O BRINQUEDO LEGO E O CHANCELER DO ESTADO DE ISRAEL

Todo mundo conhece o brinquedo LEGO, que é dinamarquês. Já o chanceler de Israel, AVIGDOR LIEBERMAN – chefe daquele porta-voz que chamou, recentemente, o Brasil,  de “anão diplomático” e obrigou o País, mais tarde, a pedir publicamente desculpas – é um político de extrema-direita, que contribui, meticulosamente, para agravar o isolamento internacional do Estado de Israel.

LIBERMAN é um personagem pouco qualificado, tratado com desprezo por seus colegas diplomatas, mesmo os que prezam Israel. Como é do feitio de líderes extremistas ele, além de tudo,  gosta de fazer gracinhas como esta, agora, de dizer à Suécia que “as relações no Oriente Médio são muito mais complicadas do que um móvel de montar da Ikea”.

Pelo que eu imagino conhecer dessa figura ele queria se referir ao LEGO, mas alguém lhe disse, na última hora, que o País nórdico de que se tratava não era a Dinamarca; e desse imbróglio acabou saindo a referência aos móveis sueco Ikea, menos conhecidos, e que não têm, nem de longe, o mesmo significado do brinquedo dinamarquês.

O fato é que a Suécia reconheceu o Estado palestino –  considerando estar presentes todos os pressupostos de Direito Internacional para a declaração da existência de um Estado – e  ajuda, com isso, a dar um  fim ao castigo desumano que o governo israelense impõe, há anos, ao povo da Palestina.

Há  governos – como o dos Estados Unidos, por exemplo – que apoiam irrestritamente as diatribes de LIERBERMAN e NETANYAHU .

Trata-se de uma questão, porém, que merece ser bem analisada, mesmo porque os Estados Unidos têm, no momento, um presidente negro, que sofreu na pele uma discriminação similar à que é imposta ao povo palestino pelo governo de Israel. Se o presidente eleito tivesse sido um republicano, a situação seria outra. Lembro-me, bem, nos tempos de GEORGE W. BUSH de assistir, na televisão, ao porte arrogante de superioridade com o qual o então premiê ARIEL SHARON entrava, marchando, para as suas reuniões com o Presidente na Casa Branca, fazendo o chefe da nação militarmente mais poderosa do mundo tremer ( aparentemente ) nas bases. Agora não: na última vez que OBAMA recebeu o primeiro ministro  israelense não deixou de dar o seu recado: de que os civis palestinos deviam ser poupados por ocasião das matanças periódicas  promovidas para intimidar o povo da Palestina.

O jornalista JEFFREY GOLDBERG, em artigo de hoje na revista digital “The Atlantic”, referindo-se a um editorial do mais prestigiado jornal judeu-americano, afirma que mesmo os melhores amigos de Israel “percebem que Israel está desconectado com a realidade”, ao estimular a construção de novos assentamentos em terras palestinas. Esse mesmo jornalista, segundo afirma Rasheed Abou-Alsamh, no jornal O GLOBO (num texto  intitulado “As disfunções do Oriente Médio” ), teria advertido que “fontes do governo americano lhe disseram que se os israelenses não voltarem à mesa de negociações com os palestinos, os americanos não vão mais proteger Israel nos organismos internacionais e que o presidente OBAMA está disposto a publicamente anunciar, com mapas e tudo, um plano americano para a criação, ano que vem, de um Estado palestino independentes dentro das fronteiras de 1967. “ O mesmo GOLDBERG teria dito que um alto oficial americano em Washington referiu-se a NETANYAHU como um covarde, chamando-o de “chikenshit”, que é, em inglês, um grande insulto.

Cumpre salientar, por último, que o próprio GLOBO – de linha sabidamente conservadora em questões políticas – no editorial “Europa tenta destravar questão palestina” – faz uma conexão ( que há algum tempo me parecia evidente, mas não era explicitada ) entre a ameaça que representa, para todos nós ocidentais, o Estado Islâmico, e a intolerância de NETANYAHU na questão da paz com os palestinos, escrevendo:

“ Visões estreitas parecem não enxergar que desatar o nós da Palestina ajudaria a lidar com questões como a ameaça terrorista global representada pelos fanáticos do Estado Islâmico, cujo objetivo é voltar à época do califado.”

