O ELOGIO DO BLOCKHAIN

O artigo do Valor  ‘Blockchain’ e o projeto de Lei n. 2303”, do advogado Maurício Valdovato, trata, a sério – o que é raro nesse assunto – da tecnologia do Blockchain tentando explicar, didaticamente, a imensa quantidade possível de aplicações dela e o risco de eventuais  prejuízos de uma regulamentação mal feita.

O articulista, em resumo, faz um alerta para que não sejam confundidos os “pontos” das milhagens aéreas com algo muito mais amplo, que é a tecnologia do Blockchain, como se fossem ambos meros “arranjos de pagamento”.

Não se trata, apenas, de disciplinar o uso do Bitcoin, embora seja necessária a imposição de regras para impedir o seu mau uso ( que decorre, em grande parte, do fato de ele ser ao portador) . O Blockchain, na verdade, é muito mais do que o Bitcoin, do que o Ethereum e do que essas outras denominadas “moedas virtuais”, que são títulos de crédito em suporte eletrônico.

O Blockchain é uma tecnologia capaz não só simplificar e baratear os custos de inúmeros mecanismos sociais como de criar inovações úteis à essa nova sociedade nascente que está resultando da continuada revolução tecnológica que nos vem  envolvendo nessas últimas décadas.


O SOCIALISMO CHINÊS PODERÁ SER DEMOCRÁTICO?

Noticia o Valor, com chamada de primeira página, que a “China, agora, quer exportar o seu socialismo”, e que o Presidente Xi Jinping pretende oferecer um novo modelo econômico para outras nações, especialmente aquelas em desenvolvimento que poderão dispor, doravante, de “uma nova escolha”.

Se esse propósito da China for semelhante à do antigo Komintern, da ex-União Soviética, será, certamente, muito ruim. A URSS era uma grande burocracia autocrática que usou e abusou do que lhe parecia um dever socialista de interferir na vida de diversos países, dentre eles o Brasil, para construir, supostamente, uma democracia real que, de fato, prejudicou a nossa precária democracia formal.

A China é, também, uma autocracia, o seu Partido Comunista único uma grande burocracia. É provável que os seus mecanismos de exportação do socialismo venham a ser  muito parecidos.

Mas, e se não forem?

Será que o liberalismo econômico dos Estados Unidos, a que ora estamos submetidos, é mesmo um liberalismo, e é bom? Serão os Estados Unidos, ainda atualmente, um País que valha a pena ser imitado?

Muita gente diz que o socialismo, como pressupõe a propriedade estatal dos meios de produção, é incompatível, por definição, com a democracia ou, de forma similar, que o capitalismo é indispensável à implantação e sobrevivência da democracia. Acredito, porém, que essas alternativas estão mal formuladas. Um sistema econômico não condiciona necessariamente um sistema político. Pode haver um capitalismo autocrático ( como o dos países fascistas, no século passado ) e um socialismo democrático ( como o da Noruega, por exemplo ).

A reportagem do Valor afirma que é a primeira vez na história em que um líder chinês destaca as virtudes do sistema político e econômico da China como um modelo a ser seguido por outros países. No meu caso pessoal, como passei – entre 1964 e 1985 – por uma ditadura militar que muito me incomodou, não consigo simpatizar com o sistema político chinês. Mas não consigo deixar de ver, ao mesmo tempo, os sucessos econômicos do regime.

Por outro lado, o governo Trump já me mostrou que os Estados Unidos vinham  tão mal que foram capazes de perder rapidamente o seu papel de liderança da antiga sociedade ocidental judaico-cristã a qual, na verdade, se espatifou. Se houver hoje, uma votação para escolher entre Xi Jinping e Trump não tenho dúvidas em votar em Xi.

Estamos diante de um novo e terrível dilema. Ainda bem que a sua solução caberá às gerações que virão depois da minha sobre as quais se abaterá – ou não – o dilúvio.

De qualquer forma a opção “après nous le déluge”, em si só, é horrível!


FAZER AS MALAS – por Ana Miranda

Vivemos agora sempre a fazer as malas. Uma viagem vem depois da outra, que vem seguida de outra, às vezes uma emenda na outra, sem pausa, sem descanso. Teresina, Curitiba, São Paulo, Brasília, Diamantina…

Macau, Paris, Califórnia, Frankfurt, Praga… Os escritores, hoje, são quase caixeiros-viajantes. Nômades. Ambulantes. Mascates de literatura. Em vez de escrever uma página de romance, estão a fazer as malas.

