AS PEGADAS ( outro conto de 1955 )

 

Eram marcas pequenas, de pezinhos delicados…A praia estava deserta. Seguindo os conselhos médicos ia, todos os dias, às seis horas da manhã, banhar-se naquelas águas esverdeadas dos mares de Cabo Frio.

Aquele dia chegara mais cedo e parece que tinha sido precedido. As pegadas eram recentes e apareciam destacadas, sobressaindo na alvura da areia que parecia não ter fim. Dei de segui-las, em seu trajeto tortuoso. Eram pequenas, frágeis, mimosas – deviam ser de criança. Um menino, talvez, que levasse encomendas ao pai, pescador, que estava distante. Ou, talvez, fossem de mulher. Sim ! Uma moça, quem sabe. Quem seria meu companheiro aquela hora, na praia. E pensando umas idéias sonolentas ia-as seguindo, caminhando, com ânsia e curiosidade.

O sol já elevava no céu límpido e imaculado de nuvens. Fazia calor. Os dias todos tinham sido muito quentes, desde que eu estava ali. Resolvi  mergulhar, mas aquelas marcas de pés, na areia, me atraiam. Seguiam lá longe, lá distante …

Continuei a segui-las. Enquanto caminhava pensava em uma porção de coisas. Nos livros que lera ultimamente, que eram tão poucos e tão aborrecidos. Eu anda meio aborrecido mesmo, sorumbático. Pensa em Maria Helena e este pensamento aborrecia-me ainda mais. Não valia a pena pensar nela. Era uma ingrata. Mas as pegadas pareciam ser de alguém apressado. Os sulcos eram profundos, violentamente impressos, como se deixados por alguém que corria. E os passos eram miúdos, tímidos. Eram de moça, eu via bem. Não tinha mais dúvidas.

Continuavam numa extensão enorme. Eram incertas, sinuosas, vacilantes. De quando em quando aproximavam-se do mar, afastando-se, após, ligeiras, quase medrosas. Em certos trechos as impressões na areia davam a impressão de que a pessoa voltava-se para trás, como se olhasse a ver se alguém a seguia. Outras vezes, marcas confusas indicavam que caíra. Seria de cansaço, por certo.

Intriguei-me bastante. Francamente ! Que faria, àquela hora, sozinha, uma moça naquelas paragens. Não havia ninguém na praia. Tudo deserto, triste, calmamente silencioso. Que faria?

E andava, os olhos fitos na areia, nas pegadas, que não tirava do pensamento. Olhava atento e pensava: que faria ali ?

De repente tive uma visão que me esclareceu tudo. Era claro. Tudo o que acontecera estava escrito ali naquela areia branca, com realismo, friamente, e visível a tal ponto, que tudo previ.

Um quadro horrível. E eu o via, pressentia-o, uma tragédia. Eram passos de moça e caminhavam aflitos. O que fariam ? Ora, sozinha, àquela hora, naquele deserto de gente buscava, eu via bem – a morte. Não havia dúvida. Era um moça e ia suicidar-se. Era, inegavelmente.

E eu presenciava aquela desgraça. As pegadas eram recentes. Fora há muito pouco tempo que tudo se passara. Venta muito nessas praia e, em quinze minutos, estariam as marcas invisíveis. E estavam ainda ali. E tão destacadas.

Agora eu via tudo. A moça, com certeza, fora abandonada pelo amante. Desesperada, escrevera-lhe contando a sua terrível decisão. Por isso voltava-se a cada instante a ver se ele a seguia. Mas não vinha ninguém.  Ele, por certo, não acreditara em nada do que ela escrevera. Não viria. E ela prosseguia, cambaleante, com forças que só a loucura e o desespero poderiam dar-lhe. Ia suicidar-se, quanto a isso não havia dúvidas. Era aquilo. Provavelmente fora seduzida e estava grávida. É a triste história de sempre. Os pais a renegariam. Era o abandono, a vergonha, o opróbrio.  Estaria irremediavelmente perdida. Era melhor morrer. Seria o fim de tudo aquilo. Esperava, ainda, que o amante viesse. Seus passos dirigiam-se ao mar mas voltavam rápidos. Arrependia-se, ainda havia esperanças. Uma pequena esperança restava ainda…

E eu assistia a aquilo tudo. Não vira mas era tão evidente. Estava tudo tão claro. Fora há tão poucos instantes. A providência enviara-me. Talvez ainda pudesse salvá-la. Estava nervoso, ansioso. Corria, já não andava. Aquele mesmo céu que me encimava, há poucos minutos a tinha visto. Aquela areia, aquele ar, eram os mesmos. Eu assistia a tudo.

