O PSDB E A DIREITA BRASILEIRA

O PSDB descarta o lema “fora Dilma”, porque é golpista, mas, ainda assim, como é um partido de oposição, vai participar dos protestos.

O fato é que o PSDB não é um partido de direita: nem FHC é de direita, nem José Serra é de direita, nem Aloysio Nunes é de direita. O Aécio Neves repetiu, várias vezes, na campanha, que, embora quisessem empurrá-lo para a direita, ele não iria, a exemplo  do que dizia seu tio avô, Tancredo Neves sobre as tentativas da esquerda de torná-lo um deles: percam as esperanças.

A social democracia – mesmo à brasileira – não pode ser de direita. De direita é o Partido Novo, que acaba de ser criado. Há políticos de extrema direita, como Jair Bolsonaro e Eduardo Cunha, por exemplo e, por certo, muitos dos organizadores da marcha contra a presidenta Dilma, que é um prolongamento daquelas caminhadas contra o PT – tipo “Basta”, “Chega”, e coisas assim – que nunca progrediram, o que podem conseguir ter alguma repercussão agora, por causa das redes sociais, e da sabujice ( e interesses escusos ) de alguns donos de jornais e de formadores de opinião.

De qualquer modo, fica claro o acerto da decisão da presidente Dilma de corrigir os rumos da sua política econômica anterior. A propósito, acho que o uso, pelo ministro Joaquim Levy, do termo “brincadeira”, para referir-se às desonerações das folhas de pagamento, não foi no seu sentido literal, mas como sinônimo de “trapizonga”.

Política econômica tem muito de tentativa e erro. A do período anterior do governo Dilma, infelizmente, deu errado, e é preciso consertar. Por falar nisso, vale a pena citar o trecho final do livro do economista Thomas Piketty – que não pode ser chamado de direitista – sobre o dinheiro:

“Mas me parece que os pesquisadores em ciências sociais de todas as disciplinas, os jornalistas e comentaristas, os militantes sindicais e os políticos de todas as tendências e, sobretudo, os cidadãos deveriam se interessar com seriedade sobre o dinheiro, por sua medida, pelos fatos e pelas evoluções que o rodeiam. Aqueles que possuem muito nunca se esquecem de defender seus interesse. Recusar-se a fazer contas raramente traz benefícios aos mais pobres”.


PERIGOS DO CONSERVADORISMO RADICAL

Foi horrível – quase tétrico – assistir na Televisão à destruição, por membros do Estado Islâmico,  das esculturas antiquíssimas, algumas do século VII antes de Cristo, que estavam num museu no Iraque. Lembraram-me a derrubada daquele Buda, há cerca de uma década, pelos Talibans, no Afeganistão.

O diabo é que fazemos atualmente, entre nós, coisas parecidas, com seres humanos. As polícias militares das grandes capitais, especialmente do Rio ( inclusive das UPP’s) e de São Paulo, voltaram a matar jovens pobres, de preferência negros, forjando, após, supostas apreensões de drogas e alegando confronto. Fora daqui, na Venezuela, há o risco de um golpe de militares de esquerda – evidentemente conservadores radicais, que não querem que Henrique Capriles e seus partidários sejam vitoriosos nas próximas eleições. E temos, last but not least, no Oriente Médio, o conservador de extrema direita Benjamim Netanyahu, que se elege sempre metendo medo aos eleitores, e que pretende, a todo custo, agravar as já enormes dificuldades do governo Obama naquela região.


MALAN DIZ ENFRENTAR O ‘HOMO INDEXATUS”

