à onipotência, não como uma submissão a uma verdade exclusiva.

A inovação encontra então um limite e uma direção: ela não busca mais abolir a condição humana, mas nos ajuda a habitar o mundo compartilhado. Paul Valéry escreveu isso de frente para o mar, em O cemitério marinho (1920): “O vento está aumentando!… Precisamos tentar viver!”

Transcrito da Newsletter do site Humanitas


COMO EVITAR A CRÍTICA AOS POLÍTICOS RIDÍCULOS

Todos nos lembramos do Grande Ditador, filme em que Chaplin critica Hitler e Mussolin, fascistas europeus,  pelo que tinham de ridículos.

Trump e Milei, os fascistas americanos, se gabam de sua ridicularidade, para evitar o tom da crítica chapliniana ao fascismo em geral.

Mas, como os europeus, os fascistas americanos metem medo


A NOVA ORDEM RELIGIOSA E A MOEDA

Ao decidir estudar uma versão do Direito Monetário,  tentando aplicar o método da Teoria Pura do Direito, de Kelsen, tive oportunidade de conhecer uma História de Ideias, praticando filosofia.

Hoje, quando se discute se a Tecnologia constitui uma Nova Ordem, o estudo da moeda continua a ter relevância.

Os donos da nova Ordem Religiosa – o Homem não é construído à imagem de Deus mas há um outro Deus construído à imagem de poucos homens – são milionários, detêm milhões de dólares em créditos denominados na unidade monetária norte-americana.

Não haveria uma nova Religião Tecnológica se não houvesse riqueza e se não houvesse moeda para contar essa riqueza  e peças monetárias, para usufrui-la


NOTA DO GOVERNO LULA SOBRE A CLASSIFICAÇÃO DE FACÇÕES CRIMINOSAS COMO TERRORISTAS

O Brasil é uma nação soberana que tem travado combate permanente contra o Primeiro Comando da Capital (PCC), o Comando Vermelho (CV) e as demais facções e milícias que praticam o terrorismo nos territórios em que vivem milhões de famílias. Enfrentar essas organizações criminosas com firmeza é, e continuará sendo, prioridade do Estado brasileiro.

O terror causado por essas organizações em comunidades busca obter lucro através do crime, especialmente pelo tráfico de drogas e armas, e não pode ser confundido com o tipo de ação por motivos ideológicos, políticos e religiosos do terrorismo internacional.

A segurança da nossa população é importante demais para ser manipulada politicamente por traidores que tentam confundir esses conceitos. Por falsos patriotas, envolvidos com o crime organizado, que pedem a autoridades estrangeiras a interferência em assuntos brasileiros.

É deplorável que mais uma vez integrantes da família Bolsonaro viajem aos Estados Unidos para defender intervenção estrangeira no Brasil, como já fizeram no tarifaço, que causou tantos danos ao nosso país.

Aprovamos recentemente uma lei de combate às facções e milícias com penas que chegam a até 80 anos de prisão – a maior prevista em toda a legislação brasileira. O Governo do Brasil conduz o programa “Brasil contra o Crime Organizado”, que combate as facções e milícias desde o seu braço armado nas esquinas até o seu andar de cima.

O crime organizado não respeita fronteiras e seu combate exige ação conjunta. Construímos, ao longo de décadas, parcerias com vários países, inclusive com os Estados Unidos. O Brasil apresentou em 16 de abril deste ano, ao Departamento de Estado dos EUA, uma proposta focada na inteligência e na cooperação internacional que inclui ampliação dos controles sobre a lavagem de dinheiro praticada no exterior e sobre o tráfico de armas enviadas ao Brasil.

Qualquer colaboração internacional para o combate às facções será bem-vinda. Seguimos dispostos a construir soluções conjuntas benéficas aos países envolvidos. Mas não aceitaremos o uso de medidas arbitrárias vindas do estrangeiro como pretexto para atacar a nossa soberania e a nossa economia.

Medidas unilaterais, não negociadas, podem enfraquecer o combate aos criminosos e gerar ações que colocam em risco a vida das pessoas que nada têm a ver com o crime. Podem reduzir a capacidade de compartilhamento de informações entre as polícias. Podem afetar nosso sistema financeiro e inovações nacionais como o PIX, que incomodam interesses estrangeiros.

Em resumo, trata-se de possível retrocesso no combate ao crime, risco à vida das pessoas e prejuízos econômicos ao país.

A soberania nacional é inegociável. O Brasil rejeita qualquer forma de interferência externa em seus assuntos internos. Quem define como o crime é classificado e combatido dentro do Brasil são os brasileiros, com suas instituições, suas leis e suas forças de segurança.