BEM-VINDA AO MERCOSUL

O fato de a Venezuela ser, atualmente, presidida por uma político muito personalista não deve servir de argumento para que o ingresso desse País no MERCOSUL seja mal recebido.

A Venezuela é uma democracia, tem um parlamento em pleno funcionamento, e a oposição uniu-se para tentar derrotar o presidente HUGO CHÁVEZ na sua tentativa de re-eleição.

Do ponto de vista da oposição, a cláusula democrática do MERCOSUL é uma garantia de que o País não venha se transformar numa autocracia.

Quanto à oportunidade escolhida, para acolher a Venezuela – no momento em que o Congresso do Paraguai, que retardava a decisão, afastou, sem motivo, e com desrespeito ao devido processo legal, o presidente FERNANDO LUGO – pode, no máximo, ser chamada, meio redundantemente,  de oportunista.


O SIGNIFICADO DO MENSALÃO

É perda de tempo tentar dizer que o mensalão não existiu. Ele existiu, existe e tornou-se um processo judicial, que está em vias de ser julgado.

Difícil, porém, é explicar em que consistiu o mensalão, que pode ser um conceito despido de conteúdo, cujo julgamento talvez provoque uma grande decepção.

Como temos, na língua portuguesa,  o aumentativo em “ão”, somos levados a generalizar situações, querendo caracterizá-las como graves através de uma simples classificação sonora.

Existem inúmeros “ãos” semelhantes, de que cada um de nós é capaz de lembrar a vários pretextos. Há, por exemplo,:

 1) –  nomes de origem verbal,  tais como : abanão, abusão, adulão, aguilhão, aleijão, apalpão, apertão, arrastão, arremessão, arrepelão, arrojão, beliscão, besuntão, bicão, borbotão, bulhão, burlão, carregão, catucão, chorrão, chupão, cotovelão, cutucão, desgarrão, empurrão, empuxão, encontrão, encostão, esbarrão, escaldão, escorregão, esgarrão, espetão, esticão, estirão, estorcegão, farfalhão, fartão, forção, formão, galopão, golpeão, gorgolão, machucão, mergulhão, mexicão, papão, pegão, pifão, pingão, pinicão, pissão, puxão, rasgão, raspão, remelão, repelão, repuxão, requentão, respigão, revirão, sacão, socavão, sofrenão, talhão, tirão, travão, tropeção, tropicão e varejão;

 2) –  nomes conexos com números: milhão/milião, bilhão/bilião, trilhão/trilião, quatrilhão/quatrilião, quintilhão/quintilião, sextilhão/sextilião, se(p)tilhão/se(p)tilião, octilhão/octilião, nonilhão/nonilião, decilhão/decilião, undecilhão/undecilião, dodecilhão/dodecilião, tredecilhão/tredecilião, quatuordecilhão/quatuordecilião, quindecilhão/quindecilião, sedecilhão/sedecilião, septendecilhão/septendecilião, octodecilhão/octodecilião, novendecilhão/novendecilião, vigintilhão/vigintilião, trigintilhão/trigintilião, quadringintilhão/quadringintilião, qüingentilhão/qüingentilião, sexgentilhão/ sexgentilião, septingentilhão/septingentilião, octingentilhão/octingentilião, noningentilhão/noningentilião, cinqüentão, vintão, trintão, quarentão, sessentão, setentão, oitentão, noventão, centão, duzentão, trezentão, quatrocentão, quinhentão, seiscentão, setecentão, oitocentão, novecentão;

3) –  nomes de origem onomatopaica: balalão, cancão, chanchão, chororão, pimpão,  ramerrão, tarampantão, tentilhão;

Além disso, como ensina ANTÕNIO HOUAISS, há inúmeros aumentativos que morfologicamente não apenas se podem apresentar acrescidos de -ão/-ona, mas também de formas sufixais encorpadas. Importa ter sempre presente que os aumentativos deste tipo representam, não raro, outra coisa, isto é, outro referente.