Da Sucursal de Brasília

“O hábito brasileiro de criar mecanismos automáticos de correção monetária de salários, contratos e impostos -a chamada indexação- motivaram o ministro Pedro Malan (Fazenda) a criar ontem uma nova palavra: o “homo indexatus”.
“Criamos uma contribuição à espécie humana. Após o Homo sapiens e o Homo faber, criamos o homo indexatus”.
Homo sapiens é o nome científico da espécie humana. Homo faber é um termo criado informalmente para designar as transformações do homem a partir da criação das indústrias, no século passado.
Foi uma crítica do ministro da Fazenda à dificuldade de extinção da indexação, que impede tanto a inflação de dar um salto quanto cair muito.
Por isso, o governo enfrenta hoje um dilema. Precisa reduzir a indexação da economia para que a inflação volte a cair mas, ao fazer isto, arrisca-se a obter o efeito contrário.
Se o governo adiantar demais seu projeto de desindexação, pode enfrentar uma indexação informal que aumentaria a inflação.
Por exemplo, o governo acaba com a correção obrigatória anual dos salários pela inflação e os sindicatos negociam com as empresas uma correção mensal, que em tese causa mais inflação.
É esta resistência da indexação que fez Malan definir o brasileiro como um “homo indexatus”.
“A indexação não pode ser alterada a curtíssimo prazo, é uma mudança não só econômica e política, mas também cultural”, disse.
Malan não é o primeiro da equipe econômica que usa neologismos para fazer críticas. Durante o regime militar, Edmar Bacha, hoje presidente do BNDES, criou o termo Belíndia -mistura de Bélgica e Índia- para denunciar as injustiças sociais do país.
Recentemente, o deputado Delfim Netto (PPR-SP) criou um novo nome para o país, o Ingana. Seria um país com impostos pesados como a Inglaterra e serviços públicos ruins como os de Gana.
A estratégia que o governo prepara para desindexar a economia inclui o fim dos fundos de curto prazo e da remuneração diária de depósitos, outra prática rotineira na vida dos brasileiros.
Este tipo de aplicação é considerado “quase moeda” e torna-se um empecilho à estabilidade monetária, já que o dinheiro colocado num banco “cresce” todo dia.
Para desmontar isso, o Banco Central deve mudar sua atuação no mercado secundário de títulos públicos federais. Ou seja: na negociação destes títulos antes da data do seu vencimento.
A equipe econômica estuda forçar os bancos a extinguir gradualmente estes fundos, retirando a garantia informal dada hoje pelo BC de recompra dos títulos federais em poder do mercado financeiro.
A prática de recompra pelo BC dá aos bancos tranquilidade para operar com fundos que oferecem liquidez diária, que permitem saques a qualquer momento sem perdas para o investidor.
Na medida em que precisam de dinheiro para atender aos saques, os bancos vão ao BC para revender títulos emitidos pelo Tesouro ou pelo próprio BC antes da data prevista de vencimento.”

(Transcrito da Folha de São Paulo de 14 de junho de 1995, da Sucursal de Brasília)


A CARA DE PAU DO BANCO CENTRAL BRASILEIRO !

O Estadão de hoje publica o seguinte “suelto”, sob o título “Taxa Selic deve atrair US$ 20 bi ao País este ano, diz BC”:

“ Às vésperas de mais um aumento da taxa básica de juros, os investidores estrangeiros mostraram que estão com apetite para aplicar em renda fixa no Brasil. O Banco Central prevê atualmente que cheguem ao País US$ 20 bilhões ao longo de todo este ano para aplicação nesses papéis – apenas em janeiro já ingressaram US$ 8,2 bilhões, ou seja, mais de 40% do esperado para 2015.”

A notícia prossegue, e deve ser lida até o final. De qualquer modo, basta esse pedaço para mostrar a desfaçatez do marketing do BACEN, querendo transformar um desastre – aumento da taxa de juros – em vantagem.

O Banco Central já nem diz que o aumento da taxa de juros visa diminuir a inflação, porque é evidente que isso não ocorre.

Mas dizer que eleva a taxa de juros para que o investidor estrangeiro venha para o Brasil … é demais !

A taxa de juros alta é um problema, aumenta o déficit público, tira renda da população e só serve para alimentar o rentismo e a especulação improdutiva.

O Banco Central não deve, portanto, aumentar a taxa de juros, nem vangloriar-se – como se os outros fossem idiotas – em receber empréstimos, de que não precisamos no momento, e que terão que ser pagos.

Trata-se de um flagrante descumprimento da missão principal do Banco Central, que é proteger a moeda nacional e manter a sua estabilidade.