O MALDOSO ARTIGO DE GASPARI SOBRE ROBERTO CAMPOS

O artigo de Elio Gaspari no Globo, “Dois aniversários de Roberto Campos”, chega a ser malévolo. Sugere aquele tipo de pensamento muito comum –  “prefiro perder o amigo à oportunidade de contar o que sei” –  que tantas vezes nos assalta. Ele se refere às facadas que Campos recebeu da namorada no dia 28 de abril de 1981 e se tentou encobrir dizendo que ele fora vítima de uma tentativa de assalto.

O jornalista Gaspari, como se sabe, teve, como nenhum outro, amplo acesso aos arquivos do General Golbery do Couto e Silva, prócer do regime militar. Pelo que ele conta, quando o general Octávio Medeiros assistiu, pela televisão, à narrativa da versão do suposto assalto comentou: “Pra cima de mim?”. É que a cúpula do sistema conhecia Campos e não gostava muito dele.

Roberto Campos faria 100 anos agora, no próximo dia 17 de abril, e os liberais econômicos brasileiros querem celebrar a data festivamente pois endeusam-no e o vêem como seu ícone o que, certamente, é um equívoco. Ele foi  o primeiro ministro do Planejamento de Castelo Branco: primeiro não só cronologicamente como em grau de importância; um verdadeiro Primeiro-Ministro. Nessa qualidade implantou a correção monetária que, até hoje, tantos males nos causa.

Quando era presidente do BNDES Roberto Campos conheceu Bulhões Pedreira, do quadro de advogados do banco ( que na época não tinha o “S” ). Tornaram-se muito amigos e, juntos, promoveram uma verdadeira revolução financeira no Brasil destinada a superar – como efetivamente superou – os obstáculos criados pela política nacionalista de Vargas ao desenvolvimento do nosso mercado de capitais. O grande problema é que a revolução dessa dupla baseava-se num artifício destinado a ter duração limitada mas transformou-se – como várias vezes ocorre entre nós – num princípio jurídico-econômico permanente: o Indexador.

O primeiro Indexador foi a ORTN, criada pela Lei n. 4.357, de julho de 1964, que valeu como uma Reforma Monetária implícita. De 1964 até hoje essa “moeda” ORTN sobreviveu com diversas denominações – OTN, BTN, TR, UFIR, etc – e, agora, Selic. Aliás, vocês sabiam que a Selic é um Indexador? Pois é, complicam-se tanto as coisas que a gente acaba não sabendo o que é o quê. A Selic, a suposta taxa básica de juros, que o COPOM regula todas as primeiras quartas feiras de todos os meses, é um Indexador. É por isso que cada vez que o Banco Central aumenta-a, ou diminui-a, a moeda nacional, respectivamente, piora ou melhora.

Não vale a pena exaltar o Roberto Campos. O problema das facadas que lhe deu a namorada Marisa Tupinambá, contado no artigo de Gaspari, talvez não seja o mais sério,  embora seja grave que a Odebrecht , como afirma o jornalista, tenha ajudado a sustentar a amante do ex-Ministro e o dono da Camargo Corrêa tenha comprado todos os exemplares do livro que a Tupinambá publicou contado a história. Pode-se até perdoar o cinismo de Campos, que chegava a transpirar pelos seus poros. Mas não se deve esquecer que ele é o responsável remoto direto pela bagunça brasileira que estamos vivendo atualmente.

Quando for escrita a verdadeira história isenta do regime econômico pós-1964 o papel negativo desempenhado por Roberto Campos vai ficar claro. Por enquanto a gente está meio confusa, lendo o que dizem as machetes dos jornais e acreditando nas versões da mídia hegemônica. O máximo que dá para perceber é que tem alguma coisa no País difícil de entender.

A situação não está clara ainda: estamos querendo decifrar o que é o Caixa 2 enquanto a correção monetária nos impede de perceber o que é o próprio Caixa 1. Talvez por isso, em Lisboa, o ex-presidente Fernando Henrique tenha proferido a frase do dia do jornal Valor com a qual encerro este texto:

Dos quatro presidente eleitos, após a ditadura, dois caíram por impeachment: algo está muito errado.”


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