Mesmo que os republicanos vençam a eleição congressual do próximo dia 4 de novembro nos Estados Unidos, e obtenham maioria também no Senado ( o que parece, a esta altura,  inevitável ) o presidente OBAMA, nos seus dois anos restantes de mandato, não gostará de sair do governo como um “pato manco”, sem dar o devido troco aos desaforos que o Estado de Israel não se cansa de tentar impor ao governo e povo norte-americanos. De qualquer modo, o decreto do primeiro ministro social-democrata STEFAN LOFVEN é muito bem vindo. Já estamos cansados  das bravatas e iniquidades da dupla NETANYAHU/LIEBERMAN.


A NEUTRALIDADE DAS REFORMAS MONETÁRIAS

O Brasil está inserido num sistema monetário internacional, cujo padrão, para simplificar as coisas, vamos chamar de “valor”. Ao mesmo tempo, o País tem uma moeda nacional, cujo padrão é uma norma, denominada Real. Há,  por último, na nossa Economia ( peculiar à ela, como “jaboticabas” )  inúmeras obrigações monetárias ( de 1/3 a 1/2 dentre os créditos circulantes ) sujeitas à indexação, que não permitem que a política monetária ( fixação da taxa básica de juros ) funcione corretamente.

Do ponto de vista lógico, para quem observa, com isenção, a nossa ordem monetária – pós Plano Real de  1994, que desidenxou em grande parte a Economia – não faz sentido manter reajustes periódicos automáticos e compulsórios que, depois de algum tempo, tornam os índices de inflação praticamente imunes ao aumento da taxa de juros. Isso não existe em nenhum outro lugar do mundo e é, teoricamente, uma besteira. O problema é a clientela que se cria em torno desses reajustes, e que não quer perder com a extinção deles ( como muitos devem se lembrar o ministro da Fazenda da época do Plano Real – depois presidente da República, FERNANDO HENRIQUE CARDOSO – fez uma série de concessões políticas para poder aprovar a sua Reforma Monetária, criando a U.R.V. e mantendo uma parcela significativa da indexação ).

Por um lado, portanto, é difícil fazer – como, implicitamente, sugerem os professores FERRARI e BRESSER-PEREIRA no seu artigo do Valor Econômico  ontem comentado – a Reforma Monetária complementar que o momento exige, impondo a desidenxação completa da Economia ( porque ela vai acarretar perdas à clientela da correção monetária). Por outro lado, porém, a sociedade, como um todo – com os bancos e os ricos no seu topo – será beneficiada a médio prazo, diante do sistema monetário internacional, pois voltaremos a ser “normais”.

A peça chave para o encaminhamento das soluções para a redução dos níveis da nossa inflação é o Banco Central.

Assim como ocorreu nos Estados Unidos, na Europa e, agora, no Japão, os bancos centrais deixaram de ser torres de marfim, distantes do mundo real, e passaram a atuar a favor dos governos para remediar as crises econômicas da atualidade. Tanto que falar em independência do Banco Central, hoje em dia, é um anacronismo. O mecanismo se inverteu, e os governos são cada vez mais dependentes dos seus respectivos bancos centrais.

Por último, a mídia deve cumprir o seu papel de esclarecer a sociedade, e abandonar o discurso hipocritamente laudatório do tipo do editorial de hoje do jornal Estado de S. Paulo, “Enfim, novo ataque à inflação”.  Aumentar os juros, por si só, não vai melhorar a situação dos índices de inflação, embora possa permitir aos especuladores internacionais encher os bolsos com as imorais operações de “arbitragem”. A divida pública, porém, não é infinita, e o Estado não vai ter dinheiro para pagar tantos juros.

