O OUTRO LADO DO MUNDO – por Ana Miranda

Pés moídos, olhos avermelhados, o coração machucado de saudades, a maresia do Índico na pele, fabulosas lembranças… estou de volta.

Ora, vá pra China! Diziam antigamente, querendo se ver livres de uma pessoa, a China era tão longe que ninguém voltaria.

E lá estava eu na China. Não propriamente a continental, mas uma das ilhas que lhe pertencem, desembarcando na ilha de Taipa, na península de Macau.

A oeste da foz do rio das Pérolas, adjacente à província de Guangdong, a Ostra Espelho, o Mar de Espelho, a Porta da Baía, templo invisível da deusa A-Ma Gao, com ecos misteriosos dos pescadores de há cinco mil anos, Macau se desenhava acima da água em luzes coloridas. Parecia Las Vegas, com um meigo toque oriental.

Ao descer do ferryboat, recebidos por um calor tropical e um tufão menor que o do Cão-guaxinim, ouvi alguém dizer, Pisamos a Ásia. À minha frente, havia um painel com as informações escritas em chinês, e traduzidas em português.

A sensação era de que eu estava vivendo o mesmo encontro de Fernando Pessoa, ao ler, maravilhado, os sermões de Vieira, e com os olhos marejados o poeta exclama, Minha pátria é a língua portuguesa! Sim, eu me senti em casa ao ver a minha língua escrita por todos os lados.

Rua da Companhia de Jesus, das Flores, Hotel Rio, Cartório da Sé, bairro de São Domingos, Leal Senado, Ilha de Lapa, Alto de Coloane, Colina Verde… Que calor! Onde estão os ventos secos da Sibéria?

Macau nem sempre foi rica, mas foi primeiro com os mercadores passando por ali no comércio entre China, Japão e Europa, depois ficaram na miséria quando um xogum japonês proibiu o comércio e teve uma Guerra de Ópio. Agora estão bilionários, com os cassinos. Quase tudo em Macau é cassino.

Chineses em massa atravessam no ferryboat para ir aos cassinos. Há histórias como a de um homem muito rico que apostou toda a sua fortuna e perdeu, foi para outro país, trabalhou anos e anos até enriquecer novamente e voltou ao cassino, apostou toda a sua fortuna e novamente a perdeu.

Querem suavizar os males do jogo na cidade, fazendo uma grande revolução cultural, levando mesmo para dentro dos cassinos as artes, a música, a dança, o teatro, a literatura, o cinema.

Compridas procissões de turistas passam pelas ruas estreitas repletas de pequenos restaurantes enfumaçados, mil letreiros em chinês, mil lojinhas tão entulhadas que nem se sabe o que vendem. E sobem pelas escadarias de pedras tórridas, cercadas de jardim.

No alto de uma colina, as ruínas de uma catedral incendiada, de São Paulo, apenas a fachada, linda, soturna, encima a paisagem. Em contraste, quando nos viramos para o outro lado, vemos um arranha-céu abrindo no topo em leque, cheio de detalhes. Tudo, lá, são detalhes.

A letra deles é inacreditável, tem uma quantidade de tracinhos para cada som que cada uma parece um labirinto rabiscado, e todas juntas, escritas muito perto umas das outras, parecem um fantástico emaranhado de desenhos.

Uma mesma palavra pode significar “agarrar”, “maçaneta” e “entre”. Eles não têm alfabeto, nem transcrevem os sons, mas desenham os significados. Cada dialeto pronuncia diferente cada palavra.

As chinesinhas que sabiam português falavam lindamente. Algumas diziam, endeleço, pasta de tlabalho, palestla… O diretor que fez um discurso era suave, cheio de ideias boas, disse, Quelemos a língua poltuguesa.

Seda, pérolas. Ouro, muitas pulseiras, anéis, colares de ouro nas vitrines em torno dos hotéis, em desenhos delicados de ourivesaria. Pasteizinhos de Belém, padarias repletas de doces, placas de carne adocicada…

Comi dezenas de pratos tirados do vapor em cestas redondas de bambu, que eles ofereciam como espetáculos de degustação aos cem estudiosos que mostravam ali seus trabalhos em língua e literatura. E três escritores, um português, um africano e uma brasileira. Era o congresso da Associação Internacional de Lusofonia.

Pés moídos, olhos avermelhados, o coração machucado de saudades, a maresia do Atlântico na pele, as lembranças… estou de volta.

Ana Miranda


1 comentário até agora

  1. jose neves agosto 7, 2017 1:51 pm

    Que prosa gostosa! Queremos mais!

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