O COMEÇO DO FIM DO REAL

Os cronistas – quando especiais, como é o caso dos dois a que irei me referir – têm a sensibilidade aguçada para antever os fatos. Machado de Assis, numa de suas crônicas ( de 30 de março de 1889 ) publicadas na Gazeta de Notícias, intituladas “Bons Dias”, sugeriu o fim do Mil-Réis, e a sua substituição pelo Cruzeiro; Luis Fernando Veríssimo, na sua crônica de hoje, “Trilhão”, insinua que o Real está chegando ao fim, ao escrever: “A próxima reforma ( monetária ) talvez seja a primeira motivada por um certo pudor linguístico e substitua “quatrilhão” por algo mais bonito. Pelo menos um nome mais bonito”

O Real português foi instituído pelo Rei Dom João I, o Mestre de Aviz, em 30 de agosto de 1427, e denominava-se, no plural, Reais ou Réis. Depois de alguns séculos, sem que houvesse ato expresso, passou a denominar-se Mil Réis, até que foi revogado pelo Cruzeiro em 22 de agosto de 1942. Era esse “mil” que Machado criticava, dizendo: “em vez de designá-la por um número, e por um número ideal – vinte mil-réis – por que lhe não poremos um nome – cruzeiro, por exemplo?” Veríssimo, agora, também critica as quantidades de dinheiro: trilhões e quatrilhões e fala, de novo, em “reforma” monetária.

De minha parte, já tenho ouvido muita gente falar em Reais, no plural e, às vezes, em contos de Réis, como antigamente e a fico pensando se os números astronômicos dos desvios dos contratos da Petrobrás não são também o resultado da depreciação do Real.

Mesmo não querendo ser pessimista não consigo deixar de ver nisso tudo um sinal de que estamos começando a viver o fim do nosso já irreal Real.


CORREÇÃO MONETÁRIA: A FIEL ALIADA DO CORPORATIVISMO BRASILEIRO

Não me canso de admirar o profissionalismo e o destemor da jornalista Maria Cristina Fernandes que ela mais uma vez demonstra no artigo “O consórcio bandeirante dos Três Poderes” sobre a tese da Defensora Pública de São Paulo Luciana Zaffalon intitulada “ Uma Espiral Elitista de Afirmação Corporativa: Blindagens e Criminalizações a partir do Imbricamento ( rectius, Imbricação ) das Disputas do Sistema de Justiça Paulista com as Disputas da Política Convencional”.

A tese, apresentada à FGV, que será transformada em livro, a ser editado pela Hucitec, destrincha as alianças do governo de São Paulo com o MP paulista, e da alta magistratura do Estado com ambas as instituições; mas o que nela me chama particularmente a atenção é a vinculação do emaranhado descrito com as sucessivas correções monetárias dos vencimentos dos membros dessas corporações que, a meu ver, explicam as distorções apontadas.

Para tornar as coisas mais simples começo pelo fim, isto é, pelo “teto” remuneratório que tanto os magistrados, como os defensores e os promotores e procuradores de justiça ultrapassam através do uso dos chamados “penduricalhos” que consistem em auxílios moradia, alimentação, creche, etc. etc. que se incorporam como vantagens pessoais e depois se generalizam transformando-se, por sua vez, em “pisos” e servem para criar o que o ex-presidente Collor ( embora não seja um autor que se cite ) denominava “marajás” do serviço público.

Nada disso existiria se não fosse a correção monetária desses vencimentos que se processa há várias décadas e que aumenta as remunerações sem qualquer contrapartida, salvo o aumento da inflação. Esses aumentos de retribuição pecuniária sem que tenha havido aumento de carga de trabalho converteram-se num objetivo autônomo perseguido por essas corporações.

Essa é uma das explicações – a mais fisiológica, digamos assim – pela qual corporação alguma do serviço público luta contra a indexação compulsória cuja inconstitucionalidade é flagrante. Ela as beneficia sendo, muitas vezes, aplicada automaticamente, com apoio nas competências orçamentárias descentralizadas que vigem no Brasil.

Diz o ditado, todavia, que não há bem que sempre dure nem mal que nunca acabe.

A sucessão de problemas que esse regime maluco de medida de valor nos impinge vai obrigar-nos, ainda que numa geração posterior à minha, a extinguir, um dia, essa praga.


