AS ORIGENS DA CRISE ECONÔMICA BRASILEIRA

No artigo do Valor, “Regressão Programada”, Delfim Netto – que muitos dizem não ser autor que se cite – escreve, a certa altura, o seguinte:

“Depois do triste fim do governo Collor, o presidente Itamar Franco criou todas as condições para o enorme sucesso do Plano Real, comandado por Fernando Henrique. Trata-se da mais fina joia produzida por competentes economistas que puderam aproveitar os ensinamentos da em sucedida estabilização de Israel. Infelizmente, ele nunca terminou: não se fez o ajuste fiscal. No primeiro mandato de FHC fizemos déficits primários, aumentamos a tributação e exageramos o uso da taxa cambial para o controle da inflação, tudo temperado com gigantesca taxa de juro real interna. Roubou-se, assim, as condições isonômicas de competição do setor industrial. No governo Lula o processo continuou.”

A vantagem dessa narrativa bem sintética é desmistificar o discurso hegemônico de que tudo de mal que está acontecendo no Brasil é culpa da inabilidade ( aliás, inegável ) de Dilma já que, anteriormente, em razão de um mágico tripé econômico, tudo eram flores.

Por outro lado, como é muito resumido, o texto suscita indagações: quais foram os ensinamentos de Israel ( que é um Estado anômalo, militarista, que recebe uma fábula de recursos externos ), quais foram as “condições todas” criadas por Itamar, e outras. É verdade, contudo, que o Plano Real “nunca terminou” e que no governo Lula “o processo” ( de levar o problema da correção monetária com a barriga, do que irei em seguida tratar ) “continuou”.

Na minha visão “monetarista” o ajuste fiscal a que alude Delfim era um ajuste monetário que Pedro Malan bem quis fazer mas não conseguiu. Em 1995, cerca de um ano após o Plano Real, FHC editou a Medida Provisória n. 1.053, de 1995, em cuja Exposição de Motivos há referência expressa à volta do “nominalismo monetário” , antítese do valorismo que imperava desde o Golpe Militar de 1964. A clientela da correção, que se manteve próxima ao poder no final do governo FHC e durante os anos do PT preferiu empurrar o País de volta à sua sina de exportador de matérias primas a propiciar, com uma moeda decente, o avanço e sofisticação da industrialização que, no final das contas, ainda é o grande motor das economias contemporâneas.

Após a delação de Marcelo Odebrecht e a redução a frangalhos do PT, há muita gente dizendo que acabou a era política pós-revolucionária ( considerando que o Golpe foi uma revolução). Os critérios de restauração da atividade política depois da ditadura não foram bons, e as maiores novidades – o PT e o PSDB – não souberam se unir para tocar um projeto de centro esquerda que, a meu ver, Fernando Henrique queria, mas Lula não. O que acabou, todavia, de fato, foi o projeto econômico do movimento de 1964 que se baseou todo na ORTN. Houve, sim, uma regressão programada e ele tem um nome: fracasso da moeda brasileira.


1 comentário até agora

  1. Flavio abril 19, 2017 8:26 pm

    A afirmação inicial do artigo é correta, Delfim Neto não é alguém que deve ser citado, pois abusa do direito de distorcer os argumentos.

    Mas é fato que o ajuste fiscal sempre foi feito parcialmente ou adiado no Brasil, apesar de alguns anos de queda efetiva de dívida pública. Todos preferem a solução da inflação do que realmente ajustar as contas públicas.

    Agora, o governo Dilma foi um grande desastre não só em desajuste fiscal como desajuste microeconômico. Foi uma aula de incompetência. Por mais que se critique governos anteriores em alguns pontos, somente os governos Geisel e Collor foram capazes de produzir tamanha crise econômica.

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