O GRAVE EQUÍVOCO DO “SAPIENS”

O livro “Sapiens” de Yuval Noah Harari, “Uma breve história da humanidade”, é um fenômeno de vendas, best-seller internacional que, no Brasil, já está na 25ª edição. É preciso, pois, uma certa ousadia para apontar um grave defeito dele: endossar a teoria de que a troca antecedeu a moeda, recentemente objeto de uma crítica devastadora que Harari parece ignorar.

O Autor trata da moeda e das dívidas em inúmeros momentos embora se encontre, no Capítulo 10, “O cheiro do dinheiro”, o núcleo essencial de seu pensamento sobre o tema, em que adota o conceito smithiano de valor de troca, que eu considero uma das causas da grande crise do capitalismo que eclodiu com a falência do Banco Lehman Brothers e os  eventos que sucederam ao longo do biênio 2007/2008.

O ”cheiro do dinheiro”, na edição brasileira, ocupa 14 páginas, da 181 à 195, em que Harari repete, num papagueio, os ensinamentos há muito ridicularizados por A. Mitchell Innes, em artigo publicado no remoto maio de 1913, em Banking Law Journal , intitulado “What is Money”. Pior do que isso, Harari faz um jogo de palavras,  repleto de anacronismos,  com o vocábulo “valor”, repetindo a tese jusnaturalista tornada célebre por Michael J. Sanders, nas conferências de Harvard, do início dos anos 2000, que ele depois publicou sob o título “Justiça”, de que haveria uma gradação entre o valor (pensado como algo sobrenatural ) e os preços em dinheiro ( pensados, no fundo,  como algo corrupto ).

Vale a pena transcrever a apreciação sarcástica de Innes, tal como transcrita por L. Randall Wray, em seu “Trabalho e moeda hoje: a chave para o pleno emprego e a estabilidade dos preços”( traduzida para o português por José Carlos de Assis, com revisão de Aloisio Teixeira):

“As teorias fundamentais nas quais se baseia a moderna ciência da economia política são:

Que sob condições primitivas os homens viviam e vivem do escambo;

Que quando a vida se torna mais complexa o escambo não é mais suficiente como um método de trocar mercadorias e, por consenso, fixa-se uma determinada mercadoria que é aceita em geral e que, daí em diante, todos usarão para as trocas ( …)

Que esta mercadoria então torna-se ‘meio de troca e medida de valor’;

Que muitas diferentes mercadorias serviram, em várias épocas e lugares, como meio de troca – gado, ferro, sal, concha, bacalhau seco, fumo, açúcar, cravos, etc;

Que gradualmente os metais ouro, prata, cobre e mais especialmente os dois primeiros, passaram a ser considerados, por suas qualidades inerentes, mais adequados para esse propósito do que quaisquer outras mercadorias, e estes metais logo tornaram-se, por consenso, o único meio de troca;

Que, um certo peso fixo de um desses metais de uma pureza conhecida tornou-se um padrão de valor, e para garantir este peso e qualidade tornou-se incumbência dos governos emitir peças de metal gravadas com um sinal peculiar ( …)

Que imperadores, reis, príncipes e seus conselheiros competiam, entre si, na Idade Média, para enganar o povo falsificando suas moedas ( …) e eu essa situação produziu sérios males, entre os quais a depreciação do valor da moeda e o consequente aumento de preços ( …)

Que para economizar o uso dos metais e para evitar seu transporte constante, um mecanismo chamado ‘crédito’ desenvolveu-se mais recentemente , por meios do qual, em vez de se ceder um certo peso de metal a cada transação, dá-se uma promessa de fazer isso, a qual, sob circunstâncias favoráveis, tem o mesmo valor que o metal em si. Crédito é denominado de substituto do ouro.”

Esse relato, que parece tão óbvio ( já que ele, disseminado, é  adotado pelos bancos  centrais em todo o mundo, inclusive o do Brasil ) é desmentido por Wray com os seguintes comentários:

“Pesquisas atuais no campo da história comercial e da numismática’ demonstram que ‘nenhuma dessas teorias apoia-se em uma sólida base de prova história – que de fato são falsas’. Resumidamente, não há nenhuma evidência de que os mercados operaram numa base de escambo ( exceto em circunstâncias extraordinárias como em campos de prisioneiros de guerra ), não há nenhuma evidência de que ‘ diferentes mercadorias tenham mudado de mãos como meios de troca ( isto é, para comprar mercadorias no mercado ), não há nenhuma evidência de que o valor das moedas primitivas fosse determinado por um certo peso fixo de metais preciosos, e não há nenhuma evidência de que o crédito tenha se desenvolvido como um substituto ‘capaz de economizar’ moedas de metal precioso como meio de troca.”

A primeira impressão que me ficou – eu posso estar sendo injusto e precisar rever, mais tarde, tal sentimento – é que Yuval Noah Harari, nesse ponto essencial , quis agradar aos poderosos, quem sabe, para vir a ser um deles, propósito no qual, de fato, aliás, foi bem sucedido…


2 comentárioss até agora

  1. Adriana Jansen Corn novembro 20, 2017 4:19 pm

    Você deve escrever os seus comentários e mandar o para Yuval Harari.

  2. Vinicius novembro 25, 2017 8:44 pm

    Boa tarde, caríssimo Professor! O Randall Wray pode ser um inimigo dos bancos centrais, mas se por um lado discorda do emprestador de última instância, é um ardoroso defensor da maluquice que ele chama de “empregador de última instância”!

    Sobre o texto dele transcrito, parece que o keynesiano ignorou a velha máxima: “ausência de evidência não é evidência de ausência”.

    Um abraço! (espero um dia conseguir um autógrafo do Sr. no livro “A face legal do dinheiro”, que tive a imensa felicidade de encontrar no Centro do Rio”)

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