MAIS UM EQUÍVOCO TEÓRICO DO SITE DO BACEN

Já tive oportunidade de apontar o erro de comunicação do Banco Central do Brasil ao afirmar, em suas diversas páginas da Internet, que a missão do órgão é “manter o poder de compra da moeda” e não – como deveria ocorrer – assegurar a validade dela.

O mesmo acontece quando o BACEN endossa a versão corrente dos livros textos de economia de que a origem da moeda é a troca.

Essa suposição de Aristóteles, na Antiguidade, em que se apoiou Adam Smith, na Idade Moderna, não se baseia em prova histórica alguma, como já expus num texto publicado neste Blog sob o título “Questionando a noção de valor de troca”, que enriqueço com a citação seguinte, extraída do livro “Trabalho e Moeda Hoje, A chave para o pleno emprego e a estabilidade dos preços”, de L. Randall Wray ( tradução de José Carlos de Assis, revisão técnica de Aloísio Teixeira, Rio de Janeiro, editora UFRJ/Contraponto, 1998 ), in verbis:

“A maioria dos textos sobre moeda e bancos começa com uma história sobre as origens do dinheiro, segundo a qual o comércio primitivo era baseado em escambo, até que o homem descobriu que certas mercadorias poderiam ser usadas como um meio de troca, para eliminar a “dupla coincidência de desejos” exigida para que o escambo pudesse ocorrer. Uma caricatura primitiva dessa crença é apresentada por A. Mitchell Innes … ( “What is Money”, Banking Law Journal, p. 377-408, maio, 1913 ) . Entretanto, ‘pesquisas atuais no campo da história comercial e da numismática’ demonstram que ‘nenhuma dessas teorias apoia-se em uma sólida base de prova história – que de fato são falsas’ ( ibid. p. 378 ). Resumidamente, não há nenhuma evidência de que os mercados operaram numa base de escambo ( exceto em circunstâncias extraordinárias como em campos de prisioneiros de guerra ), não há nenhuma evidência de que ‘ diferentes mercadorias tenham mudado de mãos como meios de troca ( isto é, para comprar mercadorias no mercado ), não há nenhuma evidência de que o valor das moedas primitivas fosse determinado por um certo peso fixo de metais preciosos, e não há nenhuma evidência de que o crédito tenha se desenvolvido como um substituto ‘capaz de economizar’ moedas de metal precioso como meio de troca.”

O fato do nosso Banco Central deter uma autonomia operacional de fato não impede – antes, deveria estimular – que sejam criticados os seus atos ( em parte responsáveis, de resto, pela queda do governo anterior, com a sua desmedida elevação da taxa de juros ).

A atual Diretoria do Banco, cuja política de redução das taxas de juros é, hoje, a única credencial política do governo – que a opinião pública considera, com razão, em seus demais aspectos, lastimável – poderia aproveitar a lucidez que, aparentemente, tomou conta da entidade e promover uma revisão dos conceitos de que ele se utiliza para comunicar-se com a sociedade e o mercado de capitais, superando aqueles ultrapassados e evitando apoiar-se nos que estão sendo atualmente postos em questão.


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