A CORREÇÃO MONETÁRIA E SUAS ARMADILHAS

É curioso notar como os analistas brasileiros, em sua maioria, por mais qualificados que sejam, não entendem ao certo, até hoje, em que consiste a correção monetária.

Suas hesitações são provocadas, a meu ver, pela combinação nefasta  de duas características com  que esse fenômeno se apresenta e são incompatíveis entre si, ou, como se dizia antigamente,  hurlent de se trouver ensemble.

A correção monetária é, ao mesmo tempo, ideológica e compulsória, por isso ela é tão difícil de ser compreendida.

A tese valorista geral ( ou seja, o abandono da relevância da unidade de medida de valor adotada para a identificação da quantidade de peças monetárias objeto da prestação) constitui uma afirmação meramente ideológica que jamais se realizou na História.

Aqui no Brasil, mesmo no auge da Indexação, a unidade monetária nacional sempre surgia, afinal, como indicador final do pagamento que deveria ser efetuado: não deixou nunca de ser o chamado “meio último de pagamento”.

Ainda assim, a indexação se tornou compulsória.

“Só que” – como diz Mario Henrique Simonsen em seu livro 30 anos de Indexação ( publicado no Rio de Janeiro, pela FGV editora, em 1995 – “ não se pode falar em livre funcionamento dos mercados com indexação compulsória”

Achar que o poder aquisitivo deve reajustar a moeda à medida que ocorre a inflação é uma opinião ( a meu ver, de resto,  equivocada ). Muito diferente, de qualquer modo,  é compelir alguém a indexar cada obrigação segundo diferentes índices e frequências e a não indexar outras. Isso finda por provocar uma confusão que dificulta a vida de todos.

A despeito das tentativas politico-ideológicas de generalização da compulsoriedade da indexação, e levando em conta, por outro lado, que o território brasileiro é muito extenso e a população imensa, as diversas unidades monetárias posteriores a 1964 – Cruzeiro Novo, Cruzado, Cruzado Novo, Cruzeiro e Cruzeiro-Real – encontravam um jeito de sobreviver, de uma forma ou de outra, o que gerou perplexidades que não se resolviam na prática, nem foram equacionadas corretamente na teoria. Igual problema está sendo vivido hoje pelo Real ( atual unidade monetária ) e a Selic ( atual Indexador )

Essas armadilhas precisam ser desmontadas pelo governo, qualquer que ele seja ou venha a ser, para que possamos traçar uma estratégia econômica de longo prazo que nos ajude a sair do atoleiro em que estamos metidos atualmente.


1 comentário até agora

  1. José Neves agosto 3, 2017 3:46 pm

    1 – Seria, talvez, como pretender reajustar a unidade metro, para alguns – v.g. em função da dilatação – mas não para outros. Ou pretender reajustar a unidade kilo – em função da evaporação ou da umidade – para uns, mas não para outros. É óbvio que se houvesse o reajuste para todos a medida seria ‘zerada’ e não faria sentido a sua adoção.
    2 – Ou ainda: ao proteger o credor com a correção monetária da moeda no momento do pagamento, na verdade queda desprotegido o devedor, pois,entesourando, em tese, a moeda recebida em espécie, sofreu tanto os efeitos da inflação como o credor…
    Entendi bem?!

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