FÉRIAS SABÁTICAS

Vez por outra a gente lê que um cronista vai ficar fora do ar por tantos dias. Trata-se de férias de um profissional remunerado. Nada impede, porém – logicamente, pelo menos – que um trabalhador gratuito tire férias. Ainda mais numa situação como a presente, em que não se sabe bem o dia de amanhã. Se não precisarem de mim antes eu devo voltar dentro de um mês. Obrigado.


A RESTAURAÇÃO CONSERVADORA

De repente, como se estivesse escondida e “saísse do armário”, a direita política surgiu tendo se tornado difícil opor-se a ela.

A perspectiva deste blog é a de que a moeda é um elemento de ligação entre a Economia e o Direito. Acontece que a moeda está no meio da crise, envolvida por ela, o que dificulta encontrar os caminhos de saída. Como não há uma moeda internacional inexiste uma autoridade emissora centralizada com poder para controlar os juros e a quantidade de moeda em circulação tal como os Estados nacionais antigamente faziam. Os créditos e as taxas saíram do controle. As desigualdades tornaram-se abissais.

A caricatura dessa situação é o bilionário norte-americano Donald Trump, cujas atitudes evidenciam o ponto que a crise da razão atingiu.

Para não deixar que se percam totalmente as esperanças – e como concebo a circulação do dinheiro como um instrumento de sanção positiva – vislumbro uma saída pacífica através da instituição de um Banco Central Internacional que poderia ser precedido pela criação de uns poucos bancos centrais regionais. Essa seria uma forma de adaptar a ordem jurídica internacional à velocidade que a Internet imprimiu às nossas vidas, sem conseguir resolver os nossos problemas.


OS VERDADEIROS MARAJÁS

O sentido pejorativo da palavra marajá foi cunhado pelo ex-presidente Collor, de triste lembrança, para se referir a funcionários púbicos ( especialmente Procuradores ) que ganhavam muito em Alagoas. Mas – embora Collor não seja autor que se cite – ele bem que poderia se aplicar a uma classe de ricos e muito ricos brasileiros que querem ir morar em Londres ou em Miami, ou um paraíso semelhante, de preferência fiscal, que não lhe cobre mitos impostos.

Valendo-se da oportunidade que o seu merecido prestígio lhe dá o professor Luiz Gonzaga Belluzzo, na entrevista a Ricardo Leopoldo no Estadão, sob o título “O ajuste fiscal foi um erro de diagnóstico” afirma, a certa altura:

“A sociedade está dividida estruturalmente, porque há muitas pessoas que não têm a menor identidade com o Brasil. O País interessa só como um campo de caça, objeto de predação, não querem pagar imposto aqui. Como podemos ter um País assim ? As nações foram construídas de um Estado nacional, que cobrava impostos e tinha uma certa identidade, como conta o sociólogo Norberto Elias. Há uma deformação do caráter nacional. A democracia está em perigo.”

Mais adiante, explicando o risco que ele vislumbra para a democracia brasileira, diz Belluzzo:

“A consolidação ( da democracia, hoje fraturada ) supõe que as pessoas aceitem que os interesses são divergentes, mas não são opostos. Oposição significa que as pessoas não querem ouvir as outras. Então, como vai ter democracia num País onde as pessoas estão intolerantes e a intolerância está crescendo cada vez mais ? E estou preocupado com isso, porque as consequências são horríveis.”

Isso se deve, a meu ver, à internacionalização muito veloz dos créditos. Quem tem dinheiro, hoje, pode pular de um galho para o outro num instante; nem precisa pensar muito. Quanto a ideia surge ela, num clique já se tornou realidade ( virtual mas efetiva ). Como não existe uma moeda internacional, mas vige uma ordem monetária globalizada, a detenção do dinheiro tornou os ricos e muito ricos ( que são pouquíssimos, mas têm um enorme séquito ) mais poderosos do que os Estados nacionais, cujos governos eles passam a desprezar. A perspectiva de alguém, rico ou muito rico, tornar-se um neoconservador parecido com um republicano norte-americano é muito grande. Em torno deles se criam “pequenas burguesias”, altamente intolerantes.

O professor Belluzzo tem razão. Vivemos tempos difíceis….


CORRUPÇÃO FINANCEIRA – por Sérgio Storch

“Artigo impressionante do Ladislau Dowbor, que revela a reserva para consumo e investimento no país, que está esterilizada na forma da massa colossal de juros pagos nos vários segmentos de crédito, e que só fazem transferir renda dos mais pobres para os mais ricos.

Ladislau Dowbor – Resgatando o potencial financeiro do país (Texto provisório em construção, ampliação do artigo sobre o sistema financeiro) – julho – 2015, 31p. | Ladislau Dowbor- http://bit.ly/1PNils5

É o outro lado da moeda do suplemento sobre “Private Banking”, sobre o qual fiz post há alguns dias. De um lado, os pobres e a classe média pagando os maiores juros do mundo, e do outro os beneficiários desses juros aplicando sua riqueza em apartamentos em Paris, aeronaves etc. Mas o mais importante do artigo do Ladislau não é o aspecto distributivo, e sim apontar a reserva que existe para aumentar a demanda efetiva que pode tirar o país da recessão.

Conversando com o Ladislau, uma fronteira de conhecimento a ser desbravada apareceu: onde é que foi o pulo do gato legislativo que neutralizou a efetividade do Art. 192 da Constituição Federal?

Art. 192. O sistema financeiro nacional, estruturado de forma a promover o desenvolvimento equilibrado do País e a servir aos interesses da coletividade, em todas as partes que o compõem, abrangendo as cooperativas de crédito, será regulado por leis complementares que disporão, inclusive, sobre a participação do capital estrangeiro nas instituições que o integram.

Onde está a base da desregulação neoliberal que permite ao sistema financeiro operar esse bombeamento de dinheiro sem igual no mundo todo? Quais são os ítens e incisos que foram revogados desse artigo da CF, quando e por quem . Algum amigo meu tem dicas sobre quem conhece bem esse assunto.

Em tempos de passar o país a limpo, é hora de trazer a luz do sol para iluminar esse cantinho sinistro, onde está com certeza a maior das corrupções, pois trava completamente o desenvolvimento econômico. Jamais dará capa da Veja nem Roda Viva nem Painel da Globo News, pois afinal quem são os seus anunciantes?”

Sergio Storch