AS OPORTUNIDADES QUE NASCEM DAS CRISES

Muito bem escrito, como sempre, o engraçado artigo de CELSO MING, no Estadão, intitulado “Fora de Foco”, em que ele conclui que vai ser preciso criatividade dos membros do BRICS para que eles , no futuro, são sejam, apenas, como ( segundo MING o são atualmente ), um “agrupamento de letras”.

Há um provérbio oriental que ensina que a crise nada mais é do que o anúncio do surgimento de novas oportunidades; o que o MING não percebeu ainda.

Será que a Europa de MERKEL e SARKOZY, os Estados Unidos de OBAMA e dos Republicanos, a Inglaterra de CAMERON – os líderes do nosso até recentemente fabuloso mundo ocidental sabem como vai ser o futuro ?O dólar e o Euro estão em crise, e a libra há muito tempo não é uma moeda relevante.  O FMI é um órgão que, segundo FRIEDMAN, devia ser extinto, por já ter cumprido a tarefa para a qual foi instituído.

Nesse clima, a proposta aprovada nesta reunião de março dos BRICS – de que o comércio entre eles se produza em moedas locais – pode ser uma saída para a crise, ou, pelo menos,  um produto extremamente positivo resultante dessa crise.

As posições políticas dos membros do BRICS coincidem em muitos pontos; mesmo porque não é preciso um grande esforço para perceber que a ideologia pós-Segunda Guerra, na qual os EUA “surfaram” durante cerca de 60 anos, faliu completamente. Para convergir politicamente basta ver o que é óbvio, no plano internacional.

É certo que, de uma perspectiva econômica “dogmática” há interesses contraditórios entre o Brasil, Rússia, China,Índia e África do Sul. O comércio internacional, porém, foi criado, há muitos séculos, exatamente para superar esses interesses contraditórios.

Por outro lado, a crise mundial que estamos vivendo não é econômica: ela é monetária. Se houver uma nova ética monetária, se a moeda deixar de ser – como já deixou, especialmente na China –  um instrumento do capitalismo, e for empregada como fator de organização social, e não de acumulação de peças monetárias, as relações internacionais mudarão, especialmente no que diz respeito ao convívio dos mais ricos com os mais pobres: porque a riqueza e a pobreza não serão, mais, os dois grandes pólos da vida social.

Os conservadores e os liberais que eram, até pouco tempo atrás, os que melhor pensavam o mundo, estão dando lugar aos socialistas que perceberam que não será através de guerras e de revoluções que transformarão a realidade: mas através do voto. Essa fórmula simples que, no Brasil, inspirou o Partido dos Trabalhadores, pode reproduzir-se em escala mundial, muito mais rapidamente do que pensa a vã filosofia do CELSO MING.


COVARDIA DIANTE DAS MUDANÇAS

Quando eu leio certas notícias sobre a indexação ainda resistente em nosso País lembro-me de um saudoso amigo, AUGUSTO THOMPSON, que notara ( a outro propósito ) atitude semelhante em Portugal, quando lá esteve, durante algum tempo, fazendo um curso de extensão universitária.

Na época, Portugal ainda insistia em manter, a duras penas, as chamadas províncias ultramarinas, embora os jovens portugueses voltassem das guerras coloniais estropiados, emigrassem para não ir para a África, e a sociedade civil mostrasse um cansaço enorme com aquela situação, que os portugueses insistiam, contudo,  em não mudar ( até que veio a Revolução dos Cravos e tudo se transformou ).

O que caracteriza o brasileiro, dizia VIANNA MOOG, é a lusofonia: a sua forma não só de falar como de pensar como os portugueses , e deve ser por isso que somos tão covardes diante das mudanças que devemos enfrentar.

Essas reflexões ocorreram-me a propósito de um pequeno suelto no Estadão sob o título “Mensagem”, do seguinte teor:

“ A mensagem do Banco Central, em seu Relatório de Inflação, é clara: enquanto a indexação não for atacada de frente, o Brasil vai conviver com inflação elevada em relação às taxas dos países avançados.”

A indexação, supostamente,  foi abolida pelo Plano Real de 1994 – cuja exposição de motivos da respectiva lei afirma, com todas as letras, que os País tinha voltado ao regime do valor nominal – mas ficaram brechas que, aliadas ao expediente da Unidade Real de Valor ( feito para que ninguém perdesse nada ) e da ausência de uma norma de conversão, mantiveram a correção monetária viva até hoje.

É impressionante um Banco Central da importância do nosso dizer que enquanto a indexação não for atacada de frente a inflação não cairá no Brasil, e não acontecer nada no dia seguinte. De duas uma: ou o Banco Central é um órgão tolo, ou tolo é o Brasil – isto é, tolos somos todos nós – que não temos a ousadia de acabar com o que sabemos que nos faz tanto  mal.


A HORA E VEZ DE DILMA ROUSSEFF

A História vai consagrar o ex-presidente FERNANDO HENRIQUE como o responsável pela estabilidade monetária do País, depois de anos de caos e hiperinflação; o ex-presidente LULA como aquele que retirou da pobreza absoluta milhões de brasileiros e incorporou outros tantos à chamada Classe “C”.

A presidenta DILMA, segundo creio, será reconhecida como uma brava lutadora contra a corrupção e como aquela que conseguiu reduzir os juros brasileiros a níveis  civilizados.


O BOM RESULTADO MONETÁRIO DA REUNIÃO DOS BRIC’S

A repórter Iracema Sodré, enviada pelo Estadão para cobertura da reunião dos BRIC’S, na índia, informa que os presidentes de bancos de desenvolvimento do Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul assinaram acordos que vão permitir o financiamento de comércio e investimento em moeda local, um assunto que vem sendo discutido desde a primeira reunião do grupo.

O objetivo da medida é aumentar a cooperação entre os bancos de desenvolvimento dos Brics e “evitar a vinculação do negócio ao dólar e, portanto, a exposição à flutuação cambial”

Não obstante o seu objetivo, aparentemente restrito, este é o primeiro passo efetivo para a criação de uma “moeda imaginária” dos BRIC’s.

Moeda imaginária é um conceito que vem desde   a Idade Média, significando, grosso modo,  uma média das unidades monetárias dos diversos países.

As moedas dos BRIC’s, para serem usadas no comércio entre os membros desse bloco, vão precisar ser equiparadas, com a criação de uma unidade ideal ( assim como ocorreu com o EURO, antes de sua emissão ). Tais moedas vão precisar subordinar-se, portanto, a uma medida comum de valor.

No momento em que houver essa medida comum os países que integram o BRIC’S poderão, se assim o quiserem, emitir peças monetárias comuns. Com isso teremos uma terceira unidade monetária internacional, além do dólar e do Euro o que poderá ocorrer remotamente mas – dependendo da situação financeira da Europa e dos Estados Unidos – será uma opção concreta para esse Bloco Internacional, que não é tão insignificante como muitos analistas dizem ser.