DINHEIRO E MAGIA

O livro ˜Dinheiro e magia – uma critica à economia moderna à luz do Fausto de Goethe”, de HANS CHRISTOPH BINSWANGER, recém publicado em português pela editora Zahar é fininho, com apenas 115 páginas, mas fica mais volumoso – e mais interessante – com o Prefácio e o Posfácio acrescentados pelo professor GUSTAVO FRANCO, que somam 75 páginas – totalizando, assim, 190 páginas de texto.

Confesso que gostei muito mais do que, sobre o livro, escreveu GUSTAVO FRANCO do que do livro em si que é ( eu quase ia dizer data venia, mas me contive a tempo ) uma salada ideológica.

O Autor procura, no final das contas, dar uma explicação para o valor do papel moeda e, para esse fim, além de recorrer à metafísica vulgar – como acontece, usualmente, com os que se metem a escrever sobre o tema – não satisfeito, ultrapassa os limites do razoável e da própria metafísica, para se apoiar na … alquimia.

Como informa FRANCO o livro foi publicado, em alemão, em 1985, numa época em que havia surgido, na verdade, um novo interesse sobre a alquimia e muitas outras coisas igualmente irracionais. Na apresentação do livro “O ALQUIMISTA”, que foi um sucesso de público, e tem inúmeras edições em várias línguas, o hoje membro da Academia Brasileira de Letras, PAULO COELHO conta como passou a se dedicar ao estudo da alquimia, no começo dos anos setenta, depois que sentiu a “idéia de que tudo ( isto é, a vida dele ) ia acabar um dia era desesperadora”.

Aproveitando-se do fato de que GOETHE baseou o seu “Fausto”na história verdadeira de uma espécie de mágico alemão que morreu, em 1539,  numa antiga cidadezinha alemã ao sul de Freiburg, e acreditava – como muita gente no seu tempo – na pedra filosofal, capaz de transformar o chumbo em ouro,  BINSWANGER desenvolve um estudo, especialmente sobre a segunda parte da peça de GOETHE, para mostrar que o esplêndido poeta alemão ficara perplexo diante do surgimento do papel moeda, chegando a invocar a alquimia para tentar explicar o seu valor.

Acontece que GOETHE, que nasceu em 1749, meados do século XVIII, era um gênio, e escreveu uma obra poética de enorme significado literário, permitindo-se usar de símbolos e imagens que não têm, a meu ver, o menor sentido, num teto escrito por um economista, suíço, por mais ilustre que seja, nascido em 1929.

Assim como o livro de PAULO COELHO, sobre o Alquimista, teve um extraordinário sucesso, o livrinho de BINSWANGER também faz carreira, tanto que foi traduzido para o inglês, em 1994 e, agora, para o português, sendo divulgado por iniciativa do prof. GUSTAVO FRANCO. É verdade que PAULO COELHO é muito mais famoso do que BINSWANGER mas, mesmo assim, o livrinho deste último tem merecido a atenção de muita gente boa.

O professor GUSTAVO FRANCO, especialmente no Prefácio, fez uma pesquisa muito interessante sobre o Fausto, de GOETHE, e teve o cuidado de não cair na tentação de adotar, ele próprio, uma ideologia alquimista para explicar o valor da moeda.

O livro acaba valendo pelo estudo que o precede.

A busca do significado do valor, como advertia a economista inglesa, marxista, JOAN ROBINSON,  não leva, quase nunca, a lugar nenhum, sendo um mero exercício de metafísica. E esse tipo de metafísica, como se sabe, equivale a um professor cego, ensinando a uma turma de alunos cegos, a procurar num quarto escuro um gato preto … que não existe.

Não há valor real. Todos aqueles que procurarem o valor na natureza estarão incidindo na chamada “falácia naturalística˜, confundindo os níveis do ser e do dever ser.O valor não está no plano da realidade, da natureza, do ser; mas no plano do dever ser, sendo uma norma. O fundamento do valor, por sua vez, é histórico. Quanto ao seu conteúdo, é uma conduta humana.

A circunstância de GOETHE ter escrito o Fausto numa época de grande transformação econômica, quando as peças monetárias deixavam de ser de metal e passavam a ser de papel, torna a sua peça genial; mais genial ainda, atribuindo-lhe um significado que justifica os inúmeros estudos já existentes sobre os seus aspectos econômicos, financeiros e monetários.

Ainda se acreditava, no tempo de GOETHE, que a moeda tinha um conteúdo natural, e que esse conteúdo tinha um valor intrínseco, irradiava valor, assim como os raios que emanavam do Sagrado Coração de Jesus.

Sabe-se, hoje, que o ouro não constitui valor intrínseco, não passando, como afirmava KEYNES, de uma “relíquia bárbara”. A moeda não tem – e nunca teve – valor real. Essa ideologia do valor real – que inspirou, entre nós, a correção monetária – é um grande equívoco.