E as pegadas seguiam sempre à minha frente. Elas escreviam o que houvera. Todo o desespero, o pavor da morte, mas o medo de viver.

Ela caía por várias vezes. Viam-se as marcas pequeninas das suas mãos, firmando-se no chão, num esforço supremos para levantar o corpo cansado que insistia em cair. Eu estava aflito e angustiado. Precisava salvá-la. Tinha que impedir que aquele gesto de desespero se consumasse. Era preciso evitar que duas vidas se perdessem, assim, tão tristemente.Um turbilhão de pensamentos me invadia a mente, e este só dominava-os a todos: precisava salvá-la, tinha que salvá-la.

De repente, um monte de areia, pequeno, de onde saltavam pedaços  de vestimenta. Era sua roupa. Com a lógica doentia desses momentos de loucura enterrara as roupas que indicariam o lugar onde se atirara no mar. Era ali. E há tão pouco tempo. As pegadas, agora seguras e obstinadas, dirigiam-se para o mar. Para o mar imenso, o mar terrível. Lancei longe a toalha que trazia em torno do pescoço. Olhei distante e vi, flutuando, além da arrebentação das ondas gigantescas, uma cabeleira loura, derramada sobre as águas. Era ela. Movia-se ainda. Estava viva. Resistia. Debatia-se. Queria viver. Lancei-me precipitadamente nas águas. Tinha de salvá-la. Precisava salvá-la …

No dia seguinte toda a cidade já sabia do ocorrido e eu acabei indo embora de Cabo Frio. Não podia suportar o olhar irônico dos habitantes que, quando me viam, cochichavam, apontado-me insistentemente. Como iria explicar o meu gesto ? Ninguém entenderia. Pudera ! Eu não tivera culpa ! Como é que podia imaginar que a filha do prefeito tinha o hábito existencialista de banhar-se, todas as manhãs, bem cedo, nua nas águas dos mares de Cabo Frio ? Eu tinha feito um papel muito tolo …

E o pior não foi isso. Quando cheguei ao lado da “suicida”, após nadar apressado mais de trezentos metros – ao que não estava absolutamente acostumado – entreguei-me ao cansaço de corpo e alma. E a moça, a infeliz moça de meus pensamentos bestas, a seduzida e jovem mãe que vinha pôr termo à vida, vendo-me assim, quase a afundar, sentiu-se na obrigação de me trazer de volta à terra. E lá vim eu, rebocado, expelindo água por todos os poros, e fui deixado a salvo.  Espetáculo tristíssimo. Ela, depois, olhou-me entre zangada e espantada, como se não compreendesse nada daquilo. Vestiu-se com as roupas que enterrara para que não tirassem e partiu, com um sorriso irônico, imprimindo na areia, muita branca e muito limpa, com seus passos gentis, aquelas marcas pequenas de pezinhos delicados…


SIRENA ( um conto de 1955 )

 

Do valor desta história é causa e condição exclusiva a imaginação do leitor.Eu, por mim, supinamente prático, não sou dado a processos imaginativos. Só posso começar a história …

Edward passeava à noite, como costumava, por uma praia deserta, sozinho, olhando a luz que enluarava as ondas. O ruído macio do mar, espreguiçando-se sobre a areia e a quietude das horas escuras faziam-no sentir-se bem. E, naquele dia, imaginava-se no céu. Contemplava, extasiado, a maravilha da paisagem, quando ouviu uma voz que sussurou-lhe:

– Que fazes aí ?

Olhou a ver se via alguém e nada: a solidão somente…

– Olha bem e me verás.

Ele girou sobre si mesmo. A voz vinha do mar, como se as ondas falassem. Era uma voz suave e doce, como nunca ouvira antes.

Procurou, ansioso, quem assim lhe chamava e pôde ver, então, sobre uma pedra, iluminada ternamente pela luz da lua, uma linda mulher nua, que lhe sorria.

