O PROBLEMA NÃO É A ESTABILIDADE DE PREÇOS
Os jornais de hoje dão notícia das discussões em curso que opõem os economistas em dois campos: de um lado, os que são favoráveis à inflação e, de outro, os que são a favor da estabilidade dos preços, levando em conta, ambos os grupos, as situações da Europa e dos Estados Unidos.
No artigo “A guerra das barbas”, publicado no Estadão, o economista ROWERT JACOB SAMUELSON confronta a idéias de PAUL KRUGMAN e de BEN BERNANKE, o primeiro favorável “a um pouco mais de inflação” e o segundo considerando essa política inflacionária “muito imprudente”.
Repercutindo essa discussão o jornalista CELSO MING, na sua coluna do Estadão, “Inflação como solução”, tenta mostrar os argumentos em prol da inflação e os contrários a ela.
A política da estabilidade de preços, defendida pelos bancos centrais europeu e norte americano é uma substituta, moderna, da antiga política do padrão ouro, que tivera origem na noção de valor intrínseco dos metais. Depois que os metais deixaram de constituir suporte das peças monetárias, a noção de poder aquisitivo foi, aos poucos, tomando o lugar da doutrina do valor intrínseco dos metais culminando, afinal, especialmente na época da instituição do Euro, com a regra da estabilidade de preços.
A imutabilidade de preços é muito importante para a estabilidade da ordem monetária. Por maiores que pareçam ser as vantagens da inflação – de um pouco mais de inflação – ela logo dá lugar à indexação, com os resultados negativos que os brasileiros conhecem muito bem.
O problema, a meu ver, não é a estabilidade de preços; é a má distribuição de renda.
A inflação é uma distorção da ordem monetária que apenas aparentemente distribui a renda. Os credores, os que estão no topo da pirâmide da riqueza, lançam mão de vários expedientes para se proteger da inflação, fazendo-a recair sobre os ombros dos menos favorecidos.Para resolver as crises financeiras mundiais a solução não é um pouco mais de inflação; e sim melhor distribuição de renda, tanto interna como internacionalmente.
O dinheiro emitido deve ser dirigido aos necessitados, aos que estão na base da pirâmide da riqueza, e não aos mais afortunados. Ao longo de séculos foi sendo construída uma estrutura hierárquica de fato, em que os mais ricos sempre conseguem manter-se mais ricos e os mais pobres, mais pobres. Essa estrutura reproduz-se nas relações internacionais, onde há Estados muito ricos e outros paupérrimos.
Creio que as crises atuais mostraram os limites da situação, que parecia eterna, de desigualdade entre as pessoas e entre países.
Em conclusão: a inflação é uma falsa solução, porque o problema não é a estabilidade de preços, mas, repito, a má distribuição de renda. Está em curso, portanto, um debate fora de foco.
