ELENA FERRANTE & MICHAEL MOORE


Acabei de ler a tetralogia napolitana de Elena Ferrante que termina com a História da Menina Perdida cuja tradução portuguesa comprei nas férias de Carnaval que passei em Lisboa. Além do acesso a obras escritas a partir de uma autêntica perspectiva feminina – desde o primeiro, “A Amiga Genial” –  o que me fascinou em todos esses livros de sucesso, atualmente, em todo o mundo, é a qualidade da prosa. Dá prazer a leitura de um texto tão bem escrito despido, deliberadamente, de floreios inúteis.

Outro grande artista é Michael Moore de quem assisti ontem, no Netflix, ao documentário “O invasor americano” ( “Where to invade next”, em inglês ) que me ensinou muitas coisas. Nunca imaginei que as refeições nas escolas públicas primárias francesas pudessem ser tão apetitosas; nem que a polícia portuguesa – que deixou, há tempos, de se envolver com a malsinada “guerra às drogas” – tivesse aprendido tão a fundo o significado do conceito kantiano de dignidade da pessoa humana e, menos, ainda, que o sistema prisional norueguês,  limitasse o castigo do preso à privação de sua liberdade e fosse capaz de pôr ao mesmo tempo em prática o que sempre me pareceu uma contradição lógica: o emprego do cárcere como instrumento de reabilitação do criminoso.

Muitos americanos de bem acham Moore exagerado que usa a técnica documentarista para distorcer a realidade que promete mostrar. Ele próprio, por sinal, logo no início do filme ( creio que quando trata do regime de bem-estar social da Itália)  admite que está querendo mostrar apenas as flores e não as ervas daninhas. Ainda assim admiro-o e fico indagando o que o torna crítico e doce ao mesmo tempo concluindo que é o seu raro catolicismo num País severamente calvinista como os Estados Unidos.

São dois autores bem diferentes, em seus respectivos gênero e nacionalidades que recomendo vivamente. Vale a pena ler a italiana Elena Ferrante e assistir ao norte-americano Michael Moore.


EXISTE, NO BRASIL, O DILEMA “INTERESSE NACIONAL” VERSUS “COMBATE À CORRUPÇÃO”? -por Luiz Philippe da Costa Fernandes

Naturamente, o título acima é um desafio proposital para que o leitor continue a leitura, quando é muito fácil afirmar que os dois conceitos devem marchar lado a lado … …

Li na Folha, dia 26 p. p., “Usos, Costumes nenhum crescimento”,  de Alexandre Schwartsman. Destaco que o autor não figura entre meus articulistas prediletos … Os três primeiros parágrafos de seu escrito, entretanto,  me despertaram  particular atenção.  Afirma ele:

“Corrupção é um problema central para entender o mau desempenho econômico do Brasil, mas não da maneira como geralmente aparece no discurso popular. Não é raro receber e-mails ou perguntas no blog sobre o impacto fiscal da roubalheira generalizada que tem assolado o país. Como regra, os interlocutores saem desapontados com as respostas.

A pilhagem associada às atividades investigadas pela Lava Jato, por exemplo, é estimada na casa de R$ 43 bilhões, grana para lá de razoável, mas que empalidece diante do montante do gasto público do governo federal em 2017:  R$ 1,3 trilhão. Ao longo de muitos anos, roubaram-se pouco mais de 3% do que o governo federal gastará apenas neste ano. [grifo meu].

É uma ilusão, portanto, achar que o combate à corrupção resolverá a questão do gasto público, mas isso não o torna menos importante. A corrupção  tem um efeito corrosivo na capacidade de crescimento do país e está profundamente ligado à enorme presença do Estado na economia”.

Reconhecendo aprioristicamente que não se pretende efetuar uma análise mais apurada, assinalo que tal leitura me suscitou algumas questões.

