UM LIVRO A FAVOR DOS DEVEDORES

A editora Lumen Juris, do Rio de Janeiro, acabou de publicar o livro “Contra a Correção Monetária”, de minha autoria, em que defendo o princípio nominalista, tal como formulado por um economista alemão famoso no início do século XX, Georg Friedrich Knapp.

Naquela época o papel moeda já dominara o meio circulante e tornara obsoleta a peça monetária de metal o que causou uma grande transformação em todo o mundo ocidental. O ouro, a prata e o cobre que, durante séculos, pareciam conter valor intrínseco perderam o seu significado e foram substituídos pelo papel, que não valia nada. Era preciso dar uma explicação econômica para isso o que coube ao economista alemão fazer.

Segundo Knapp, a moeda era uma unidade de valor que tinha um fundamento histórico. A peça monetária não valia por causa de seu conteúdo de metal mas porque as repartições do Estado a recebiam em pagamento dos tributos. O seu fundamento de valor era a unidade monetária anterior. O homem da rua era metalista, acreditava no metal; o intelectual, porém, devia ser nominalista, atento à validade da moeda e não ao seu conteúdo material. Propunha-se um pensamento radical que hoje – com mais de 100 anos de antecipação – explica em grande parte o fenômeno novo das chamadas “moedas virtuais” que assombra os pesquisadores.

A lição de Knapp tinha, contudo, um “defeito”: o seu nominalismo não era favorável aos credores, que haviam acumulado metais ao longo dos tempos. Ele, ao contrário, poderia beneficiar os devedores, provocando inflação. Embora seu ensinamento obtivesse a aprovação de vários economistas e sociólogos, dentre os quais dois dentre os maiores intelectuais do século passado – John Maynard Keynes e Max Weber – ele precisava ser desmoralizado, já que era desfavorável aos interesses dos poderosos, motivo pelo qual a Teoria Estatal da Moeda de Knapp foi duramente atacada pelos ortodoxos liberais econômicos, especialmente o polêmico Ludwig Von Mises, que a denunciou como “acatalática”( isto é, como não catalática, ou melhor, como desprezadora da riqueza ). A pena do  esquecimento foi imposta a Georg Friedrich Knapp que, com o passar dos tempos, passou a ser injustamente lembrado como aquele responsável pela hiperinflação alemã da década de 1920, que merecia a execração da Academia.

Aqui no Brasil – que vivemos, desde sempre, na periferia cultural do mundo –  no bojo do movimento empresarial militar que nos impôs uma ditadura, surgiu um pensamento econômico inteiramente antagônico ao de Knapp que teve por objetivo proteger os mais ricos, tornando-os cada vez mais ricos. Para que essa forma nova de pensar fosse bem-sucedida ela carecia do apoio da burocracia tributária, estamento líder do Estado patrimonialista brasileiro, representante de governos que nos espoliam dando-nos cada vez menos em troca. O feitiço se voltou contra o feiticeiro e a indexação compulsória, ao impedir o surgimento de um saudável capitalismo brasileiro, permutando-o pelo que se convencionou chamar “capitalismo de compadrio”, mostrou o perigo de um País não ter a sua verdadeira moeda mas uma contrafação dela, denominada correção monetária.

São essas algumas das questões que proponho debater em meu livro, favorável aos devedores que, no final das contas, somos todos nos.


1 comentário até agora

  1. Luiz Philippe julho 8, 2017 1:24 pm

    Além de articulista e analista político arguto, constato, agora, que meu amigo Letácio também é escritor! Meus cumprimentos ao autor do “Contra a Correção Monetária”. Como “devedor” reforço minha torcida pelo maior sucesso da obra recém publicada, aceitação, aliás, já assegurada, se for levada em conta a competência do Autor. Luiz Philippe

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