A visão imediatista, que caracteriza a grande parte dos agentes dos mercados de capitais, não vai ajudar a resolver a questão essencial da nossa inflação, que é a indexação residual. O restabelecimento da ordem financeira nacional  irá beneficiar-nos a todos, embora, num primeiro momento, possa afetar quem vive da correção monetária. O governo precisa ter um pouco de coragem, e vontade política. É isso o que espero da nova equipe econômica.


INDEXAÇÃO RESIDUAL: O PRINCIPAL PROBLEMA A ENFRENTAR

No artigo intitulado “Será que a questão central é a independência do BC ? “, publicado no jornal Valor Econômico de hoje, os professores FERNANDO FERRARI FILHO e LUIZ CARLOS BRESSER-PEREIRA  abordam a principal questão da Economia brasileira – que  não é apenas econômica –  afirmando:

“A atual inflação se mostra resistente à baixa… principalmente ( porque ) a indexação formal e informal continua a ser um problema central da economia brasileira que não temos sabido enfrentar.”

Disso resulta que

“o controle e a redução da inflação passam por outros instrumentos que vão muito além da política monetária, A COMEÇAR POR UMA POLÍTICA DE DESINDEXAÇÃO COMPLETA DA ECONOMIA.”

Como eu venho, neste Blog, há pelo menos três anos, defendendo essa mesma tese, de uma perspectiva jurídica, fico feliz em vê-la debatida na pena de dois ilustres professores de economia, respectivamente do Rio Grande do Sul e de São Paulo.

No caso específico de FERNANDO FERRRARI FILHO a minha felicidade é ainda maior, e envolve uma grande emoção, pois, no final da década de 1950,  na Faculdade de Direito do Rio de Janeiro, fui colega de turma de seu pai, o Deputado FERNANDO FERRARI, do antigo Partido Trabalhista Brasileiro, um dos homens públicos mais sérios e competentes de nosso País, com quem, até a nossa formatura,  travei uma respeitosa e inesquecível amizade, interrompida pela sua morte prematura num desastre aéreo. Se vivo fosse, ele estaria orgulhoso do filho.


O LACERDISMO SEM SEQUELAS

Embora não tenha havido um jornalista, isolado,  que liderasse a campanha, a histeria política tomou conta da mídia, na disputa eleitoral para a Presidência da República, que terminou com a reeleição da Presidente DILMA ROUSSEFF e de MICHEL TEMER.

O clima de ódio, nos últimos dias, na imprensa foi tão grande, que levou o ex-presidente LULA a declarar, em São Paulo, que a oposição tinha adquirido um formato “lacerdista”.

Isso é verdade, na forma, embora não o seja no conteúdo.

Os tempos mudaram.

Quando LACERDA , na época da eleição de 1950,  escreveu na Tribuna da Imprensa de 1º de junho daquele ano , “o  Sr. Getúlio Vargas senador, não deve ser candidato à presidência. Candidato, não deve ser eleito. Eleito, não deve tomar posse. Empossado, devemos recorrer à revolução para impedi-lo de governar “ ele tinha – e sabia que tinha – o apoio de poderosos grupos militares respaldados pelos Estados Unidos, o que hoje não existe mais.

Como também não há qualquer herdeiro típico do estilo lacerdiano a intolerância perdeu  o seu caráter agudo, tornando-se -salvo no caso especial da revista VEJA – mais difusa, disfarçada, muitas vezes, sob a forma de análises e comentários.

Ainda assim, a demonização de DILMA e do PT, nessas eleições, teve uma substância ideológica de inegável conotação lacerdista, embora isso não deva, desta vez, produzir as mesmas consequências  históricas nefastas de médio prazo, o golpe militar de 1964, de tão  triste memória.

A reeleição de DIMA e TEMER demonstra que as instituições democráticas, no Brasil, estão mais fortes.

Impõe,  contudo,  ao PT e ao PMDB que, vitoriosos, encontrem os caminhos para permitir aos empresários e aos agentes do mercado de capitais que venham participar, ativa e construtivamente,  do desenvolvimento do País.