CONTRA O POPULISMO

O populismo mais famoso hoje em dia é o de direita, do qual o exemplo flagrante é o milionário Donald Trump. Haverá, porém, um populismo de esquerda, a favor do povo, que devamos exaltar ? O populismo será, mesmo, uma antítese do elitismo ?

Alguns elitistas costumam condenar o que eles denominam populismo econômico; mas isso não quer dizer que devamos ser, por isso – isto é, para ser contra o elitismo – favoráveis ao populismo. Penso que se trata de um equívoco, de falsas dicotomias.

Quando tive uma experiência pessoal de participar, ainda que na margem, de organizações populares, aprendi que o populismo tende a se confundir com o paternalismo e acaba fazendo o jogo das classes dirigentes. As organizações populares são verdadeiras quando não são populistas. Nesse sentido, o populismo é sempre de direita.

Tanto o fascismo como o nazismo tiveram um amplo apoio populista sem o qual não teriam triunfado. O fato de certas medidas pareceram corretas – como a dos trabalhadores da Grã-Bretanha protestarem contra os políticos do Reino Unido, votando pelo Brexit – em breve se voltarão contra eles próprios, evidenciando que as lideranças do Partido Trabalhista fracassaram nesse episódio ( o que, de resto, parece óbvio para os observadores políticos mais respeitados ).

Há vários exemplos, no Brasil, de populismo econômico: mas destaco um, as ações judiciais a favor de índices melhores para os titulares de contas de poupança. Nessas ações – assim como na que tramita no STF, de descumprimento de preceito constitucional – quem tem razão são os bancos, que cumpriram o que lhes determinou o Banco Central. Ser contra a moeda nacional é uma atitude populista, de populismo econômico, que deve ser combatida.

Dizem alguns que no Brasil não há conservadores: há pessoas atrasadas, o que me parece, na maior parte das vezes, verdade. O populismo, por sua vez, não significa socialismo, uma vez que o seu objetivo final é a desmobilização popular.

É preciso entender a lição do Brexit, ouvir o seu  protesto, perceber o seu sentido. O resultado foi ruim para as classes dominantes. Mas a opção isolacionista de muitos europeus configura um retrocesso. Dirão vocês que isso é evidente: mas ainda assim, é preciso ser dito. Ser contra o populismo não é o mesmo que pugnar por uma melhor distribuição de renda e pela redução da desigualdade. O caminho para atingir esse objetivo não é estimular o populismo: continua a ser o “devido processo legal”, a persecução das normas do chamado Estado de Direito.


OS ENDINHEIRADOS

O professor J. Bradford DeLong, da Universidade da Califórnia, no artigo “Que pensadores definirão nosso futuro?” , diante, provavelmente, do protesto populista do qual resultou a canhestra retirada do Reino Unido da União Europeia, chegou à conclusão de que “o domínio político dos homens brancos do ocidente está chegando ao fim”.

Segundo ele, a desregulamentação promovida promovida por Thatcher e Reagan “foi um sucesso inquestionável entre as classes endinheiradas que prosperaram” criando-se um “consenso ideológico que dominaria a esfera pública entre 1980 e 2010.”

Desse consenso – acrescento eu – fomos vítimas, no Brasil, recentemente, através do bombardeio de discursos feitos pela televisão por pseudo analistas ( tipo Carlos Alberto Sardenberg, que Bradford denomina “aliados ideológicos” dos endinheirados ), que fizeram com que perdêssemos a capacidade crítica, e passássemos a  não entender mais nada do que efetivamente estava acontecendo.

Agora – o Brexit o demonstrou – isso acabou: precisamente no País onde começou, a Grã-Bretanha.

No futuro, os nossos netos não acreditarão mais nas tolices econômicas que nos foram impingidas, embora – como brancos e ocidentais – necessitemos de alguém em quem acreditar que, para Bradford, são Keynes, Polanyi e Tocqueville.

Um ciclo maior fechou-se. Precisamos de novas narrativas. Com a vitória do Brexit nós – os endinheirados – perdemos uma decisiva batalha.


FUNDO DO POÇO OU FIM DE UM CICLO ?

Sou dos que pensam que o Brasil é maior do que as suas crises. Creio, contudo, que é necessário que os homens públicos assumam que chegamos ao fim de um ciclo, para que tenhamos o ponto de partida de onde recomeçarmos.

Era uma ilusão, a meu ver, acreditar que o governo do PMDB traria uma mudança. Só ouço o Ministro da Fazenda falar, com voz profunda, em confiança, confiança, mas não vejo esperança, na conversa com as pessoas.

O que nos levou a este ponto não foi a falta de confiança; nem é suficiente repor o Tesouro com os recursos roubados para que levantemos a cabeça e voltemos a marchar para diante.

Chegamos, a meu ver, ao fim dramático de um ciclo, que começou com o movimento empresarial militar de 1964. Precisamos falar disso, sob pena de não sairmos do lugar.

Uma nova geração vai ter que construir um outro Brasil. Mas ele será melhor do que aquele que lhe estamos entregando.


COMO ACABAR GRADUALMENTE COM A INDEXAÇÃO COMPULSÓRIA

Vivemos uma recessão, os nossos juros estão entre os mais altos do mundo, o desemprego aumenta a cada dia, e a inflação … continua a crescer. Temos, definitivamente, um sistema de preços que não funciona.

A forma de reverter essa situação – que espelha, a meu ver, um fim de era – é extinguir a indexação compulsória.

A solução do Plano Real: indexar tudo para depois estancar, pareceu que ia dar certo, e não deu. A razão desse fracasso foi tratar a URV – mero Indexador – como se fosse moeda. O Indexador precisa ser enfrentado tal como ele é: uma obrigação monetária com a função irregular de reajustar valores.

Como esse Indexador compulsório, sob vários disfarces, sobrevive, no Brasil, há mais de meio século, ele não deve ser eliminado de um dia para outro, mas gradualmente.

A formar de fazer isso pode ser a implantação de uma tabela mensal de depreciação periódica do Indexador, até que ele, ao final de 12 meses, tenha zerado.