Fazer as malas é uma arte. Ainda mais agora, que as companhias estão cobrando pela bagagem. Acabou-se a festa da mala farta, com mudas de roupa para se escolher à vontade. Encontrei no aeroporto uma senhora que estava arrasada, teve de pagar oitocentos reais por uma mala extra, de uns vinte quilos.

Sempre viajei com uma mala média, nem tenho a grande. Levo uma mala dobrável que fica pequenina, para quando a bagagem aumenta, em geral com livros gentilmente presenteados. Os escritores sempre devem prever isso.

Preciso, precisamos, todos os viajantes, ser quase mestres ao arrumar a mala. Preciso, precisamos aprender a viajar só com a mala de mão, aquela que cabe dentro do caixotinho de papelão que as companhias tiraram do oblívio.

Boas aulas serão, de planejamento e austeridade. Para mim, a solução é levar umas roupas básicas e acessórios. A mesma roupa toda preta muda a cada echarpe que eu jogue sobre os ombros. Uma se transforma em cinco, seis. A arte do desdobramento. O milagre da multiplicação dos looks.

“Encha uma pequena mala com frases feitas, se puder, abençoe o rapaz e deixe-o ir”, escreveu Machado de Assis. Ao viajar, claro, além da mala leve os assuntos, as pesquisas, os elogios, os poemas e os sonhos. Leve um sorriso, guarde as lágrimas dentro dos sapatos.

Viajei há anos com a Nélida Piñon, uma escritora elegante e minuciosa, para passarmos apenas dois dias numa cidade. Quando viu a minha quase masculina mala em sua sobriedade, ela me disse: Meu amor, não viaje com malas tão pequenas, as mulheres precisam ser caprichosas! Achei muita graça, só mesmo uma escritora como a Nélida para usar tão bem a palavra “caprichosa”.

Uma história conhecida é a de John Updike, o escritor norte-americano. Ele chegou a Israel e viu que sua mala fora extraviada, ficou sem roupas, sem nada. Fez uma palestra no dia seguinte com o mesmo paletó da viagem. E saiu no jornal que ele era o escritor mais amarfanhado jamais visto.

Dez dicas para arrumar mala: 1, malas ou mochilas de rodinhas; 2, planejamento para o dia a dia da viagem; 3, roupas básicas, leves, cores neutras, tecidos que não amassam, e secam numa noite; 4, um kit de eletrônicos e cabos para viagens; 5, ponha as meias dentro dos sapatos; 6, roupas muito bem dobradas em rolinhos; 7, leve um cabide descartável para desamassar roupas no vapor do banho; 8, pequenas nécessaires: para maquilagem, para remédios, para cosméticos; 9, tenha um kit de pequenos frascos para shampoo etc. ; 10, um amigo ensinou: nunca viaje sem um par de tênis ultra confortável. Principalmente para as viagens com longas caminhadas. O aeroporto de Hong Kong por exemplo é quase uma maratona.

Viajar é mudar de alma, dizia o Mário Quintana. Então, vá de malas prontas e alma aberta. A verdadeira viagem do descobrimento não consiste em procurarmos novas paisagens, mas em ver com novos olhos (Proust). Então, leve um bom par de novos olhos na mala.

Um amigo, um historiador inglês, viaja tanto e fica tão pouco tempo em cada lugar, que nem chega a desfazer a sua mala. Ele se apaixonou por uma escritora quando a viu lavando e passando a ferro as suas camisas que estavam socadas na mala.

“Esta vida é uma estranha hospedaria”, diz o Quintana, “De onde se parte quase sempre às tontas, Pois nunca as nossas malas estão prontas, E nossa conta nunca está em dia”. Ah, leve na mala uma cópia do seu documento e outra de seu cartão de crédito. Mala feita?

Alguém diria, Você não faz a mala, a mala é quem faz você. Lá vou eu, vou-me embora, mais uma vez, levando a minha maleta cinza repleta de saudades e com vontade de voltar.