Sacudiu a cabeça e permaneceu um instante de olhos cerrados. Quando os abriu de novo, de novo a viu, banhando-se com graça, cada vez mais bela. E cantava uma canção maravilhosa.

Ele chamou-a.

– Eu não posso, respondeu-lhe ela; vem tu a mim.

Ele começou a despir-se mas ela, ante a iminência daquele quadro aterrador que ante si teria – daquele homem nu – apressou-se a sair das águas.

Era metade mulher, metade peixe..

Como toda pessoa sensata, ele nunca duvidara da existência de sereias.

Sentaram-se os dois e conversaram:

– Como te chamas, inquiriu ela com doçura.

– Edward. E tu, sereia ?

– Sereia, respondeu-lhe com um sorriso.

– De onde vens ? Que fazes aqui ? Não vivias há muitos séculos nos mares da Sicília ?

– Como sabes ? Conheces-me ?

– Ouvi falar de ti. Tenho pais italianos.

– Os meus são gregos.

– Calliope …

– … e Acheloo !

Ele quedou mudo um instante e contemplou-a com atenção. Era linda. Jovem ainda, com os cabelos louros, que lhe caíam sobre os seios, e não pareciam molhados. Sua tez era clara, como o luar que a iluminava. Sua voz era um canto harmonioso.

– Mas não me respondeste, insistiu ele. Que fazes aqui ?

– Meus pais me têm muito presa, obrigando-se, ainda hoje, a atrair, com meus cantos, os navegantes incautos. Mas a mim me desagrada a minha vida. Hoje, até as doze da noite, eles não estarão em casa, e eu fugi a ver o mundo.

– E me encontraste. Eu sinto-me feliz !

– Mas será por breve instante !

– Porque ? Ainda tenho a vida toda em minha frente. E tu, que hás de ser minha.

– Não te iludas. Bem o quisera, mas não posso. Se não voltar até a meia noite não entrarei mais em casa. E como viverei então ?

– Comigo.

– Como ? Se não sou mulher ! Nem tão pouco no mar, que não me querem os outros peixes …

Ele olhou-a nos olhos e viu-lhe lágrimas que o comoveram.

Olhos verdes, muito verdes, e tão belos. Um nariz pequeno, levemente arrebitado. Os lábios virgens e infantis, juntando-se num biquinho de tristeza.

Tomou-a repentinamente nos seus braços e beijou-a.

Ela afastou-se depois de alguns instantes e começou a chorar com desepero.

– Que tens ? Porque choras ? Acaso desagrado-te ?

– Não, não ! Eu choro ser sereia e não poder te amar.

A meia noite chegava. A lua já se elevara de todo. Os dois, juntinhos, sem dizerem nada, tinham os corpos beijados pelas ondas acariciantes.

Edward pensava. A primeira vez em que sentia amor na vida. Não permitiria que a felicidade que tão bela veio assim se fosse, inexoravelmente.

Precisava fazer qualquer coisa !

Uma onda maior tomou-a de seus braços.

– É o mar que me chama. Vou partir. Adeus ! Não nos veremos mais, mas será eterno o nosso amor. Adeus !

– Não vás ! Se partires, irei buscar-te. Seguirei em teu encalço para que o mar me afogue.

– Não faças isso, que é loucura ! Fui um sonho em tua vida…

– Um sonho divino que sonharei para sempre.

– Adeus !

– Se fores eu vou !

– Adeus.

Ela desapareceu nas águas e ele seguiu-a. Durante um instante não se viram os dois. Mas logo outra onda os trouxe, abraçados, e os depositou na areia.

– Porque fizeste isso, disse-lhe ela. Nunca mais serei feliz e a culpa há de ser tua.

– Serás feliz, que eu te prometo. Na vida nada há que não se ajeite.

E eis que, em breve tempo, casou-se com a sereia, agora uma mulher perfeita. Como conseguiu essa transformação, nunca se soube.

Do valor dessa história é causa e condição exclusiva a imaginação do leitor.

Eu, por mim, supinamente prático, não sou dado a processos imaginativos.

Só pude começar a história. O leitor amigo que a encerre … e se, para bom termo, precisar dividir a heroína em duas partes, mulher e peixe, deixe-me esta última, e almocemos juntos.


