UM IMPORTANTE ALERTA DO ECONOMISTA CORREA DE LACERDA

Um querido amigo meu – LUIZ GARCIA –  exemplo e padrão de bom jornalismo, dizia-me, trinta anos atrás, quando publiquei meu primeiro livro, “Crítica da Doutrina da Correção Monetária”, cujos originais ele reviu, que eu estava fadado a não ter o meu trabalho reconhecido pela opinião pública, porque a mídia considerava moeda um assunto de economistas e não de juristas ou advogados. De fato, embora eu tenha ficado conhecido, na época, como um pioneiro na luta pela Desindexação da Economia, e a Teoria da Norma Monetária, que esbocei, tenha despertado alguma atenção, poucos se interessaram pela minha tese ( sempre presente neste Blog ) de que os atuais níveis de inflação são resultado da correção monetária residual e de falhas do Plano Real.

Daí a importância do artigo de um conhecido e respeitado professor de economia da PUC/SP – o economista ANTÔNIO CORREA DE LACERDA – alertando para o fato de que temos, no Brasil, um problema tipicamente nosso ( uma “jabuticaba”) que precisa ser resolvido, sem o que não vai haver aumento de taxa de juros que contenha a inflação podendo, ao contrário, agravá-la. O título do artigo, hoje publicado no Estadão, é “A inflação brasileira e suas jabuticabas”,  cujos seguintes trechos merecem ser transcritos na íntegra:

“Isso ( a inflação ‘ estrutural ‘ dos países em desenvolvimento ) não pode ser entendido como um álibi para a inflação brasileira, mas um alerta. Ao mesmo tempo em que temos de tomar medidas para combater a inflação, é preciso sair da armadilha de considerar a elevação das taxas de juros como remédio único para a enfermidade, seja qual for o diagnóstico de sua origem. No caso brasileiro, temos o impacto das questões já citadas e comuns à maioria dos países em desenvolvimento, assim como temos peculiaridades próprias que precisam ser enfrentadas. São como nossas jabuticabas, fruto originariamente brasileiro: pouco presente ou praticamente ausente em outras paragens.

A primeira é a ainda elevada indexação ou o reajuste automático e regular dos preços baseados em indicadores da inflação passada. É o caso dos preços administrados, como medicamentos, tarifas públicas como pedágios, energia, telefonia, água e esgoto e aluguéis. Grande parte deles indexados a indicadores como o Índice Geral de Preços ( IGP ) e sua variante, o IGP-M, ambos calculados pela Fundação Getúlio Vargas – cuja composição tem pouco a ver com a estrutura de custos dos setores.

Além disso, também influenciado por esse fator e pela cultura inflacionária, vivemos uma espécie de indexação informal de preços de serviços, especialmente os pessoais, que, por sua natureza, são pouco concorrenciais.

Um outro aspecto peculiar nosso está na indexação do mercado financeiro. Grande parte da dívida do governo é pós-fixada pela Selic, a taxa definida pelo Comitê de Política Monetária, redefinida, a cada 45 dias, com grande repercussão midiática. Como grande parte dos títulos das dívidas oferece liquidez imediata e correção automática pela taxa de juros, há uma certa torcida pela subida da inflação.

Obviamente trata-se de um processo que longe de ser neutro, provoca transferências bilionárias de renda. Daí a resistência e mitificação que envolve tudo o que se refere ao tema. Muitas vezes, intensificar as expectativas de inflação futura, representa um verdadeiro prêmio, na forma de elevação dos juros, favorecendo os  portadores de títulos da dívida pública pós-fixada.”

Conclama o professor CORREA DE LACERDA – assim como fazia, outrora, o saudoso professor GOUVEIA DE BULHÕES – o desarmamento do consenso pró-inflação que, podemos acrescentar, não passa de um consenso pró-indexação.


A IDEOLOGIA BÉLICA DE PARTE DA EUROPA

O tom belicista de alguns europeus – não todos – explica-se, a meu ver, não só por sua tradição nacionalista e colonialista, como pelo que pode denominar-se de ideologia pós Segunda Grande Guerra da qual os americanos, depois do estrondoso fracasso do Iraque, estão querendo se livrar, mas que ainda envolve certos europeus, diante dos conflitos no Oriente Médio.

Embora hoje governada por um socialista, a França, de FRANÇOIS HOLANDE, em seu ardor guerreiro, parece o País agressivo dos tempos de SARKOZY. A Inglaterra conservadora de CAMERON pouco se diferencia da trabalhista de TONY BLAIR. A questão não é de linha política: é de ideologia, que envolve governantes de tendências diferentes e alguns jornais usualmente equilibrados como o “Le Monde” e o “El País”. Todos estão à procura de um inimigo externo, especialmente se for um chefe de governo muçulmano.

Fora desse broquel estão, de um lado, a Rússia ( uma das vencedoras da Segunda Guerra) e, aparentemente, a Alemanha, a grande derrotada. E, também, para sorte – a meu ver – do mundo, o governo BARACK OBAMA que está agindo de forma  diplomática, sensata e equilibrada, como um gato escaldado com medo até de água fria.

