O NÓ DO CONSUMISMO (IR)RESPONSÁVEL – por Alvaro Esteves

Sob o ponto de vista individual, desconfio que ainda haja um nó importante a ser desatado. É a cultura do consumismo, onde reside a maior barreira para que todas aquelas ações sejam capazes de se sobrepor aos problemas sócios ambientais. Mais uma vez toco no assunto da cultura.

Continuamos nascendo e crescendo em meio a esta cultura de consumo/consumismo, dela incorporando símbolos, valores e tradições, achando muito natural que assim seja (shopping centers, griffes, a febre dos equipamentos eletrônicos, etc).  É a presença da conhecida (e perigosa) expressão “Meu sonho de consumo é….”   É a TV que repete (e às vezes grita)  como um mantra: “Compre, Compre, Compre”. “Tá barato, Tá barato, Tá barato”.

Às vezes essa parece uma guerra perdida. A publicação “Estado do Mundo 2010” diz: ”…pedir às pessoas que vivem em sociedades de consumo que restrinjam o consumo é o mesmo que lhes pedir para parar de respirar – elas conseguem fazê-lo por um momento, mas depois, arquejando, inalarão ar outra vez”. É uma visão bastante pessimista, cá entre nós.

Como é que se desata, então, este nó? Como se reverte uma lógica dominante? Já que estes padrões não são nem sustentáveis nem manifestações inatas da natureza humana, acho que não podemos deixar de conversar um pouco mais sobre esta difícil barreira que é lidar com o R de reduzir.

Um bom ponto de partida é entender que consumir consome tempo. Pode representar muito tempo mesmo, se formos somar todas as parcelas de uma situação hipotética de compra, no varejo tradicional:

1)Tempos relativos à compra

– Tempo para se preparar para sair

– Tempo de deslocamento de ida (até o local da compra)

– Tempo da transação em si:

– Tempo de escolha (pode começar bem antes da compra)

Lembre: A variedade de alternativas muitas vezes nos confunde e nos toma tempo até que elejamos a preferida, desde as compras triviais de supermercado, até aquisições de bens duráveis. Isso se agrava cada vez mais, com a proliferação novas marcas e produtos. A falta de objetividade pode atrapalhar ainda mais neste momento.

– Tempo na fila para pagar

– Tempo do pagamento

– Tempo da retirada da mercadoria comprada

– Tempo de deslocamento de volta

Ressalva: as compras online têm estes tempos  consideravelmente simplificados.

2)Tempos do pós compra

– Tempo de reclamação (eventual, se algo não está correto), que pode implicar em voltar ao ponto de venda, nem que seja para devolver. E pode implicar em muitos minutos ao telefone.

– Tempo de aprendizado de uso (se é produto novo)

– Tempo para manutenção – podem nos exigir quotas de horas para as quais não estávamos decididamente preparados antes da compra.

3)Tempo de desperdício no uso

Sem que tenhamos avaliado o número de horas necessárias para usar o que compramos, acabamos esquecendo de muitos objetos que fizemos entrar em nossas vidas: livros que não foram lidos até o fim, discos ouvidos apenas um par de vezes, fotos e gravações em vídeo que jamais foram repassadas, eletrodomésticos que passaram a não fazer sentido quando chegaram em casa; roupas e sapatos comprados na liquidação porque estavam “muito baratos” que ficaram esquecidos em algum canto do armário. Ou seja, gastamos “horas” para literalmente nada.

Nessa mesma linha de constatações, há uma outra fonte de desperdício incalculável do chamado mundo desenvolvido: o das funções não utilizadas nos aparatos tecnológicos, especialmente digitais. Poucos de nós leem os manuais técnicos, e raros são os que usam as enormes possibilidades de um celular ou de uma máquina fotográfica, só para dar dois exemplos comuns. Usa-se o básico e pronto.  O que nossa civilização tem estocado em funções nunca usadas é um verdadeiro escândalo de que pouco se fala, levando-se em conta os custos socioambientais utilizados para fabricá-las. Pense nisso ao fazer escolhas do que comprar.

E finalmente:

4)Tempo para o descarte

O que fazer agora que está claro que não queremos mais a “coisa”. Alguns objetos têm o descarte difícil, às vezes até problemático. Mesmo uma doação acaba levando tempo.

A premissa do livro Tempo Orgânico, que publiquei a propósito do tema, é que  é a escassez de tempo, razão pela qual temos, nesta oportunidade, vários pontos que merecem séria reflexão.

Há quem ache que todo este somatório de tempo é prazeroso e que ir ao shopping passar horas fazendo compras, por exemplo, é um bom programa. E pode ser mesmo um programa, se você tiver tempo sobrando (o que parece que não é exatamente o nosso caso). O problema é isso continuar sendo um hábito, um padrão, se repetindo mais e mais vezes, como um replay sem fim.

Há, por outro lado, quem esteja convencido de que consumir é um exercício de poder de quem consome, que pode e deve ser usado para induzir mudanças de comportamento das empresas, nos seus processos de produção e distribuição e na gestão dos ciclos de vida de seus produtos.

Alvaro Esteves


3 comentárioss até agora

  1. josé neves julho 29, 2017 11:41 am

    Ou seja, os que compram pela Internet não têm salvação…

  2. Alvaro Esteves agosto 2, 2017 7:19 pm

    Prezado José Neves:
    Os que compram pela Internet (cada vez mais gente) só tem algum “refresco” de tempo no primeiro dos itens a que me refiro (Tempos relativos à compra). Nos demais casos, sào penalizados da mesma maneira que o comum dos mortais que vai a um shopping ou a uma loja de rua para fazer suas compras.
    No item 2 , Tempo de Pós compra, os que optam pela Internet podem ser penalizados no caso da loja virtual não ter uma bom canal de atendimento (muitas lojas ainda não têm), o que lhes tomará mais tempo para resolver qualquer problema com a transação realizada.
    Abs

  3. José Neves agosto 3, 2017 3:52 pm

    Correto, cumprimentos pelas argutas ponderações.

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