A LIGAÇÃO DE TRUMP COM OS OLIGARCAS RUSSOS

O atual governo americano, ao que parece, não se preocupou, ainda, com o Brasil que, para eles, é como se não existisse.

É verdade que estamos num processo de decadência sem fim. Há 14 milhões de brasileiros desempregados, o que é um absurdo total, num País jovem com uma população dinâmica como a nossa. Mesmo assim, a despeito do nosso baixo astral, existimos, pensamos, escrevemos, opinamos, e dizemos muita coisa importante, tal como o faz hoje o editorial do jornal Valor, cujo trecho final merece ser transcrito na íntegra:

“ O cerco a Trump continua se fechando. Robert Mueller, chefe das investigações, indicou que investigará os negócios de Trump para saber os motivos de tanto amor pelos russos. Trump faz o que lhe dá na telha e pode até mesmo se incriminar. Após a reunião oficial de 2h e 15 minutos com Putin, durante encontro do G-20, o presidente americano conversou, sem testemunhas americanas, com Putin por um bom tempo. Há suspeitas de que negócios de oligarcas russos com Trump estão interferindo na política americana e de que Trump age para esconder esses fatos. Em seis meses dessa novela, Trump é o vilão e está cada vez mais enrolado em uma trama que pode acabar ejetando-o da Presidência.”

Os comunistas brasileiros de antigamente tinham uma fórmula pronta para classificar declarações desse tipo, chamando-as de “provenientes de uma fonte insuspeita”( vindas de um jornal que preconiza e defende o capitalismo, como é o caso do Valor Econômico ). Imaginem, então,  o que devem estar pensando os jornalistas ( e blogueiros ) de extrema esquerda !

Confesso não estar muito certo se há, atualmente, um pensamento brasileiro de extrema esquerda, nem quais são os ícones dessa tendência, ou que Nação eles admiram, se a União Soviética acabou e a China tornou-se um socialismo de mercado. Nada sei sobre a extrema esquerda, mas sei – de fonte segura – que os jornalistas e blogueiros da extrema direita brasileira defendem Trump!

Dirijo-me, portanto, a esses extremistas, mesmo desconfiando que o seu extremismo os impede de ler este Blog, de pensamento independente. Em nome de que princípios vocês – pensadores da extrema-direita brasileira – continuarão a apoiar Trump se forem provadas as ligações do titular da Casa Branca com os oligarcas russos?


LUCIA: UMA BIOGRAFIA DE LUCIA MIGUEL PEREIRA

Vale a pena ler esse livro de Fabio de Sousa Coutinho que acabou de ser publicado pela editora Outubro, de Brasília.

São 173 páginas de um texto fluente, seguro e bem articulado, recheado de informações valiosas, no estilo simples de quem domina o ofício de escrever, em que até as folhas de papel couché são apetitosas.

Figuro nos Agradecimentos ( o que, por minha vez, agradeço ) como um dos incentivadores desse difícil projeto de escrever sobre a vida e obra de Lucia Miguel Pereira –  não só pelo imenso talento múltiplo da biografada como pela sua forte presença na memória das pessoas queridas que rodeiam o Fabio desde a sua infância – mas que foi por ele inegavelmente vencido pois o resultado final ficou excelente.

Embora eu não tivesse conhecido pessoalmente o casal Lúcia e Octávio colhi reflexos de suas personalidades nas minhas frequentes visitas à sala onde ficava a Biblioteca do casal, preservada na residência da rua Gago Coutinho, da Claude e do Gabriel, ela a colega de colégio que valia como a irmã que minha mulher não tivera.

Muito mais tarde, fui responsável pela aproximação do Gabriel com a então Procuradora Geral do Estado do Rio de Janeiro, Lucia Léa Guimarães Tavares, do que resultou a doação do acervo para a PGE, onde hoje se encontra, à disposição do público leitor, num ambiente especialmente desenhado, que reproduz com fidelidade o clima intelectual do áureo tempo do saudoso Estado da Guanabara.

Orgulho-me em constatar – nesta época de escapismos em que estamos mergulhados no Brasil, quando tanta gente da elite só pensa em “voltar” para Portugal –  que ainda há intelectuais como Fabio de Sousa Coutinho dispostos a produzir aqui trabalhos relevantes sobre temas nacionais brasileiros.

Não deixem de ler o livro, que é ótimo !