A ONIPOTÊNCIA DE CERTAS PESSOAS

Os três atributos clássicos da divindade estão, hoje, desfalcados ou, pelo menos, podemos deles compartilhar, como simples seres humanos.

O Goolgle nos tornou omniscientes. Basta dar um clique e pronto: podemos saber de tudo e de qualquer coisa.

A Internet, por outro lado, também nos tornou omnipresentes. Com um leve Samsung ou I-Phone na mão estamos em todos os lugares ao mesmo tempo. Aqui no Brasil, por sinal, descobrimos o What’sApp ( que os juízes de primeira instância odeiam ) e fazemos pequenos grupos nas excursões, indicando cada passo que damos, cada prato de comida que comemos e a garrafa de vinho que bebemos. Os antigos slides de viagem tornaram-se instantâneos. As fotos familiares são imediatas. O neto nasceu e a vovó já ouve o seu choro agudo e vê os traços faciais que, sem sombra de dúvida, o identificam com o filho.

Com a onipotência o problema, porém, permanece e é precisamente por isso que certas pessoas – que não conseguem ser onipotentes ( o atributo restante da divindade ) tentam sê-lo e, em geral, acabam se dando mal.

O ex-presidente da Câmara dos Deputados é um exemplo: tantas fez, pulou de tanto galho em galho, que acabou suspenso, por força de uma decisão magistral. Estive fora do Brasil, durante três semanas, e quando voltei não ouvi mais falar dele. Eduardo Cunha? Quem é mesmo ele?

É verdade que a História registra o caso de certas pessoas onipotentes que chegaram a ser, em vida, todo poderosos. Adolf Hitler, Benjamim Netanyahu, George W. Bush, Trump, Nero, e tantos outros, valendo a pena, para não deixa-las de fora,  citar uma mulher, Sarah Palin, que quase deu certo com o seu radicalíssimo Tea Party, quando foi candidata a vice-presidente pelo Partido Republicano norte-americano, que ajudou a esfacelar.

Nas nossas relações pessoais conhecemos muitos ( e muitas ) onipotentes. Eles, ou elas, não sabem participar de grupos, não respeitam as coletividades, não se sentem parte de um todo e sim o todo inteiro. Querem ocupar o lugar do chefe, do subchefe, do supervisor, do encarregado e assim sucessivamente. Se o líder formal do grupo é um desses indecisos, que gostam de ficar em cima do muro, o estrago é ainda maior.

No final das contas a onipotência delas ( dessas pessoas ) deve leva-las a dar – como se diz – com os burros n’água. Mas que dão trabalho, dão….


ENSIMESMAMO-NOS !

Para o bem ou para o mal o I-Phone e o Sansung obrigaram-nos a ficar concentrados, voltados para nós mesmos, olhando uma tela que ora contém apenas bobagens, ora joguinhos que, por certo, estimulam o cérebro, mas, nunca, a reflexão.

Ao mesmo tempo em que, mesmo sendo leigos, ficamos parecendo os antigos religiosos, que liam, o tempo todo, seus breviários e catecismos, deixamos de ler e de refletir. Vivemos distraídos, enquanto os cavalões, como dizia o poeta Manuel Bandeira, continuam comendo.

O que será de nós, daqui a uma geração?

Ainda bem que muita gente acredita que há um determinismo histórico que nos leva a progredir sempre. Mas será mesmo que isso existe ?


A DEFORMAÇÃO DOS JUROS

Os juros, por definição, são um acessório do capital.

Proibidos, na Idade Média, como usura, eles tornaram-se viáveis na Idade Moderna quando sofreram uma limitação. A limitação dos acessórios é essencial para que eles tenham validade e assim foi sendo, até recentemente.

Atualmente, depois de várias maquinações jurídico-burocráticas, os juros deixaram de ser limitados, deixando, com isso, de ser acessórios, passando a ser outro instituto jurídico, mais parecido com uma multa.

O Globo on line noticia que os juros do cheque especial chegaram, hoje, a 315% ( trezentos e quinze por cento) ao ano. Trata-se de uma multa gigantesca !

Enquanto isso o Ministro da Fazenda age como se quisesse manter tudo como está, porque ele é um conservador. O Banco Central, por sua vez, não limita os juros, nem consegue baixar a inflação.

Estamos, financeiramente, no pior dos mundos.

Quousque tandem ?


O MAL-ESTAR SOCIAL

O dinamarquês Bo Lidegaard, ex-editor chefe do diário “Politiken”, publica, hoje, no Valor, um artigo em defesa do chamado Estado do bem-estar social, sob o título “Os escandinavos e o sonho americano”, tratando de um tema  que virou palavrão no público de direita americano em geral ( norte e sul, tudo muito parecido hoje em dia ).

Fale para um liberal econômico que o Estado do bem-estar social é melhor e você será considerado o maior idiota do mundo. O quê ? Bem-estar é coisa de malandro ! Você precisa ser competitivo, batalhador, vencer, derrubar os outros, passar na frente, empreender, criar uma start-up, diminuir o Estado, dar força às empresas privadas, louvar a riqueza dos ricos e assim por diante.

O mal-estar social, porém, é ruim. Os desempregados estão à sua volta e o “cordão” cada vez aumenta mais. Não será o darwinismo social ? A Lei do mais forte ? A destruição criativa de Schumpeter?

Creio que o ex-ministro Antônio Delfim Netto, que é uma espécie de Roberto Marinho em matéria de sobrevivência, já abandonou, há muito tempo, a sua máxima de que era preciso fazer crescer o bolo, antes de distribuir as suas fatias. Mas a ideologia liberal econômica continua a proferir um discurso parecido, com o apoio da imprensa empresarial. O essencial é inspirar confiança.

Como inspirar confiança ? Dando notícias imaginárias boas, para os governos amigos, e imaginárias ruins para os governos adversários. Hoje, por exemplo, o Globo já diz que “há sinais” ( algo meio religioso, não é mesmo ? ) de que o mercado imobiliário vai sair do atoleiro porque a Caixa Econômica ( isto é, o governo ) aumentou os limites dos financiamentos.

Não é preciso ser socialista para gostar do Estado de bem-estar social. Os Estados Unidos não são a Dinamarca. Ainda assim, Bernie Sanders fez tanto sucesso, principalmente entre os jovens, que o programa do Partido Democrata será bem mais à “esquerda” do que antes.