ESTRIDENTE SILÊNCIO SOBRE SUBSTITUTIVO DO DEPUTADO EXPEDITO NETTO

Instigado pela reportagem de Fernando Torres no caderno do jornal Valor Eu&Cia. desde fim de semana pesquisei, na Internet, o curso atual, na Câmara dos Deputados, do Projeto de Lei n. 2.303, de 2015, sobre o qual o repórter e os seus entrevistados fazem o mais estridente silêncio.

Creio que é do interesse da opinião pública, nesta oportunidade, tomar conhecimento do parecer do Relator do referido Projeto de Lei, o Deputado Expedito Neto, cujas conclusões transcrevo a seguir:

Vamos iniciar a discussão com relação às moedas virtuais, digitais ou criptomoedas. Embora o tema seja muito empolgante, principalmente na comunidade mais atraída pela tecnologia, não restam dúvidas de que a preocupação do Autor, nosso estimado colega Deputado Aureo, é de elevada importância. Por um lado, temos uma invasão ao sistema monetário que, ainda que de limitado montante neste momento, tem crescido em velocidade surpreendente.

Nesse sentido, a Constituição Federal é clara ao atribuir ao Banco Central do Brasil o monopólio na emissão de moeda. Assim, não há como aceitar que outras entidades, que não a Autoridade Monetária do País, tenham a possibilidade de emitir moeda.

A este propósito, nenhum problema haveria se o Banco Central, por exemplo, passasse a emitir a moeda nacional em formato digital, virtual ou de criptomoeda. Não há, todavia, como evitar que moedas virtuais, digitais, ou criptomoedas sejam emitidas fora do nosso território e, portanto, que fiquem fora da abrangência das nossas regras.

Nos compete, apenas, evitar que tais moedas sejam ofertadas à população, causando sérios problemas no âmbito da defesa da economia popular e da defesa do consumidor. Devemos fazer um destaque para o fato de que a preocupação do Deputado Aureo, com a qual nos solidarizamos, não é infundada.

O Banco Central do Brasil emitiu o Comunicado nº 31.379, de 16 de novembro de 2017, que “alerta sobre os riscos decorrentes de operações de guarda e negociação das denominadas moedas virtuais”. Aquele órgão relembra que as moedas virtuais “não são emitidas nem garantidas por qualquer autoridade monetária, por isso não têm garantia de conversão para moedas soberanas e tampouco são lastreadas em ativo real de qualquer espécie, ficando todo o risco com os detentores”. Destaca o Banco Central do Brasil que o seu valor decorre exclusivamente da confiança que os indivíduos têm em seu emissor.

Curioso notar que, no caso da criptomoeda mais conhecida da população, sequer sabemos quem é o emissor, uma vez que é descentralizada. O próprio criador da moeda é alguém que não se identificou até a data que pronunciamos esse nosso voto. Outra questão de extrema relevância na análise é o intenso processo especulativo que tem se formado em torno dessas moedas virtuais, digitais ou criptomoedas. A valorização repentina das criptomoedas nesse ano de 2017 tem atraído pequenos poupadores para este mercado, os expondo a riscos imensuráveis.

Outro efeito dessa elevação de valor das mencionadas moedas é a abertura de caminho para fraudadores que, aproveitando da boa-fé dos consumidores, desenvolvem esquemas de pirâmides, favorecidos ainda pela 10 elevada capacidade de disseminação possibilitada pela internet e suas “mídias sociais”. A esse respeito, o Comunicado BACEN nº 31.379, de 2017, afirma que a “compra e a guarda das denominadas moedas virtuais com finalidade especulativa estão sujeitas a riscos imponderáveis, incluindo, nesse caso, a possibilidade de perda de todo o capital investido, além da típica variação de seu preço”.

A falta de uma estrutura regulatória com regras claras de responsabilidade também expõe os detentores das criptomoedas a serem vítimas de roubo de suas “carteiras”, vendo a sua economia desaparecer em uma fração de segundo. Mas os avisos sobre os riscos desses instrumentos não estão restritos ao âmbito local.

