STEFAN ZWEIG E HANS KELSEN

Assisti, ontem, ao filme “Stefan Zweig, Adeus Europa”, que, afora a emoção que me causou – porque meus pais foram leitores de seus livros, famosos na época, embora depois um pouco esquecidos – lembrou-me de outro escritor de língua alemã, também nascido em 1881, que viveu as amarguras que Hitler causou ao mundo, especialmente aos intelectuais europeus.

Diferentemente de Kelsen, que – mesmo sendo o maior jurista de seu tempo não era uma celebridade – Zweig, por onde passava, era assediado pela Imprensa, diante da qual sempre manteve uma posição de cautela, evitando condenar, de público, a sua pátria natal, o que é mostrado com muito critério no filme. Ao contrário de Zweig, que cometeu suicídio em sua casa em Petrópolis – sobre o que Alberto Dines escreveu um livro excelente – Kelsen faleceu de morte natural, em Berkeley, nos Estados Unidos, com 92 anos de idade. Ambos eram, contudo, pacifistas e dedicaram parte de suas vidas a defender a união da Europa, que foi concretizada, parcialmente, através da moeda única que começou a circular em 2001.

Kelsen e Zweig  foram compelidos a se exilar porque eram intelectuais judeus. Kelsen não veio para o Brasil – para onde vieram poucos escritores, como Carpeaux e Ronai e os juristas Liebman e Ascarelli – e preferiu os Estados Unidos que era, naquele tempo, o refúgio da inteligência, a mesma que causa arrepios aos neo-nazistas que ocupam atualmente a Casa Branca.

A direção do filme é de Maria Schrader que também assina o roteiro, em coautoria com Jan Schomberg. A película foi rodada, em grande parte, em São Tomé e Príncipe – cuja paisagem simula bem a da Bahia e de Petrópolis, no Rio de Janeiro – e conta com a participação de codiretores e artistas lusófonos, dentre os quais anotei o nome de um Ruy Guerra, que não sei se é o nosso bem conhecido dos brasileiros.

A nova geração de classe média – que anda tão empolgada pelo discurso de direita – deve assistir a esse filme que evidencia a tragédia provocada pelos extremistas de sua ideologia. O Brasil, que Zweig percebeu ter as condições de ser um país pacífico e harmonioso, pode perder essas características positivas, se o ódio continuar a ser alimentado, como está sendo, em gotas, todos os dias.


Deixe um comentário

Seu e-mail nunca será publicado.