OS ALTO-FALANTES DOS SMARTPHONES

Uma nova praga – agora – é ouvir as vozes esganiçadas dos locutores desses sites de relacionamento divulgando infantilidades que são reproduzidas à medida que rolam tela abaixo as sucessivas postagens recebidas pelos smartphones.

A gente não consegue mais ouvir o silêncio das pessoas, mesmo as mais amadas. De repente, não mais que de repente, ouve-se um alto-falante que destrói qualquer concentração e que desestrutura você completamente.

Isso devia ser considerado uma invasão sonora da sua privacidade. Silêncio, por favor; eu não sou uma biblioteca, nem um hospital, mas mereço que não façam barulho, porque, quando escuto uma voz, tal como aprendi na escola primária, penso que é um professor e presto atenção.

Não me levem a mal. Quando sentarem para conversar comigo podem ver as imagens do celular. Mas abaixem o som, por favor.


O ILUSÓRIO CHARME DA CORREÇÃO MONETÁRIA

1 – A soberania monetária – Soberania monetária é a competência de cada País, reconhecida internacionalmente, para emitir uma moeda nacional.

A moeda é um fenômeno nacional inexistindo um Banco Central mundial que emita uma moeda internacional, salvo no caso do Euro, que é uma moeda comum supranacional.

Diante de cada moeda nacional a moeda e os créditos de outro País são estrangeiros: o dólar, por exemplo, é uma moeda estrangeira face ao Real que, por sua vez, é uma moeda estrangeira face ao dólar.

O convívio internacional das diversas moedas nacionais se dá através das taxas de câmbio que são fixadas pelos países monetariamente soberanos para que a moeda e os créditos estrangeiros, convertidos em moeda nacional, possam valer e circular em seus respectivos territórios.

O fato de certas moedas nacionais serem consideradas mais “fortes” do que outras e de que haja, de fato, zonas de influência monetária (no sentido de que o comércio entre países de certas áreas usa mais uma determinada moeda do que a moeda do outro) não significa que a divisa mais utilizada seja uma moeda internacional (por exemplo: embora o Brasil esteja inserido da zona do dólar a sua moeda nem por isso é o dólar).

2 – A igualdade das pessoas frente à sua moeda nacional – A moeda nacional é igual para todos. Ela incide da mesma forma sobre todas as pessoas, pobres ou ricas.

Como, porém, ela é emitida, tenha existência física, e seja passível de acumulação pelas pessoas, a sua distribuição na prática, pode ser, como sempre tem sido, desigual.

A igualdade formal não importa numa igualdade material. Mas isso não significa que a isonomia diante da moeda deva ser abandonada.

3 – Diferença entre moeda e crédito – A palavra dinheiro, usualmente, abrange não só as peças monetárias como os títulos de crédito e as obrigações monetárias em geral, o que acarreta uma certa confusão de nomenclatura. Moeda e crédito são fenômenos bem diferentes e não devem ser confundidos.

Tecnicamente falando, os créditos, títulos, papéis, preços, etc. têm na moeda o seu fundamento de validade. Há, portanto, entre eles, uma diferença de nível.

Se figurarmos a ordem monetária como uma pirâmide, imaginando-a como uma estrutura escalonada, podemos ver, nitidamente, a diferença entre a moeda e as obrigações monetárias. A moeda, nessa imagem, está no topo da pirâmide, sendo hierarquicamente superior a todas as obrigações monetárias, situadas em sua base.

4 – A oscilação do poder aquisitivo – A moeda é um valor. Os créditos nela expressos são valores. Tanto a moeda como os créditos podem ter maior ou menor eficácia ao longo do tempo, o que pode ser medido por números-índice.

Como vivemos num grande mercado, não só nacional como internacional, é de nosso interesse que não ocorra a redução imprevista do poder de compra da nossa moeda.

Aqui no Brasil, depois que o Plano Collor I foi interpretado como um “confisco” da poupança – e, sendo o confisco, por definição, uma punição que consiste na perda da propriedade – o poder aquisitivo, no imaginário popular, perdeu a sua natureza estatística, e tornou-se, erroneamente, objeto do “sagrado” direito de propriedade, merecedor de proteção máxima pelo Poder Judiciário (o que é uma evidente distorção).

5 – A correção monetária – A correção monetária é sinônimo de indexação compulsória. Ela se aplica, obrigatoriamente, através de indexadores que têm a função específica de reajustar as quantias segundo a variação dos seus respectivos poderes aquisitivos.

Historicamente, o que se pretendeu, através da correção monetária brasileira, foi encontrar um instrumento capaz de permitir aos agentes econômicos “conviver” com a inflação.

Mas há uma contradição lógica na correção monetária, desde logo perceptível. Ela se propõe a reajustar as obrigações monetárias segundo a variação do seu poder de compra. Mas só pode ser imposta a certas obrigações monetárias adrede selecionadas – e não a todas – porque se incidisse igualmente sobre todas, nos mesmos níveis e com a mesma frequência isso equivaleria a não haver correção alguma.

O ideal seria a generalização da indexação, mas essa generalização não pode ser promovida pois isso implica a sua destruição. Trata-se, como se vê, de uma ilusão.

Por outro lado, a correção monetária viola, sub-repticiamente, a soberania monetária propiciando a aplicação disfarçada de moeda e de créditos estrangeiros a determinadas obrigações nacionais, sem controle da autoridade monetária.