ANA MIRANDA


O PENSAMENTO TEM PONTUAÇÃO? – por Ana Miranda

Fico pensando se o pensamento tem pontuação ou não tem pontuação, essa é uma polêmica que existe dentro da literatura tanto para escritores como para leitores: tem ou não tem pontuação? tem parágrafos?

Tantos leitores estranham os textos modernos que não usam vírgulas nem pontos nem ponto e vírgula, nem exclamação nem interrogação, mas são perfeitamente compreensíveis. Sobretudo, textos de monólogos interiores. E fica a dúvida. O pensamento tem pontuação?

Essa polêmica existe desde que James Joyce escreveu a última parte de “Ulisses” (1921), uma técnica narrativa chamada fluxo de consciência, ou então, corrente de pensamento e num monólogo interior de sua personagem Molly Bloom ele escreve sem pontuação. A Molly pensa assim:

… “agora a minha vez está chegando eu vou ficar muito alegre e amiguinha na coisa oh mas eu estava esquecendo esta peste de droga de coisa puh a gente não sabe se rir ou se chorar a gente é uma mistura de ameixa e maçã” …

Parece demais um pensamento fluindo dentro de uma cabeça de mulher, mas não são só a não pontuação e os não parágrafos que dão a sensação de que estamos mesmo lendo um pensamento e sim, também, a linguagem fragmentada. Vale a pena ler o famoso “monólogo de Molly Bloom”. Liberta a nossa mente um pouco mais. Espanto! Descobertas! Diversão.

O romance de 852 páginas se passa em Dublin, a cidade heroína maldita de toda a obra de Joyce, que lhe parece um labirinto, de onde seu personagem Stephen Dedalus precisa escapar assim como o mitológico Dédalo escapou do labirinto de Creta.

… quantos labirintos temos em nossas vidas para nos aprisionar e nos fazer perder ou nos sentir perdidos ou sem saída?!?! A pontuação nos ajuda a sairmos dos labirintos? Ou ajuda a nos perdermos ainda mais?

“Ulisses” transcorre num único dia, 16 de junho de 1904, e é narrado num prelúdio em três partes, um núcleo de doze capítulos e um final tripartido. Essa divisão numa perfeita simetria foi estudada com o auxílio de computadores e “Ulisses” é considerada, desde então, a obra de estrutura matematicamente mais perfeita de toda a literatura. Também a linguagem é obra-prima.

James Joyce cria uma linguagem que vai da poesia à ópera, da farsa ao sermão, do teatro ao coloquial de rua, usando não apenas termos que usamos no dia a dia, desde a conversa mais clássica até a mais grosseira gíria, mas usa também elementos criados a partir de seus “conhecimentos de latim, grego, sânscrito e uma vintena de idiomas modernos”.

Nos 18 episódios ele organiza 18 formas narrativas diferentes, e em muitas dessas ele segue a técnica do monólogo interior, o fluxo de memória e do inconsciente de personagens que pensam em voz alta, criando assim a ideia da infinita complexidade da existência humana.

Narrativa juvenil, catecismo pessoal, monólogo masculino, narrativa madura, narcisismo, incubismo, dialética, labiríntica, desenvolvimento embriônico, alucinação, narrativa senil, catecismo impessoal, monólogo feminino, são algumas das formas narrativas que ele cria.

Faz um paralelo com a “Odisseia” de Homero, o mais antigo texto de ficção que conhecemos (século VIII a.C.). Joyce faz uma viagem não a Ítaca, mas uma viagem experimental ao mundo moderno, sintetizando de forma quase mágica nossos avanços científicos, nossas questões religiosas, raciais, estéticas, sexuais, sociais.

Outra lenda que cerca este livro de Joyce: você, que diz ter lido “Ulisses”, realmente, enfrentou todas as páginas? Você realmente leu todas as páginas de “Ulisses”?

Muita gente se encantou com os livros do Saramago e pessoas comentavam o uso que ele fazia da não pontuação e da marcação dos diálogos, Eu nunca pensei nisso antes, ele disse, era assim…

Acho engraçado porque estou sempre lendo textos bem antigos, do século 15, do século 16, e ali não há nenhuma pontuação, nem vírgulas nem pontos nem pontos e vírgulas, e a pontuação de um sermão de Vieira é totalmente diferente da que usamos hoje, e então, penso que a pontuação é apenas uma marca do tempo.

Ana Miranda