O ganhador do Prêmio Nobel de Economia, Joseph Stiglitz, defende a proibição do Bitcoin em entrevista à BBC1 . Para ele, “a verdadeira razão pela qual as pessoas querem uma moeda alternativa é participar de atividades ilícitas: lavagem de dinheiro, evasão fiscal”. Ele afirma que se as moedas virtuais (digitais ou criptomoedas), se estivessem sujeitas às mesmas regras de transparência aplicáveis ao setor financeiro simplesmente deixariam de existir. No que tange à regulação, sugere o economista que a regra deveria “dizer que trocar bitcoins por dólares ou libras não é legal, que empresas como a Microsoft não devam aceitar bitcoins, e que não podemos comprar ativos ou imóveis com eles “.

Vários dirigentes de bancos centrais pelo mundo, inclusive o Banco Central Europeu, têm afirmado que essas moedas virtuais são aventuras não robustas, e que é papel dos bancos centrais, o mais rápido possível, adotar suportes digitais para a emissão das moedas nacionais, como forma de conter o avanço dessas tecnologias alternativas.

Nessa linha, naquilo que diz respeito às moedas virtuais, digitais ou criptomoedas, decidimos nos posicionar pela proibição de emissão em território nacional, bem como de vedar a sua comercialização, intermediação e mesmo a aceitação como meio de pagamento para liquidação de obrigações no País.

Para tal fim, optamos por inserir no Código Penal o tipo específico para a prática descrita no parágrafo anterior, mas deixamos aberta a possibilidade de emissão para uso em ambiente restrito, sob a responsabilidade do emissor, de moedas digitais, moedas virtuais e criptomoedas, desde que exclusivamente para a aquisição de bens e serviços oferecidos pelo emissor ou por terceiros. Ainda na tentativa de dissuadir a prática de pirâmides, entendemos importante equiparar a pena aplicada ao crime de estelionato àquela cabível quando ocorre logro de grande número de pessoas.

O Substitutivo que ora apresentamos, portanto, eleva a pena prevista para os mencionados crimes de pirâmide financeira, previstos na Lei nº 1.521, de 26 de dezembro de 1951 (crimes contra a economia popular), para um a cinco anos de reclusão. No escopo das operações realizadas com “suporte digital”, entendemos relevante criar as fichas digitais (ou tokens) para que representem bens ou direitos, submetendo-os às regras vigentes aplicáveis ao bem ou direito subjacente à ficha digital.

Não havendo regra ou órgão supervisor responsável por expedir normas em relação aos bens e direitos subjacentes às fichas digitais, será livre a constituição de sociedades empresárias ou de empresas individuais de responsabilidade limitada para a emissão de mencionadas fichas digitais. b) Programas de fidelidade ou de recompensa (milhagem) Naquilo que tange aos programas de fidelidade ou de recompensa, comumente conhecido como “programas de milhagens” acreditamos que seja necessário estabelecer o prazo mínimo de 5 (cinco) anos para a expiração dos pontos atribuídos.

Adicionalmente, é importante garantir que se atribua um valor monetário a cada ponto, e que este valor não seja inferior a 80% daquele pago pelas empresas que contratam o fornecedor do programa. Assim, ficará mais transparente para o consumidor no momento de optar por adquirir um bem ou serviço diretamente do fornecedor do programa ou fazê-lo diretamente no mercado. Para isso, também será necessário garantir que o consumidor poderá fazer a conversão dos seus pontos em moeda nacional sempre que essa conversão resultar em montante superior a R$ 100,00 (cem reais).

Finalmente, entendemos que é necessário abrir espaço para o desenvolvimento de empresas que lidam com títulos e valores mobiliários iniciantes. Dessa forma, optamos por propor a possibilidade de abertura de exceções nos regulamentos da Comissão de Valores Mobiliários (CVM) para que essas empresas tenham um ambiente de testes garantido. Esta medida, salvo melhor juízo, trará grandes benefícios para a inovação, ao tempo em que manterá o acompanhamento daquele órgão supervisor.

CONCLUSÃO

Pelos motivos acima expostos, VOTAMOS:

I – pela NÃO IMPLICAÇÃO do Projeto de Lei nº 2.303/2017 em aumento ou diminuição da receita ou da despesa públicas, não cabendo pronunciamento por parte desta Comissão quanto à sua adequação financeira e orçamentária;

II – pela constitucionalidade, juridicidade e boa técnica legislativa do Projeto de Lei nº 2.303, de 2015; e III – no mérito, pela aprovação do Projeto de Lei nº 2.303, de 2015, na forma do Substitutivo anexo.