Abstraído o avanço no campo moral e ético que a operação Lava Jato  vem, inegavelmente,  proporcionando ao País, há que confrontar-se os tais 3% descobertos, parte em recuperação, com o prejuízo decorrente de  alguns fatos ocorridos no governo atual, a saber: o virtual desmonte da Petrobras e de nossa indústria naval;  o brutal corte nos gastos públicos, nas verbas sociais e nas do PAC;  o enfraquecimento da indústria nacional, como um todo; a venda indiscriminada de terras aos estrangeiros, inclusive em áreas sensíveis aos interesses nacionais; o esvaziamento do BNDES;  a desmoralização de nossas grandes empreiteiras que atuavam no Brasil e no exterior; tudo provocando um aumento brutal do desemprego, pelo que li, quase quatro milhões a mais de brasileiros, somente no ano decorrido após o chamado  “impeachment” (prefiro a palavra “golpe”, do bom português,  mais correta no caso). Qual foi o prejuízo advindo da venda, principalmente para multinacionais, de empresas vitais ao nosso desenvolvimento, ao preço da “bacia das almas” (e.g., a venda da rede de oleodutos)?

E como calcular as perdas, bem  menos mensuráveis, advindas da queda do  prestígio internacional do Brasil? E as decorrentes do afastamento dos BRICS? Talvez, valor mais importante de todos, pois é a causa-mater de toda a crise atual: pode-se medir o custo de uma ruptura política que resultou no afastamento de uma presidenta honesta e o virtual esfacelamento da união nacional que hoje vê irmão contra irmão, o término de amizades, o ódio crescente na sociedade brasileira, insinuando ameaça à própria segurança nacional? No contexto, a guinada de 180% na economia e no enfoque às questões sociais, em prol da empresa, ou melhor, em desfavorecimento ao empregado, por governo ilegítimo e que não tem o respaldo da urna, também é ingrediente significativo e muito ponderável  a ser destacado.

Em termos econômicos a conclusão parece elementar: o prejuízo é imenso para o País.  Igualmente de elevadíssima monta o abalo psicossocial que experimentou a nação brasileira. Ai está a atual desunião raivosa  de nossa sociedade e o aumento de desemprego,  com reflexos no que é vital para nossa soberania — a ameaça à  unidade nacional e a crescente influência estrangeira em nossa economia.

A pergunta que cabe é a seguinte: teria sido possível obter-se o mesmo resultado (ou comparável) em termos de combate à corrupção, caso adotado outro procedimento, menos traumático? Acredito que sim, caso, desde o início da operação e constatado o alcance econômico das áreas afetadas, o assunto fosse conduzido com mais discrição e de forma menos espetaculosa. Teria sido possível  circunscrever o combate à corrupção em áreas mais restritas que, progressivamente fossem sendo ampliadas?

Alega-se que só com o “espetáculo” é possível obter-se o apoio da sociedade, capaz de confrontar os elevados interesses envolvidos. Tal argumento merece maior reflexão, pois a tal “pressão popular ” ocorreu principalmente na base de vazamentos seletivos de material sigiloso e previamente selecionado, proveniente de delações/depoimentos, para determinados órgãos de imprensa (Globo, Veja etc …). Ora, no momento em que ficou claro que tais vazamentos ilegais foram provenientes dos próprios representantes judiciais responsáveis por assegurar o seu sigilo, feriu-se de morte a confiança na Justiça e passou a ser mandatório admitir-se que a Lava Jato empregou(a) procedimentos à margem da Lei (sem mencionar o partidarismo político evidente, o uso abusivo de gravações e prisões temporárias e as conduções coercitivas ilegais). Não por outra razão, em Porto Alegre, a instância imediatamente superior à do juiz Moro tornou explícito que, como a Lava Jato é operação atípica, estava  autorizada a usar procedimentos pouco usuais (para dizer o mínimo …). E, afinal, a questão: é de fato necessário o apoio popular para que se aplique devidamente a Lei?

Com respeito ao desmantelamento de nossa indústria de engenharia pesada, lembra-se que não faltam exemplos do exterior em que instituições empresariais que corromperam e/ou foram corrompidas tiveram seus dirigentes, responsáveis diretos pelos ilícitos cometidos, punidos severamente, mas sem que fosse prejudicado o funcionamento das atividades de tais empresas.