No mensalão o sufixo “ão” é empregado com sentido moral ou ético de típico valor afetivo, como ocorre em outros casos, que a seguir exemplificamos:

A) – alegrão, animalão, bagualão, bambão, barbatão, beatão, bichão, bochechão, bonitão, bonzão, borrachão, brancão, brigão, bundão, burrão, cabrão, cabrochão, caladão, camelão, cavalão, chefão, choramingão, companheirão, curingão, despachadão, dinheirão, doudão/doidão, durão, espantalhão, esquisitão, estudantão, feichão, felizão, festão, figurão, filhotão, folgazão, gorilão, gostosão, homão, ignorantão, jantarão, jeitão, machão, maganão, maricão, materialão, matungão, mauzão, mediocrão, mestrão, militarão, molecão, molengão, mulherão, mundão, negocião, negrão, originalão, palavrão, pancadão, partidão, paspalhão, patifão, pedinchão, pelintrão, pesadão, politicão, rabulão, rapagão, relapsão, santão, sapatão, sargentão, semplão, sensaborão, sentimentalão, servilão, soberbão, solteirão, tafulão, talentão, tamanhão, tempão, tipão, trabalhão, trambolhão, viajão, vidão, vinhão;

B) –o lhão como sufixo encorpado de valor dimensivo ou de outra coisa: bagalhão, bagralhão, curvilhão, escovilhão, facalhão, fardalhão, grandalhão, pontilhão, rabilhão, rodilhão, saquilhão, tendilhão, vagalhão, vergalhão;

C) ainda o lhão como sufixo moral ou ético de valor afetivo: amigalhão, bandalhão, benzilhão, bestalhão, bobalhão, brigalhão, brincalhão, dramalhão, espertalhão, farsalhão, farsilhão, feialhão, fracalhão, fradalhão, frescalhão, gangalhão, gordalhãograndalhão, gritalhão, mexelhão, moçalhão, negralhão, parvalhão, politicalhão, porcalhão, pretalhão, vendelhão, vendilhão (revendilhão), zangaralhão;

D)  –  o eirão como sufixo encorpado de valor dimensivo ou de outra coisa: capeirão, chaveirão, chuveirão, espadeirão, flaqueirão, grosseirão, largueirão, malheirão, mangueirão, palheirão, ribeirão, vozeirão;

E) também o eirão como sufixo encorpado de valor afetivo: asneirão, bonacheirão, fraqueirão, grosseirão, ligüeirão, madraceirão, molangueirão/molengueirão, moleirão, parvoeirão, simplacheirão, toleirão, zombeirão;

F) –o  rrão como sufixo encorpado de valor dimensivo ou de outra coisa: barbarrão, canzarrão, caparrão, cascarrão, gatarrão, homenzarrão, insetarrão, laçarrão, pratarrão, saparrão, sitarrão;

G) –mais uma vez o rrão como sufixo. encorpado de valor afetivo: beberrão, brancarrão, difalgarrão, doudarrão/doidarrão, estupidarrão, feiarrão, homenzarrão, macharrão, madurarrão, mansarrão, negociarrão, quietarrão, santarrão, secarrão.

 É muito provável que o sucesso do vocábulo criado pelo ex-deputado ROBERTO JEFFERSON – “Mensalão” –  se deva à vulgaridade do sufixo “ão”, na língua portuguesa, mais do que à noção que a palavra quer transmitir.


SAMBA DO CRIOULO DOIDO

O artigo da Secretária de Estado HILARY CLINTON, publicado no Estadão sob o instigante título “A Arte do Poder Inteligente – estratégia da política externa americana deve envolver um engajamento multilateral para disseminar a democracia, os direitos humanos e combater o terrorismo”, embora represente um avanço em relação à política externa unilateral truculentíssima do governo BUSH, perde tempo e oportunidade ao misturar princípios gerais com questões pragmáticas.

A política externa norte-americana, sob o comando da secretária CLINTON, é um dos sucessos do governo OBAMA, na medida em que promoveu o reingresso dos EUA   na comunidade internacional, fazendo cessar o isolamento em que a administração republicana anterior os tinha colocado.

