AS BESTEIRAS QUE LEVAM ÀS GUERRAS
O chefe do Estado-Maior das Forças Armadas israelenses, general BENNY GANTZ, numa declaração de ontem, afirmou que “Israel é o fiador de sua segurança. O Estado de Israel deve se defender”.
Ele baseia-se, assim como seu superior, EHUD BARAK, na tese hoje muito em voga da “zona de imunidade”, que é a suposição de que, além de um determinado ponto, não adiantaria bombardear as instalações nucleares iranianas, porque isso não conseguiria impedir a obtenção da bomba pelo Irã.
Essa tal “zona de imunidade” é uma noção vaga e imprecisa mas que pode desencadear uma guerra de Israel contra o Irã.
O colunista FAREED ZAKARIA, num artigo recentíssimo publicado no Washington Post, mostra que a história registra vários casos dessa modalidade de visão catastrófica, que já foi usada por políticos e militares em diversas ocasiões, mas se revelaram, sempre, exageradas, senão completamente erradas.
Lembro-me bem de uma dessas “teorias” tolas: a do dominó, que levou, afinal, à guerra do Vietnam.
É incrível pensarmos, hoje, como uma teoria tão irreal e leviana pôde ser um dos principais estopins da vergonhosa guerra do Vietnam.
Agora, é a zona de imunidade, a que se refere o governo do Estado de Israel, que está na moda; mas não passa de um conjunto de palavras que não fazem sentido.
Por que zona ? Geográfica ou temporal ? Por que imunidade? E defesa de quê ?
O Irã não só não tem como, provavelmente, não terá a bomba atômica; mesmo porque ele sabe, e já declarou isso publicamente, que seria uma loucura tentar fabricar a bomba, porque usá-la desencadearia o risco de fazer cair sobre a cabeça de seu povo milhares de bombas atômicas ocidentais.
Nunca houve zona de imunidade alguma, em lugar algum do mundo, em momento algum da História. Assim como não há, agora, no que tange ao possível conflito Israel/Irã, que os governos responsáveis do mundo – inclusive o dos EUA e da Grã Bretanha – não querem que ocorra.Enfim, não há zona de imunidade: esse conceito é destituído de conteúdo, não tem sentido.
Ideologicamente, o que está por trás dessa história de “zona de impunidade” é a ideia de “vitimização”, que o colunista ROGER COHEN acabou de denunciar, em artigo desses dias do NYT, e que precisa ser substituída pelo conceito novo de “uso adequado do poder”.
A única potência atômica do Oriente Médio é Israel, militarmente poderosíssimo. Ele precisa saber empregar, racionalmente, esse poder. Ninguém – nem mesmo, por certo, o Irã – tem dúvidas quanto ao poder do Estado de Israel. Será que só o governo de Israel não sabe disso ?
O Estado de Israel não pode usar mal o seu poder, porque isso prejudicará os seus aliados – especialmente os Estados Unidos – e pode se voltar contra o povo israelense. Usar mal o poder faz mal a qualquer país poderoso, e Israel é um país poderoso
Está na hora de o governo do Estado de Israel ouvir as vozes razoáveis que lhe dizem: pare com isso ! use adequadamente o seu imenso poder ! não o desperdice por causa de uma noção idiota de zona de imunidade ! não deixe que uma besteira leve o seu País a uma guerra !