A CASA ( um conto de 1954 )

 

O amigo com certeza vai ficar aborrecido comigo, mas está perdendo o seu tempo. Não há dúvida de que o preço que me oferece é tentador. Concordo em que precise de dinheiro. As condições são as melhores possíveis e tudo está muito bem. Mas, contudo, e o amigo queira me perdoar, não lhe posso vender a casa. Não vale a pena insistir, porque senão terei de contar-lhe uma história longa, cansativa, enfadonha, para lhe dizer dos motivos que me levam a essa negativa, que o amigo mesmo classificou de doentia.

Quer, então, ouvir a história ? Às suas ordens. Sentemo-nos e tomemos um licor, este aqui, que é uma especialidade. Minha mulher costumava prepará-los e era eu seu maior admirador. Este é o último que restou. Depois de sua morte – já fazem cinco anos – andei meio desorientado e os empregados furtaram-me a adega. Outro dia, por acaso, encontrei esta garrafa. Prove e verá como é delicioso.

Logo que me casei viemos os dois para esta casa, isto há trinta e sete anos passados. Nesta mesma sala, como ela é ainda hoje, recebemos uns amigos que nos deixaram cedo, como bons amigos que eram. E começamos nossa vida unidos. Fomos felizes desde o princípio. Naquele tempo isso era um deserto de gente. Não existiam nem as casas que hoje dão lugar a esses edifícios majestosos. Éramos três famílias somente. E assim gostávamos do lugar, como era, tristonho e solitário.

Eu tinha alguns recursos, propriedades que herdara e administrava, exercendo, nas horas vagas, uma pequena clínica. Isso nos dava o suficiente para viver, e vivíamos. Os dias passavam tranqüilos e, todas as noites, respirando o ar carinhoso que vinha da praia, ficávamos na varanda, aquela mesma que ali está, conversando, até que o sono nos levasse juntos para o quarto. A vida era calma. Não havia esse ruído infernal de ônibus e lotações, não havia esse burburinho de luzes, essa animação cosmopolita de agora. Era como se vivêssemos fora desde mundo.

Tivemos uma filha que viria a completar nossa felicidade. Era linda e chamamo-la Lúcia. Loura, como sua mãe, e encantadora como o são os anjos. Nasceu aqui mesmo, nesta casa, aqui viveu doze anos, até a morte levá-la para um jazigo estreito, onde não havia luz, onde não havia ar, e donde não viria mais. Ela deve ter sentido muito. Isto aqui era tão claro, tão grande, tão bom demais para que ela deixasse…

Foi o tifo. A menina resistiu enquanto pôde, mas resistiu pouco tempo. Estas mesmas paredes que a viram sorrir, brincar e pular, essa mesma casa que ela alegrava tanto com sua vida, viram-na definhar, sofrendo baixinho, viram-na morrer. Foi uma sexta feira, que eu bem me lembro. A febre fazia-a delirar. Sentia-se sem forças mesmo para sofrer. Chamou-me ao quarto e pediu que abrisse a janela. Afastei as cortinas, que ainda hoje são as mesmas, e respirei com ela o ar da tarde. Sentimo-nos bem, e abracei-a chorando. Ela, também com lágrimas, falou-me da casa, de que gostava tanto, de como este lugar é lindo. Repassamos, um a um, todos os seus recantos, o quintal, o jardim de que sua mãe cuidava com tanto carinho, e sorrimos e choramos. Nessa mesma noite a pobrezinha morreu.

Minha esposa quis que fôssemos dali. A lembrança de nossa filha, de sua morte, parecia apavorá-la. Mas ficamos. Aquela casa a vira nascer, alegrara-se com ela e, a final, chorara a sua morte. A lembrança de nossa filha não nos faria mal; confortar-nos-ia, ao contrário, e assim foi.

A casa passou a ser para nós ainda mais necessária. Era como se o espírito de nossa filha ali habitasse;  ainda e o sentíamos a todo instante. Construíra-se ao lado de nossa felicidade. Sofrêramos ali e ali nos alegráramos. Era ela o nosso mundo. Era um pouco de nós, éramos nós mesmos.

