O ESTÔMAGO INFINITO

Num outro trecho de seu artigo escreve Edward Luce:

” As elites dos EUA acumularam mais riqueza do que conseguem gastar”.

A riqueza atual da elite americana é essencialmente mobiliária que deveria ter fundamento na moeda nacional mas o Estado americano perdeu o privilégio de emitir moeda e de limitar a riqueza mobiliária através da emissão.

Quando os EUA seguiam o padrão-ouro – o que fizeram até 1971 – a quantidade de metal armazenado em Fort Knox limitava a emissão do papel moeda. Depois, o limite passou a ser imposto pelo poder aquisitivo. Ora, no momento em que há mais riqueza mobiliária do que é possível comprar a emissão não controla mais o aumento da riqueza mobiliária.

O poder de emitir, hoje, passou a ser uma faculdade dos bancos, e não mais do Tesouro. A emissão é feita, atualmente, por meio da criação da dívida. Inverteram-se os papéis: ao invés da moeda emitida fundamentar as obrigações monetárias estas tornaram-se instrumento da emissão.

Pior ainda, quando ocorreu a desregulamentação, quando os bancos de depósito puderam ser bancos de investimento, o descontrole ficou geral, o que foi agravado pela circulação eletrônica dos créditos.

O espantalho Trump – que, segundo Luce, assombra a burguesia dos EUA – é um reflexo desse pandemônio financeiro. É por isso que esse presidente visivelmente desqualificado, perante as elites, serve-a, para distraí-la.

“É uma simbiose medonha. Sem Trump não haveria distração. Seríamos obrigados a examinar se estamos à altura dos nossos próprios valores.”

Ou, em outras palavras: Trump é o bobo da Corte norte-americana. O problema, porém, não é ele: é a Corte.


2 comentárioss até agora

  1. José neves Fevereiro 9, 2018 12:15 pm

    Ou seja: talvez não seja o bobo da Corte e sim a corte do Bobo…

  2. José neves Fevereiro 10, 2018 10:09 am

    ‘Estômago infinito’ é uma precisa expressão para qualificar a atuação da chamada ‘elite política’ brasileira.

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