Ora apresentam-se dúvidas e questões. Acredito que passamos por um momento em que é absolutamente necessária a discussão de tais assuntos e de outros que venham a ser levantados, da forma mais aberta possível. Das respostas depende o nosso futuro como Nação. Aliás, na recente reforma trabalhista que rasgou a CLT, o que menos ocorreu foi debate com a Sociedade …

Luiz Philippe da Costa Fernandes


A PINGUELA QUE SE TORNOU UM DESVIO

A definição de FHC do governo Temer como pinguela pressupunha que lhe coubesse, de forma pacífica, conduzir a Economia em melhores condições até as próximas eleições presidenciais de 2018. Mas não é isso que está acontecendo.

Como alerta o editor de política do Valor, César Felício, no artigo “O desequilíbrio”, o grupo que tomou o poder encastelou-se tanto no Legislativo como no Executivo e está afetando milhões de pessoas sem pensar nos conflitos sociais que podem ocorrer num futuro próximo.

Escreve ele:

“Há todo um estímulo, nas reformas combinadas, de se realizar uma finta na contribuição sobre o trabalho que carreia recursos para a Previdência. Há um avanço da competitividade empresarial que se constrói sobre a massa salarial.”

Isso ocorre, segundo César Felício, porque ambos, o Planalto e o Congresso, renunciaram ao papel de mediadores das lutas sociais, que sempre coube, ora a um, ora a outro, na história da república no Brasil.  Significa fornecer “combustível para perturbações de rua.”

Em que consiste o atual governo?

Responde o articulista do Valor:

Composto em sua grande maioria por parlamentares, o governo Temer cumpre uma agenda empresarial, sem olhar para os lados. Integrado ou por empresários, ou por políticos sem muitas ilusões de voos majoritários, o Legislativo se blindou a outras vozes.”

Ou seja, para usar a imagem de FHC:  o governo Temer deixou de ser a pinguela e se transformou num desvio irresponsável para direita sem temer ( vale o trocadilho ) os embates entre as classes sociais que certamente ocorrerão diante do insuportável aumento da desigualdade.


AINDA O PATO AMARELO

A opinião pública brasileira conheceu mais de perto o chamado sistema “S” depois que um enorme pato amarelo inflável passou a fazer parte das passeatas a favor do processo de “recall” de Dilma Rousseff. De onde ele vinha? Para onde ele ia? Quem era ele? Por que estava ali?

O ex-ministro Joaquim Levy caiu, pouco depois de ter declarado que iria incorporar à União Federal os 16 bilhões de reais dessas corporações, que foram criadas no auge do corporativismo do período Vargas, e sobrevivem até os dias atuais. Nessa ampla discussão, ainda caótica, que tomou conta do País, começa-se a perceber que os patos somos nós.

Isso não quer dizer que a chamada burguesa nacional seja povoada de anjos. Mas a reação contra o corporativismo do sistema “S” está ficando mais forte. De um lado, o Prefeito João Dória ( um misto brasileiro do Macri e do Macron ) pretende aliar-se aos “verdadeiros” empresários para enfrentar a FIESP, em São Paulo. Por outro lado, líderes empresariais começam a criticar, publicamente, esses que se apresentam como seus representantes, mas não o são. Três desses empresários – Horácio Lafer Piva, Pedro Luiz Passos e Pedro Wongtschowski – escreveram, a propósito, um significativo artigo na Folha de São Paulo, em que dizem:

“ Se os empresários desejam fazer valer princípios de eficácia, foco em resultados, clareza nas relações com a sociedade e redução de custos da burocracia, está na hora de defende-los, enfrentando um tema sobre o qual muito se fala e pouco se faz.”

Segundo esses articulistas as entidades do sistema “S” desviaram-se dos seus propósitos originais de formação técnica dos trabalhadores ( de Lula, por exemplo ) e dedicaram-se a construir palácios suntuosos, megalômanos, dispendiosos e anacrônicos. São organizaçãoes que já morreram, e não sabem.

Há muitos malefícios nesse amontoado de informações que nos bombardeiam todos os dias por todos os lados. As notícias são tantas que, no dia seguinte, a gente se esquece delas. Mas há um lado positivo nisso tudo: certos assuntos passaram a ser discutidos publicamente: um deles o sistema “S” que está na hora de ser desmontado.