Esses homens públicos e jornalistas, tão empolgados com as guerras, deveriam ler o artigo de RAY TAKEYH, um especialista em Oriente Médio, publicado no New York Times, hoje traduzido para o Estadão, com o título “ Se entrar na Síria terá que ser para valer”, que demonstra todos os riscos de uma intervenção militar estrangeira na guerra civil da Síria. O texto merece ser lido, também, por  aqueles cuja opinião em termos de política externa é formada pela mídia ocidental, que acreditam, de forma acrítica, que todos os maiores inimigos do mundo ocidental ( salvo a Coréia do Norte, que é um caso a parte ) são tiranos sanguinários: SADDAM HUSSEIN era um facínora louco; KADAFI era outro igual, ainda pior e ASSAD, mesmo vestindo ternos impecáveis, e não túnicas, não passaria de um genocida. Quanto ao Irã, tratar-se-ia de um País governado por um bando de teocratas sem juízo que só pensam em eliminar do mapa o Estado de Israel. Nenhum deles  saberia  fazer política externa nem conheceria estratégia, o que o artigo de TAKEYH mostra não ser verdade. O fato, que fica claro no texto desse analista, é que qualquer intervenção militar estrangeira na Síria, se vier a ocorrer , será algo seríssimo, que, em última análise, irá beneficiar … o programa nuclear iraniano.

Não se pense que o autor do artigo é simpático quer ao governo sírio, quer aos aiatolás iranianos . O que ele considera, apenas, é que armar os rebeldes, além de ser perigoso,  não basta e que, se for para entrar no conflito, tem que ser para valer, sem hesitação e o pior é que não vai resolver o principal problema dos ocidentais, que é o Irã. Diz ele, a esse respeito, concluindo o artigo:

“ Paradoxalmente, uma intervenção com o objetivo de convencer os iranianos da seriedade das linhas vermelhas estabelecidas pelos americanos pode, ao contrário, convencê-los de que seu programa nuclear está à salvo de uma retaliação.”

Certa está a diplomacia brasileira, que não se cansa de dizer que uma intervenção armada estrangeira na Síria não vai resolver a guerra civil mas, apenas, agravar a situação.


BRINCANDO COM FOGO

Como se não bastassem os estragos que já provocou, a guerra civil na Síria tende a se alastrar abrangendo, inclusive, a Europa.

Assim como na guerra civil espanhola há potências estrangeiras que estão usando o conflito Sírio para fins geopolíticos, cujo objetivo final é a derrubada do regime iraniano.

Agora, a Rússia e Israel estão se estranhando diante da perspectiva do envio de mísseis à Síria.  Daqui a pouco a guerra pode generalizar-se, para alegria dos belicistas que, aparentemente, estão em toda parte.  As esperanças residem no encontro em Genebra, em agosto,  do Secretário de Estado americano JOHN KERRY e do Ministro das Relações Exteriores russo SERGÉI LAVROV.


VÁRIOS ASSUNTOS

1) CULPA DA VÍTIMA : Os grandes jornais estão querendo preparar a opinião pública para a tese – da qual, em geral, os brasileiros gostam – de que a culpa pelos boatos sobre o programa Bolsa Família foi da própria Caixa Econômica Federal. Só falta dizer que a CEF patrocinou a empresa carioca de Telemarketing que propagou a notícia…

2) INJUSTIÇA COM RUY MESQUITA: Procuram colocar lado a lado, no mesmo saco, dois jornalistas de padrão muito diferente. O “Estadão”, de RUY MESQUITA, sempre foi um jornal sério. Já a “Veja”, de ROBERTO CÍVITA, é uma revista indigna de entrar em nossos lares.

3) UMA PERDA PARA A DEMOCRACIA: O veto do Conselho dos Guardiães do Irã à candidatura do ex-presidente AKBAR HASHEMI RAFSANJANI, moderado que tinha o apoio dos reformistas, foi uma perda de oportunidade de se promover uma abertura democrática no regime iraniano, que faria tanto bem ao País. Muita gente, ao redor do mundo, ficou sem poder torcer pela vitória de qualquer candidato nas eleições do dia 14 de junho.

4) O NEGÓCIO DA VENDA DE ARMAS: A divisão dos europeus quanto à venda de armas aos rebeldes da Síria mostra a força da indústria de armamentos, ao conseguir convencer alguns governos da Europa a suspender um veto que a impedia de fazer grandes negócios.

5) GUERRINHA PARTICULAR: Quem lê os “Remarks” OBAMA,  na Universidade de Defesa  Nacional dos Estados Unidos, fica convencido de que a premissa essencial do pensamento do presidente  é acabar com as guerras de BUSH, para que os EUA possam ser um País normal, voltando, aos poucos, a seguir as regras do Estado de Direito Democrático, pois não é possível a liberdade numa situação de guerra permanente. A viagem do senador JOHN MC CAIN à Síria – para se encontrar, in loco, com os rebeldes mostra que o Partido Republicano, mesmo fora do poder, quer fazer a sua própria guerrinha, particular. Por sinal, as imagens de vídeo de rebeldes, bem vestidos, com relógio no pulso e anel no dedo, usando máscaras contra gases novinhas, dão a impressão de que pode ter havido uma armação para tentar configurar a ultrapassagem da tal “linha vermelha”, que justificaria o ingresso direto dos americanos no conflito.