A moeda tem um valor nominal. Isso não quer dizer que, pelo fato de ser nominal, ela não tenha um valor, como pareceu ao papa do nominalismo, o economista alemão KNAPP. A moeda é um valor; e é um valor intrínseco, o que explica o sucesso de certos financista tidos como magos, como JOHN LAW, por exemplo, que emitiram dinheiro para enfrentar crises financeiras.

Agora mesmo, em 2008, diante da crise financeira que estourou nos EUA, o Federal Reserve deu início a uma política de afrouxamento monetário, emitindo uma profusão de dólares, ajudando com isso a recuperar a economia americana. Isso porque o dinheiro emitido, embora valor nominal, é valor.

Como é necessária uma certa correlação entre a quantidade de dinheiro emitido e a o nível de atividade das pessoas na sociedade  a emissão de moeda, em alguns casos pode gerar inflação.

O genial poeta alemão não tinha o conhecimento jurídico e econômico que hoje se tem sobre o significado do dinheiro, e queria fazer um grande poema, uma grande peça teatral magnífica, o que efetivamente fez. Mas esse trabalho de gênio não pode servir de critério para interpretar a economia moderna, como pretendeu HANS BINSWANGER, que escreveu um livro confuso e, afinal, inútil – salvo pela inspiração que provocou no seu prefaciador, que produziu um texto de boa qualidade.


3 comentárioss até agora

  1. Matheus junho 29, 2017 3:58 pm

    Boa tarde e peço licença para usar o espaço aqui disponibilizado.
    A análise apresentada me parece apressada em diminuir o autor de “Dinheiro e Magia”, o que vejo com indiferença, e tomou um rumo confuso donde não falou nada e nem deixou claro o que tentava dizer, mas enlaçou nessa pressa uma estranha crítica a Goethe e à Alquimia em geral, o que me parece um equívoco pedante, modismo tecnicista de ridicularizar aqueles que ainda não tinham a suposta “luz” que o último século nos trouxe. A alquimia não é “irracional” e Goethe não utilizaria símbolos que “não possuem o menor sentido”, assim como ele não quis “fazer um grande poema”, o longo trabalho de 60 anos, tempo em que Goethe esteve debruçado sobre Fausto, já ultrapassou esse objetivo, se é que algum poeta em algum momento escreveu algo com esse intuito. Não estamos falando do hermetismo do linguajar jurídico, que se orna de floreios para firmar os pés em patamar inalcançável, mas sim de símbolos muito mais elaborados. O hermetismo dos símbolos alquímicos não deve ser ignorado e seu valor deve ser sempre reconhecido, aqueles que os ignora simplesmente por acreditar que esse trabalho, o de estudar Hermes-Trismegisto por exemplo, é função de medíocres como o Paulo Coelho, se equivoca e demonstra leviandade diante do desconhecido. Na releitura de procedimentos empregados por Paracelsus, por exemplo, para a criação de um Homúnculo, vemos a semelhança com os úteros artificiais que agora, em 2017, surgem como maravilhas da ciência. No séc. XVIII já fizeram o que em seu texto foi feito, hoje, aqueles que buscam o verdadeiro conhecimento, já não ignoram a antiga sabedoria e tomam o caminho contrário do texto aqui apresentado.
    Desculpe se pareci estúpido ou pedante, me igualando ao seu texto, mas apenas gostaria de dizer que o senhor está na contramão, e isso não quer dizer que se rebela, mas que se apoia em ignorâncias ultrapassadas.
    Abraços

  2. letacio junho 29, 2017 7:28 pm

    Prezado senhor: Fiquei perplexo com o seu comentário mas, ainda assim, publiquei-o; não só em respeito a uma opinião diferente da minha, como porque é possível que algum leitor consiga entender as ideias que o senhor pretendeu transmitir.

  3. Matheus junho 30, 2017 2:21 pm

    Senhor Jansen,
    obrigado pela atitude democrática que o senhor teve ao publicar meu comentário. Agora que o releio percebo que, no afã de atender ao meu ponto de vista, fui grosseiro e destaquei pontos de maneira desonesta, já que sua análise não era sobre os estudos alquímicos e seu valor em si ou sobre a obra goethiana, mas sobre a coerência (ou falta dela) de um intérprete de Fausto. A expectativa de Goethe ao lançar a segunda parte de sua Magnus Opus era justamente o que o Binswanger fez, que o intérprete encontrasse “mais coisas” na obra além das que já haviam sido evidenciadas, por isso a obra possui esse caráter simbólico tão forte, traço que Goethe tanto renegou em seus anos de Sturm und Drang. Porém essa interpretação do renomado economista suíço não deixa de ser discutível. O curioso da situação é pensar que Goethe não quis que Fausto II fosse publicado em vida para que ele não visse a reação de seus contemporâneos. De certa maneira essa obra ainda permanece selada e extremamente atual, apesar de o “fermento” do tempo não nos ter trazido uma sabedoria universal, tendo nos levado a um movimento inverso ao da Pansofia, dos tempos de Goethe, segmentando os saberes de maneira extraordinária.
    Dito isto, finalizo.
    Obrigado pelo espaço.

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