JORNALISMO CONFUSO

Ontem o Jornal da Dez, da Globo News, reuniu em Brasília e São Paulo 4 diferentes jornalistas ( afora o âncora do Jornal )  para tentar explicar a troca dos Ministros Levy por Barbosa. Antes, eles tinham ouvido a opinião de “economistas” – dois, apenas, cujos pontos de vista contrários ao governo são óbvios – que disseram o que era esperado que dissessem. Quanto à troca de ideias entre os jornalistas, ela foi tão confusa, que um deles chegou a dizer que a observação do outro era “tosca”( o que nem era ) .

O pessoal incumbido de dar cobertura a todas essas notícias desencontradas do atual “interregno” não parece bem preparado. O melhor deles, aliás, foi o que expressou uma ideia “tosca”, segundo o outro, hierarquicamente, talvez, mais importante, no quadro dos profissionais da empresa.

Em outro momento houve as declarações do ex-Ministro Levy, elegantes, dignas, e neutras, mas que eram narradas segundo um script predeterminado que dizia, na maior parte das vezes, o contrário do que o Ministro falava: caso típico de mais realismo do que o do rei.

Os mais experientes do grupo procuravam, em vão, chamar a atenção para o fato de que o governo agiu politicamente, como governo, e não como queria a oposição. Ora, o governo é o governo, e a oposição é a oposição. A mídia não deve ser de oposição, ter um discurso de oposição, porque ela, em tese, não é do governo, nem da oposição. Seu dever é esclarecer o púbico de maneira isenta, o que, infelizmente, nem sempre tem ocorrido.


EM BUSCA DO NOVO

A frase dialética de Gramsci, que citei apud Zygmund Bauman, retorna, referida, agora, pelo Embaixador Rubens Ricupero, entrevistado da semana do Caderno Eu & do jornal Valor, no seguinte trecho:

“Os grandes ciclos econômicos, políticos e sociais da história do Brasil têm um desdobramento parecido. São ciclos longos. O segundo mandato de Dilma, para mim, é a agonia da crise fiscal. Só não creio que o desenlace seja limitar. Vamos ter a agonia final desse sistema. Vai acontecer aquele definição que Gramsci dava à crise: ‘ o velho não acaba de morrer e o novo não consegue nascer. Nesse interregno todo tipo de sintoma mórbido sobre à tona.”

O que pode ser novo, no Brasil ? Uma nova moeda, que não siga o dólar, tão servilmente.

Temos um outro ministro da Fazenda, Nelson Barbosa. Ele devia mudar toda a Diretoria do Banco Central, e começar a emitir dinheiro vivo para comprar os Títulos Públicos e dar mais vitalidade à Economia. Não há risco de inflação. O nosso problema é a depressão.


O QUADRO POLÍTICO-ECONÔMICO EM 2016

Na entrevista ao Valor,  do cientista político Celso Barros, sob o título “Temer seria tão impopular quanto Dilma”, ele afirma que não haverá, em breve, uma Reforma Monetária, in verbis:

As piores consequências do ajuste devem bater só agora no começo de 2016. Itamar assumiu, teve um começo de governo muito ruim e aí teve o Plano Real, deu certo e FHC se elegeu. [Mas] não vai ter Plano Real. Não tem ninguém com um negócio desse para salvar um eventual governo Temer. Ele vai chegar a 2018 numa situação difícil. O ideal para o PSDB seria arrastar Dilma com essa crise de impopularidade, até pegar o Lula, mesmo que seja só uma sensação de que ele esteja envolvido e ganhar em 2018. Mas o PMDB, naturalmente, prefere assumir logo, porque não tem candidato eleitoralmente viável.”

Todo o Caderno Especial “Cenários: como desatar?” é muito esclarecedor, e contém outra entrevista muito boa, com o Superintendente Executivo do Instituto FHC, Sérgio Fausto, que critica o fato de o PSDB ter “costeado o alambrado” ( como dizia o ex-governador Brizola ) para se acercar da direita.

Assim como não foi fácil fazer o Plano Real mais difícil agora será o Plano Real II – ou o Plano Sul, como eu preferiria denomina-lo – pois uma das coisas que precisamos fazer é criar um certo distanciamento do dólar.

Como todos nos lembramos o Real quebrou uma cadeia sucessória monetária ao se desvincular do Cruzeiro real – que era a unidade monetária anterior – para se submeter ao dólar, como se fosse uma espécie de “padrão ouro”. Só que o dólar está numa fase de declínio, especialmente depois que o Yuan se tornou uma divisa internacional e foi admitido para, em breve, integrar a cesta de moedas internacionais que compõem o Direito Especial de Saque ( DES) do FMI.

Muitos falam numa “civilização” brasileira. Se ela existir mesmo, precisará de instituições próprias para se definir e não há nada melhor para esse fim do que uma moeda nacional “para valer”. O “Sul” – sures, no plural – poderia ser essa moeda, embrião de uma moeda comum regional sul americana, dentro de um modelo liberal, social-democrático, que bem poderia dar certo.

Essa reforma poderia ser instituída pela presidente Dilma, num processo de reinvenção política.


A DESPEDIDA DE JOAQUIM LEVY, O INTERREGNO E O FUTURO DO REAL

Há notícias de que o Ministro da Fazenda Joaquim Levy, na reunião do Conselho Monetário Nacional, externou suas despedidas do cargo, revelando, com isso, que não conseguiu impor os ajustes que considera necessários para o reerguimento da economia brasileira.

Zygmunt Bauman, numa entrevista ao jornal Clarin, de 18 de julho de 2009, afirmara:

“Antonio Gramsci escreveu nos Cadernos do Cárcere que “a crise consiste precisamente no fato de que o velho está morrendo e o novo não pode nascer. Nesse interregno, uma grande variedade de sintomas mórbidos aparecem”. Gramsci deu ao conceito “interregno” um significado que abarcou um espectro mais amplo da ordem social, político e legal, ao mesmo tempo em que aprofundava a situação sociocultural”.

Bauman estava se referindo à situação mundial atual, embora as palavras do pensador italiano, citadas por ele, se apliquem, especificamente, ao Brasil de hoje – mais particularmente à nossa economia – que vive uma fase de transformação, em que o seu sistema financeiro, constituído sobre os alicerces do golpe militar de 1964, está agonizando.

Venho defendendo, há anos, a extinção completa da correção monetária.

Percebo, agora – diante do fracasso do Plano Real – que a nossa crise econômica vai exigir a instituição de uma nova moeda nacional.