Sala da Comissão, em 2017. Deputado EXPEDITO NETTO Relator

SUBSTITUTIVO AO PROJETO DE LEI Nº 2.303, de 2015.

Dispõe sobre a emissão e operações com moedas digitais, moedas virtuais e criptomoedas; elementos digitais ou eletrônicos representativos de bens e direitos; aumento de penalização para o crime de pirâmide; e regulação de programas de recompensa para consumidores.

O Congresso Nacional decreta:

Art. 1º Esta lei dispõe sobre a emissão de moedas digitais, moedas virtuais e criptomoedas; fichas digitais representativas de bens e direitos; aumento de penalização para o crime de pirâmide; e regulação de programas de fidelidade ou de recompensa para consumidores.

Art. 2º Para a finalidade desta lei e daquelas por ela modificadas, entende-se por:

I – Moeda digital, moeda virtual ou criptomoeda – representação digital de valor que funcione como meio de pagamento, ou unidade de conta, ou reserva de valor e que não tem curso legal no País ou no exterior;

II – Ficha digital – representação digital de um bem ou direito, que não se classifique como moeda digital, moeda virtual ou criptomoeda;

III – Programa de Fidelidade ou de Recompensa – sistema de atribuição e de gerenciamento, por parte de determinado fornecedor (fornecedor de programa de fidelidade ou de recompensa), de pontos de fidelidade ou de recompensa originários de aquisição de bens ou de serviços próprios ou de outros fornecedores, pontos estes passíveis de utilização na aquisição de bens ou de serviços;

IV – Fornecedor de programa de fidelidade ou de recompensa – sociedade empresária responsável por programa de fidelidade ou de recompensa;

V – Ponto de fidelidade ou de recompensa – unidade de medida adotada em programa de fidelidade ou de recompensa, passível de acumulação e destinada precipuamente à troca por bens ou serviços; e

VI – Empresa aderente a programa de fidelidade ou de recompensa – sociedade empresária ou empresa individual de responsabilidade limitada que adquire, com a finalidade de distribuir a seus consumidores, pontos de fidelidade ou de recompensa de fornecedor de programa de fidelidade ou de recompensa.

Art. 3º O artigo 292 do Decreto-Lei nº 2.848, de 7 de dezembro de 1940 (Código Penal), passa a vigorar com a seguinte redação:

“Art. 292. Emitir, sem permissão legal, nota, bilhete, ficha, vale ou título que contenha promessa de pagamento em dinheiro ao portador ou a que falte indicação do nome da pessoa a quem deva ser pago: Pena – detenção, de um a seis meses, ou multa.

  • 1º Incide na mesma pena quem, sem permissão legal, emite, intermedeia troca, armazena para terceiros, realiza troca por moeda de curso legal no País ou moeda estrangeira, moeda digital, moeda virtual ou criptomoeda que não seja emitida pelo Banco Central do Brasil.
  • 2º Não incorre na conduta prevista no § 1º deste artigo aquele que emite, intermedeia troca, armazena para terceiros ou que realiza troca por moeda de curso legal no País em ambiente restrito, na rede mundial de computadores, na forma de sítio ou aplicativo, ambos sob a responsabilidade do emissor, com a finalidade exclusiva de aquisição de bens ou serviços próprios ou de terceiros.
  • 3º Quem aceita ou utiliza como dinheiro qualquer dos documentos referidos no caput deste artigo incorre na pena de detenção, de quinze dias a três meses, ou multa.”

Art. 4º Fica revogado o inciso IX do artigo 2º da Lei nº 1.521, de 26 de dezembro de 1951.

Art. 5º A Lei nº 1.521, de 26 de dezembro de 1951, passa a vigorar acrescida do seguinte artigo 2º-A:

“Art. 2º-A. Constitui crime da mesma natureza obter ou tentar obter ganhos ilícitos em detrimento de uma coletividade de pessoas, ainda que indetermináveis, mediante especulação, artifício, ardil, ou qualquer outro meio fraudulento. Pena – reclusão, de um a cinco anos, e multa.”