Ainda assim, os pequenos interesses dos americanos impede-os de formularem uma teoria política geral, no plano internacional, o que é fácil identificar, inclusive, pelas contradições que aparecem na sua atuação da política externa americana nas áreas a que se refere o subtítulo do artigo da HILARY: democracia, direitos humanos e terrorismo.

Ao contrário do que diz a Secretária de Estado, os EUA não lutam ( ou não lutam mais ) pela democracia e, eles próprios, estão se tornando um país cada vez mais desigual e, consequentemente, menos democrático. Os piores regimes, os mais autocráticos, podem ser apoiados – como frequentemente o são – pelos EUA, desde que respaldem suas posições estratégicas. A própria China é um exemplo disso.

No tocante aos Direitos Humanos a situação é ainda pior. A Arábia Saudita trata as mulheres como seres inferiores, e não respeita os direitos das minorias. O Estado de Israel age com os palestinos de modo mais cruel que o antigo regime do appartheid da Africa do Sul o fazia em relação aos negros. Até o terrorismo da Al-Qaeda pode transformar-se em elogiado aliado dos americanos, quando o objetivo é derrubar o atual regime sírio.

O erro primordial do pensamento da Secretária CLINTON aparece no seguinte trecho do seu artigo:

“Primeiro, à medida que o mundo se torna mais interconectado e interdependente, faz-se necessária uma ordem internacional justa, aberta e sustentável para promover a paz e a prosperidade. Em segundo lugar, essa ordem depende da liderança diplomática, militar e econômica dos EUA, que há décadas assumiram o compromisso de garantir a paz e a prosperidade.”

Eis uma visão falsa e unilateral.

Não é verdade que os EUA tenham assumido qualquer compromisso com a Paz, que eles não se cansaram nem cansam de tentar desestabilizar a cada momento.

Por outro lado, uma ordem internacional  não deve ter País algum na liderança, o que não passa de uma visão egoísta e antijurídica. Por último, quê soft power é esse que não prescinde da superioridade militar de uma grande potência ?

O ponto de vista expresso por HILARY CLINTON é um retrocesso.

Os estudiosos da matéria concordam, quase todos, que o que falta ao mundo atual é um terceiro não interessado, que centralize a força, tal como ocorre nos Estados Nacionais. Nada mais atrasado do que pregar o uso do poder militar por uma grande potência, porque ele não se exercerá em benefício de outrem que não essa grande potência.

Ao contrário do que diz HILARY CLINTON, precisamos aproveitar a chance histórica que foi a queda da antiga União Soviética e a falta de apetite da China para exercer o papel substituto de segunda grande potência e fazer o mundo avançar no sentido do estabelecimento de uma nova ordem mundial, na qual seja criado um poder centralizado, acima de todas as nações, com capacidade de impor sanções.

A esta altura esse poder só pode ser um Banco Central Internacional, competente para emitir uma moeda única mundial, o que não parece passar, nem de longe, pela cabeça da Secretária CLINTON, cujo artigo, ao confundir normas e fatos não passa, na verdade – por mais que essa expressão tenha uma carga politicamente incorreta – de um samba de crioulo doido.


QUEM QUER SAIR DO EURO ?

A mídia, vira e mexe, estampa declarações de economistas dizendo que tal ou qual país vai sair da zona do Euro.

São, normalmente, países que estão passando por dificuldades.

Cabe perguntar: por que um país em dificuldades quereria sair do Euro ? Isso só acrescentaria problemas a quem já está cheio deles.

Se alguém quisesse sair do Euro seria, atualmente, a Alemanha. Mas os alemães têm a consciência de que o Euro é uma garantia de paz na Europa – a famosa “Paz perpétua” de Kant –  que se cristalizou, neste século, depois de tanto tempo, com a implantação da moeda única.

O Euro sairá da crise mais forte do que antes. O seu grande desafio, agora, vai ser incorporar ( vamos torcer) … a Inglaterra.