FICAMOS SEM SABER

Desde os tempos da ditadura militar eu não presenciava tanto suspense.

Será que o BTG Pactual vai quebrar ?

Será que vão conseguir provar, mesmo, a existência dos 45 milhões de reais que teriam sido pagos de propina a Eduardo Cunha ?


A PROVA QUE FALTAVA

Diziam alguns juristas que havia um espaço em branco entre a denúncia de que Cunha recebera propina e a existência do depósito na Suíça que o beneficiava.

Agora, com a prova do depósito, no BTG, da quantia de 45 milhões de reais, esse espaço está preenchido.

Talvez seja necessária um aditamento à denúncia anterior.

Mas o elo perdido, aparentemente, foi achado.


A “ALIENAÇÃO” DO BLACK FRIDAY BRASILEIRO

Nos Estados Unidos o Black Friday, um dia depois do dia de Ação de Graças, faz sentido. Mas no Brasil, não. De tanto a gente imitar coisas que, culturalmente, não tem, ao menos, “algum” significado o povo vai ficando “alienado”.

Tudo bem: alienado é, também, um certo exagero; uma aplicação equivocada de um conceito marxista complexo, que o saudoso Leandro Konder, quando jovem, tentou explicar num livro. Mas a palavra se tornou aceita, em geral, querendo dizer… babaquice.

Já “dia das bruxas” tem um lado simpático. As crianças ( ricas, naturalmente ) batem à sua porta e pedem doce, sob a ameaça de fazer alguma estripulia. A gente tinha a malhação do judas, que era mais violenta. Halloween é mais light.

Não dá para reclamar que os Estados Unidos nos influenciem a cada hora. Eles tem inúmeros defeitos, mas há coisas que sabem fazer melhor do que os outros. Dentre os defeitos está a prática político-eleitoral, que nos faz ( alienadamente ) chegar ao absurdo de torcer pelo Jeb Bush para não ver o Donald Trump, ou aquele tal de Carson, conquistarem a indicação para concorrer pelo Partido Republicano. Mas o cinema americano é – ou era – notável. E as séries, então, são fenomenais, bastando citar House of Cards ( na qual o principal personagem quase chega aos pés do nosso Eduardo Cunha ) e The Good Wife, em que a heroína vai ficando mais bonita e atraente à medida que o tempo passa, a ponto de ficarmos torcendo para ela ter um caso ( que os que viram disseram que vai ter ) com o Will.

O que não impede que eu mantenha uma opinião muito crítica quanto ao Black Friday que, a meu ver, não tem sentido algum entre nós. Talvez porque ache que o mercantilismo ( como o chama Vargas Llosa ) tenha se inserido demais nas nossas vidas, que é feita de outras coisas que não são fruto, apenas, do chatíssimo empreendedorismo.


QUAL É O PREFIXO DO TELEFONE DO CHEFE DO ESTADO ISLÂMICO ?

Contam, a título de gracejo, que o ex-Secretário de Estado Henry Kissinger costumava indagar sobre para qual telefone ligar quando precisava falar com o principal responsável pelos Assuntos de Estado da Europa. A frase atribuída a ele é: “A Europa ? Qual é mesmo o prefixo do telefone” ?

Hoje, especialmente depois do Euro – que equacionou, institucionalmente, a paz perpétua do Abbé de Saint-Pierre e de Kant – isso mudou, embora esteja em curso um retrocesso no qual François Hollande, com prestígio popular em alta, tem um ( triste ) papel relevante. Resta saber, porém, qual é o prefixo do telefone do Estado islâmico, que os franceses designam, pejorativamente, de Daesh.

Com base numa interpretação radical do Islã esses doidos – como os chamamos no Ocidente – queiramos ou não criaram um esboço de Estado, subordinado a uma ordem jurídica. Eles são mais Estado nacional do que o Estado Palestino, por exemplo; e se parecem, a seu modo, com o Estado do Vaticano, o que o Papa Francisco, de resto, já percebeu, quando insinuou que era preciso conversar com eles.

Dizem que o Estado Islâmico não admite conversar. É provável. Mas Kadafi queria conversar, e conversava, e não adiantou. Também Saddam Hussein. Sem falar em Mahmud Abbas, que já está velho e cansado, e daqui a pouco morre sem que Benjamin Netanyahu tenha se dignado a lhe dar a mínima ( mas merecida ) atenção. Ou seja, Hollande e Putin também não querem conversar com o Estado Islâmico. Porque o faroeste é global, como escreve no Globo a excelente jornalista Dorrit Harazim.

A conclusão do artigo da jornalista é que o mundo ocidental – e os seus aliados no Oriente Médio –  privatizaram as forças armadas, oficializando o sistema mercenário moderno ( que é título do livro de Sean McFade, a que Dorrit se refere em seu artigo ). Agora, pelo visto, não há, apenas, o complexo industrial-militar, do qual falava Eisenhower ( e que gerou um livro famoso na minha geração, de Fred Cook ). Há, para nutri-lo, os serviços internacionais de ação mercenária, ou o mercenarismo mundial, no qual há, inclusive, muitos latino americanos, embora nenhum brasileiro.

Quem tal se combinarmos dar um número de telefone para o Estado Islâmico e outro para o Estado Mercenário ? Será que o mundo todo não ficaria melhor ?