Art. 6º A emissão de fichas digitais é privativa de sociedade empresária ou de empresa individual de responsabilidade limitada cujo objeto preveja esta atividade.

  • 1º A constituição e o funcionamento da sociedade ou da empresa mencionada no caput deste artigo e a emissão de fichas digitais estão sujeitas à regulação dos órgãos legalmente competentes para editar normas relativas aos bens ou direitos subjacentes à ficha digital.
  • 2º É vedada a emissão de fichas digitais cujos bens ou direitos subjacentes sejam constituídos por moeda digital, moeda virtual ou criptomoeda.
  • 3º Não havendo órgão regulador específico para o bem ou direito subjacente à ficha digital, é livre a constituição e o funcionamento da sociedade ou da empresa mencionada no caput deste artigo e a emissão de fichas digitais.
  • 4º No caso de existência de bolsa ou mercado de balcão regulado para o bem ou direito subjacente à ficha digital, compete ao órgão regulador responsável por editar norma que garanta a venda direta, ou mesmo a criação de mercados virtuais específicos de negociação, como forma de reduzir custos para os consumidores e fomentar a concorrência.

Art. 7º. A Lei nº 6.385, de 7 de dezembro de 1976, passa a 17 vigorar acrescida do seguinte artigo 28-A:

“Art. 28-A. A Comissão de Valores Mobiliários deve dispensar o registro de atividades regulamentadas nos termos desta Lei, com a finalidade de instituir ambiente de testes de novas tecnologias e inovações em produtos e serviços no mercado de valores mobiliários.

Parágrafo único. A Comissão de Valores Mobiliários deve conceder a autorização prevista no caput deste artigo dentro de limites e restrições preestabelecidos, observando:

I – os riscos e benefícios de cada autorização; e

II – o estímulo a iniciativas que visem conferir maior eficiência, segurança e ampliação do acesso ao mercado de valores mobiliários.”

Art. 8º A Lei nº 6.404, de 15 de dezembro de 1976, passa a vigorar acrescida do seguinte artigo 294-A:

“Art. 294-A. A Comissão de Valores Mobiliários pode dispensar a adoção de determinadas exigências previstas nesta Lei para companhias de médio ou pequeno porte, conforme regulamentação específica.” (NR) Art. 9º O fornecedor de programa de fidelidade ou de recompensa deverá emitir mensalmente, até o segundo dia útil do mês, em meio físico ou eletrônico, um extrato consolidado com a movimentação de pontos de fidelidade ou de recompensa adquiridos ou utilizados no mês anterior.

Art. 10. O período mínimo e de expiração de pontos de fidelidade ou de recompensa será de cinco anos, contados da data do registro no extrato do consumidor, devendo o fornecedor informar, tanto no extrato como por meio de comunicação exclusiva para este fim, quantos pontos estarão expirando nos próximos noventa dias.

Art. 11 Ao ponto de fidelidade ou de recompensa de cada fornecedor será atribuído valor em moeda nacional equivalente a, no mínimo, oitenta por cento do valor médio de venda dos pontos às empresas aderentes a programa de fidelidade ou de recompensa apurado nos últimos seis meses.

Parágrafo único. O valor do ponto de fidelidade ou de recompensa será divulgado no sítio do fornecedor na rede mundial de computadores (internet) e no extrato mensal encaminhado ao consumidor.

Art. 12. É facultado ao consumidor dos programas fidelidade ou de recompensa a conversão e consequente resgate dos pontos em moeda nacional, sempre que o valor resultante da multiplicação dos seus pontos de fidelidade ou de recompensa pelo valor atribuído a cada ponto atingir o montante de R$ 100,00 (cem reais), devendo ser creditado na conta de depósitos à vista do consumidor no prazo máximo de cinco dias úteis.

Parágrafo único. O valor previsto no caput deste artigo será ajustado a cada cinco anos, pela variação do índice oficial de inflação.

Art. 13. Esta lei entra em vigor na data de sua publicação. Sala da Comissão, em 2017.

Deputado EXPEDITO NETTO.


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