OS VERDADEIROS MARAJÁS

O sentido pejorativo da palavra marajá foi cunhado pelo ex-presidente Collor, de triste lembrança, para se referir a funcionários púbicos ( especialmente Procuradores ) que ganhavam muito em Alagoas. Mas – embora Collor não seja autor que se cite – ele bem que poderia se aplicar a uma classe de ricos e muito ricos brasileiros que querem ir morar em Londres ou em Miami, ou um paraíso semelhante, de preferência fiscal, que não lhe cobre mitos impostos.

Valendo-se da oportunidade que o seu merecido prestígio lhe dá o professor Luiz Gonzaga Belluzzo, na entrevista a Ricardo Leopoldo no Estadão, sob o título “O ajuste fiscal foi um erro de diagnóstico” afirma, a certa altura:

“A sociedade está dividida estruturalmente, porque há muitas pessoas que não têm a menor identidade com o Brasil. O País interessa só como um campo de caça, objeto de predação, não querem pagar imposto aqui. Como podemos ter um País assim ? As nações foram construídas de um Estado nacional, que cobrava impostos e tinha uma certa identidade, como conta o sociólogo Norberto Elias. Há uma deformação do caráter nacional. A democracia está em perigo.”

Mais adiante, explicando o risco que ele vislumbra para a democracia brasileira, diz Belluzzo:

“A consolidação ( da democracia, hoje fraturada ) supõe que as pessoas aceitem que os interesses são divergentes, mas não são opostos. Oposição significa que as pessoas não querem ouvir as outras. Então, como vai ter democracia num País onde as pessoas estão intolerantes e a intolerância está crescendo cada vez mais ? E estou preocupado com isso, porque as consequências são horríveis.”

Isso se deve, a meu ver, à internacionalização muito veloz dos créditos. Quem tem dinheiro, hoje, pode pular de um galho para o outro num instante; nem precisa pensar muito. Quanto a ideia surge ela, num clique já se tornou realidade ( virtual mas efetiva ). Como não existe uma moeda internacional, mas vige uma ordem monetária globalizada, a detenção do dinheiro tornou os ricos e muito ricos ( que são pouquíssimos, mas têm um enorme séquito ) mais poderosos do que os Estados nacionais, cujos governos eles passam a desprezar. A perspectiva de alguém, rico ou muito rico, tornar-se um neoconservador parecido com um republicano norte-americano é muito grande. Em torno deles se criam “pequenas burguesias”, altamente intolerantes.

O professor Belluzzo tem razão. Vivemos tempos difíceis….


1 comentário até agora

  1. jose neves setembro 10, 2015 10:55 am

    O mais estranho – e preocupante – é a incapacidade de reação da maioria prejudicada.

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