A DEMOCRACIA E A CHINA

Em contraste com os seus inúmeros méritos – especialmente culturais e econômicos – a China tem uma grande desvantagem, que a atual crise política de Hong Kong pode ajudá-la a superar.

Como escreve GIDEON RACHMAN, do Financial Times, num artigo publicado hoje no jornal Valor Econômico, sob o título “Hong Kong é o maior desafio à China desde 1989”:

“Uma resposta inteligente do Partido Comunista seria permitir que Hong Kong funcione como um campo de provas para reformas democráticas”.

Diz ele:

“ A fórmula de um país, dois sistemas – combinada à riqueza e modernidade do território – é ideal para permitir que Hong Kong continue com reformas democráticas sem desencadear de imediato mudança similar na China continental. Uma Hong Kong bem-sucedida e democrática pode, então, servir de modelo para reformas similares graduais na esfera local no resto do país.”

Parece não ser essa a tendência, neste momento, do Partido Comunista chinês, imaginando, talvez, que a democracia seja marca registrada norte-americana ( o que nós brasileiros podemos testemunhar que não é ).

De qualquer modo, os chineses são um povo tão extraordinário, que seriam bem capazes de desenvolver um original e excelente sistema democrático, assim como conseguiram praticar um regime comunista em tão larga escala vitorioso.


AS ELEIÇÕES E A LIQUIDEZ INTERNACIONAL

Não adianta os especuladores do mercado financeiro fazerem uma espécie de “terrorismo” para influenciar o resultado das eleições presidenciais, numa tentativa de obterem vantagens futuras do novo governo.

A situação atual – de excesso de liquidez no mercado internacional – é diferente daquela de 12 anos atrás, quando o ex-presidente LULA, para levar a cabo o seu programa de governo, precisou afagar o pessoal do Mercado.

Segundo números aos quais já me referi anteriormente, para cerca de cem trilhões dólares de PIB internacional,  há aproximadamente 1 quatrilhão de dólares em derivativos circulando no mercado financeiro mundial. Como os juros estão muito baixos na Europa e nos Estados Unidos, o Brasil é um dos mais apetitosos locais para os investidores, cabendo-nos avaliar, direitinho, a boa qualidade dos créditos dos interessados em aplicar aqui.

Isso não significa desprezar os investimentos externos diretos, que são necessários para aprimorarmos nossa infraestrutura e para explorar as nossas riquezas minerais. Quer dizer, apenas, que os movimentos especulativos, como os que, ontem,  prejudicaram a Bolsa de Valores e afetaram o mercado de câmbio, não assustam mais os eleitores, como antes da crise de 2008, podendo, ao contrário, causar uma impressão negativa, se forem percebidos como manobras políticas para favorecer a oposição.


FALTA DE RECIPROCIDADE

O premiê NETANYAHU desperdiçou a oportunidade de seu discurso na ONU para manifestar um apoio entusiástico aos EUA , em seus esforços para reduzir a influência do Estado Islâmico no Oriente Médio; deixando, com isso, de retribuir o que os americanos fazem, há anos, a favor de Israel.

Ao invés de fazer um pronunciamento de solidariedade ao aliado incondicional o premiê fez comparações genéricas, para minimizar a ameaça dos terroristas do ISIS,  tentando distorcer a realidade.

Os jornais noticiaram, recentemente, que os israelenses moderados estão começando a pensar em deixar o País, por não quererem continuar entregues ao comando de um governo de extrema-direita, insensível ao que se passa ao redor dele.

Isso suscita uma pergunta: por que, sendo uma democracia, o povo israelense não se anima a substituir a sua atual liderança, que isola o País e não abre espaço para a paz ?

A resposta a essa indagação é uma triste constatação: é que, embora sendo a mais desenvolvida democracia da região Israel é, ao mesmo tempo, um Estado militarista, o que bloqueia qualquer tentativa democrática de transformação política.


A METAMORFOSE DO BITCOIN

Os libertários são, em geral, neoconservadores. Eles querem acabar com o Estado do bem estar social, mas prestigiam o uso centralizado da força, desde que a seu favor. Eram eles os que apostavam na desestatização da moeda, na esteira do que defendia HAYEK num livro famoso, escrito em 1976.

Com efeito, segundo uma pesquisa feita pelo departamento de antropologia da Universidade College London, mais de 42% dentre as cerca de 1.000 pessoas que responderam à uma consulta on line sobre o Bitcoin, em 2013,  professavam alguma forma de libertarismo ou de anarcocapitalismo. Hoje, segundo a reportagem de Olga Kharif, na Bloomberg News, traduzida para o Estadão sob o título “Cresce o uso do bitcoin por pessoas ‘normais’”, apenas 22% dos 400 entrevistados se descrevem dessa maneira.

Ao defenderem a desestatização da moeda eles supunham ter o poder de criar um valor fundamental, como se fossem alquimistas. Apresentavam o Bitcoin como se surgisse de uma “mineração”, que tinha caráter internacional, e independia da emissão por um órgão nacional centralizado, para valer não só como meio de pagamento mas, também, como medida de valor, o que me levou a considerá-lo como algo equiparável à moeda falsa. Agora, porém, isso está mudando: o Bitcoin está se transformando numa espécie de vale, para servir, apenas, de meio de pagamento ( numa determinada moeda nacional )  perdendo a sua característica de medida de valor.

Tratando-se de uma invenção curiosa e criativa, o Bitcoin desperta o interesse de diversas pessoas, que gostam de novidade. Na medida em que deixa de ser uma anti-moeda, ele sofre uma metamorfose, e pode ser usado pelas pessoas “normais”. Precisa ter uma regulamentação, para reabilitar-se de sua antiga característica de moeda do crime, para que possa conviver, normalmente, com as pessoas civilizadas. Passa a ser, numa palavra, uma “moeda complementar”, como tantas outras, que circulam em âmbitos menores, com permissão dos bancos centrais nacionais.

O seu sucesso, com isso, acabará sendo a sua superação, como tantas vezes acontece.