Outras casas foram se construindo, habitando-se a rua. Alegravam-se as calçadas, pela manhã, com o riso festivo das crianças. Coloria-se com os estampados das moças, ganhava nova vida. E esta casa era tradição, uma instituição desta rua. As frutas do quintal todo mundo as comia, porque os portões estavam sempre abertos. Em festa de S. João reuníamo-nos todos em casa, e acendíamos uma fogueira enorme no quintal. E isso todos os anos. Chegavam alguns a identificar a nossa rua ao referir-se à nossa casa. E o tempo passava e a vida era a mesma. As mangueiras do fundo engrossavam e as copa gigantescas sombreavam a casa. Era uma delícia e o amigo pode compreender o quanto nos sentíamos bem ali.

Há quatro anos – não, já se passaram cinco – faleceu a minha esposa. Vivo sozinho aqui e viveria triste, se não fosse esta casa. De manhã cedo levanto-me, como há trinta e tantos anos atrás e tomo o café, como sempre o fiz. Minha mulher e minha filha já não estão mais, mas sinto-as, a toda hora, como se ainda vivêssemos os três nesta casa. Nada mudou, nesse tempo todo. Os quartos ainda são os mesmos, e arrumados igualmente. O amigo compreende que a gente se apegue assim a uma coisa. Esta casa é muito minha. Toda minha vida aqui passei. Só nos dois vivemos ainda. De tudo quanto houve, só nos dois existimos. Está muito intimamente ligada à minha vida. Minha família hoje é só esta casa. E eu vi morrer minha filha, e minha esposa, não quero vê-la também a ela desaparecer. O amigo compreende, e não vai ficar aborrecido, não vale a pena insistir. Desculpe-me, mas o amigo está perdendo o seu tempo ….


NÓS DOIS ( fevereiro de 1954 )

 

A nós dois que nos amamos tanto …

 

Nós éramos os dois duas pombinhas mansas

A caminhar no mundo respirando amores

Trazíamos na alma a alma das crianças

Em tudo inocente com o perfume nas flores …

Vivíamos num sonho e, em torno, o mundo e as coisas

Pareciam sorrir ao ver-nos tão felizes:

– “Vê que a relva te afaga, se nela repousas”

– “ Vê que os cantos se calam a ouvir o que dizes”.

E íamos os dois pela existência a fora

Nosso amor era tudo, o resto nada mais.

Nós dois vivendo a vida toda em cada hora

Rindo ao dia que vinha e ao que ficara atrás …

Os pássaros cantavam e diziam em seus cantos

E da brisa ligeira os suaves sussurros

Mais encantos não há do que os doces encantos

Dos dois que se amam, inocentes, tão puros …

E se o vento beijava o teu rosto tão lindo

( Porque o vento é travesso ) lá ia jovial

O seu louco sorriso, nas matas sorrindo

Contorcer-se nas folhas de algum bambuzal …

E, no final, nem nos dissemos adeus …

A pouco e pouco foi-nos separando

Roubando aos meus os pensamentos teus

A vida, coisas novas ensinando.

Tudo era novo, e grande e majestoso

Novos quadros, diferentes paisagens

Do nosso mundo donos, transformados

Deste fomos em simples personagens.

E na ânsia infinda de viver pra frente

Fomos deixando o nosso mundo estreito

O qual era tão lindo, mas pobre de gente,

E muito bom demais, demais perfeito,

Por outro imenso mundo povoado

De novos encantos, de outras sensações.

Se belo como o outro não era tanto

De tantas sensações ele resplende

Que a nós nos pareceu ter mais encanto

Enfim, valia a pena, era tão grande…

Talvez não fosse puro como aquele

Ocultavam, porém, seus torpes crimes,

Sofismas tão sutis e tão galantes

E a mentira, roupagens tão sublimes!

Que esquecemos aquele nosso mundo

Escondido num canto qualquer da alma …

Mas, no final, já conquistado o mundo

De ti, por teu encanto e tua graça

De mim, talvez, pela suprema glória

Quando ele todo a nosso pés curvado

Venerar-te a beleza e o meu saber

Aí, talvez, nós procuremos tristes

Daquele imenso que nos honra e louva

Nosso pequeno mundo, mas em vão…

Aquele sonho de crianças puras

Aquela vida de anjos inocentes

Não poderão sonhar, velhos cansados,

Não poderão viver, desiludidos.

E veremos então que aquele amor

Foi uma flor que jaz já desbotada

Sem vida e sem beleza em nossas almas

E só deixou um pálido perfume

Que respirando enfim nós morreremos

Um pálido perfume, uma lembrança…