Com efeito, as autoridades monetárias exercem a soberania monetária do País não só através da emissão ou retirada de circulação de uma quantidade determinada de peças monetárias como por meio da taxa de câmbio a qual possibilita o emprego da moeda e dos créditos estrangeiros nas ordens monetárias nacionais. A soberania monetária exige, em todos os países, que sempre fique claro e transparente quais são a moeda e os créditos nacionais e quais são a moeda e os créditos estrangeiros.

Ora, a aplicação a certas obrigações selecionadas ( a pretexto de corrigir a inflação ) de um indexador compulsório correspondente à relação entre poderes aquisitivos, respectivamente em dólar e em reais, permite burlar o controle das autoridades monetárias sobre o emprego indireto do dólar a essas obrigações. Senão, vejamos:

Compara-se, primeiro, a variação dos poderes aquisitivos da moeda e créditos em real e em dólar (estes últimos normalmente estáveis) em determinados períodos de tempo, estabelecendo uma relação de grandeza entre ambos. Descreve-se em seguida, essa relação num número-índice. Quando esse número-índice é transformado num indexador compulsório (que é uma norma) da sua aplicação compulsória resulta a aplicação do dólar à uma obrigação nacional, sem qualquer controle.

Deve salientar-se, por último que a correção monetária não é similar aos juros, que são tradicionais acessórios da obrigação principal. A correção monetária, ao contrário, é considerada um acréscimo ao principal da dívida. A única semelhança aparente entre esses dois fenômenos – sem esquecer que a correção monetária foi inventada por brasileiros e só existe no Brasil – consiste em que ambos decorrem do decurso de um período de tempo.

6 – Conclusões:  A correção monetária gera, necessariamente, uma desigualdade formal entre os brasileiros e propicia a incidência camuflada do dólar na economia nacional, sem controle por parte das autoridades monetárias.

Adotá-la, pois –  ainda mais num Pais com território e população imensos como o nosso, com uma economia muito diversificada, em que maior parte das pessoas não consegue ficar ao seu abrigo –  provoca injustiças e conflitos, criando uma forma anômala de duplicidade monetária.

Essa é uma questão central para entender a atual crise econômico financeira em nosso País; crise essa que começou, na verdade, com a tomada do Poder pelo Movimento Empresarial Militar de 1964, sob cuja égide foi editada a Lei n. 4.357, de 1964, que instituiu a ORTN ( Obrigação Reajustável do Tesouro Nacional ) como indexador compulsório que acabou corrompendo a histórica unidade monetária do Brasil que era o cruzeiro.


DE NOVO, ISOLADOS

Li, no Globo, dois textos de economistas – um professor da PUC-Rio e uma jornalista econômica – repercutindo a sensação de exclusão a que os cariocas ficaram expostos diante do conflito entre facções de traficantes da comunidade da Rocinha, situada estrategicamente na saída do Túnel Zuzu Angel, que liga a Zona Sul à Zona Oeste da cidade.

Quando vim morar na Barra da Tijuca, ha quarenta anos, senti-me, inicialmente, isolado até que, aos poucos, a Nova Ipanema foi se integrando à cidade através, inclusive, da Linha Amarela que nos ligava à Zona Norte. O Riocentro, programado para ser o Centro do Rio, e o crescimento do Recreio, alongando-se para Guaratiba, deram-me a sensação adicional de que enfim tínhamos passado a fazer parte integrante da cidade.

Eis que a Rocinha mostrou o quanto nós erramos ao mantê-la distante de nós.

Como na fábula “Pedro Mico”( uma peça de Antônio Callado que fez muito sucesso num teatrinho de bolso de Ipanema nos tempos de minha adolescência ) a Rocinha desceu e meus filhos, noras e netos passaram a ter medo de vir para a Barra. O casal ficou, de novo – tal como na época do areal imenso que havia por aqui – isolado.

Na minha infância, no Jardim Botânico, convivi de igual para igual com os filhos dos operários da fábrica de tecidos Carioca Industrial que havia perto da minha casa o que deve ter feito bem à minha formação moral, porque aprendi com isso a ser tolerante com as outras pessoas. Ao invés de nos integrarmos, ricos e pobres, para viver mais próximos, nós, os cariocas, optamos, contudo, por nos distanciar, cada vez mais.

Nos tempos de Juscelino, ele fizeram Brasília, e tiraram da minha cidade o status de Capital da República. Na época do Golpe Militar nos impuseram uma Fusão desastrosa com o antigo Estado do Rio de Janeiro. Muito mais tarde, cheguei a pensar que a boa vontade de Lula com Sérgio Cabral e os planos de fazer aqui as Olimpíadas fossem capazes de resgatar o esplendor da minha cidade. Qual nada: o desvairado governador via cada investimento público como uma oportunidade de negócio para se tornar milionário e poder ostentar riqueza e renegar o seu passado de pobre rapaz do subúrbio.

Melancólicas lembranças.

Mas ainda é tempo de as novas gerações cariocas do futuro descobrirem os encantos de uma população de várias classes sociais unidas e de promoverem essa união.

Assim espero.


O EQUIVOCO DA IMPRENSA AO CHAMAR DE “GUERRAS” AS MEDIDAS CONTRA O TRÁFICO DE DROGAS

Basta uma razão: esse sensacionalismo da imprensa serve para que os “mulas” e demais pessoas ( em geral jovens ) subordinados aos chefes traficantes considerem-se “guerreiros” o que aumenta a sua autoestima e lhes dá notoriedade e prestígio.