GUERRA A CONTRAGOSTO

 

 

 

O jornalista JAVIER VALENZUELA, do El Pais, em artigo hoje publicado, diz que “ a fase secreta de uma possível guerra entre EUA e Irã … já começou”.

VALENZUELA considera que o pedido de OBAMA de devolução do avião não tripulado foi “infantil”, e cita as palavras do Ministro da Defesa, general AHMAD VAHIDI, de que o “drone” estava no espaço aéreo iraniano e, se foi interceptado, é propriedade iraniana.

Há algum tempo parecia haver uma espécie de consenso entre os analistas políticos de que numa guerra entre Irã e EUA/Israel as perdas para as partes envolvidas seriam tão pesadas que era uma hipótese improvável.

De uns tempos para cá, contudo, os tambores da guerra voltaram a tocar. Primeiro, o Estado de Israel, pouco antes do anúncio da Agência Internacional de Energia Atômica, ameaçou atacar o Irã.

Na ocasião, o presidente OBAMA pareceu jogar água fria na fervura, dizendo compreender a retórica israelense – mas dando a entender que não passava de retórica.

Mais tarde, porém, o mesmo presidente OBAMA usou aquela linguagem conhecida, desde os tempos de BUSH, de que “todas as opções estão sobre a mesa”. Ao mesmo tempo, o ministro da Defesa de Israel disse que não havia preparativos para a guerra ( o que pode significar uma tentativa de retomar o elemento surpresa, útil, estrategicamente).

É possível que, para muitos membros das Forças Armadas dos três países envolvidos – e dos outros que iriam a reboque – não há muita diferença entre jogos de guerra e guerra: entre guerra à brinca, e guerra à vera.

Eu interpreto o pedido de devolução do “drone” – feito pelo presidente OBAMA – como uma demonstração de que ele quer conversar. Em outras ocasiões ele deu sinais semelhantes.

Mas ele é comandante em chefe de Forças Armadas que estão permanentemente de prontidão, querendo ação. Com a saída dos 40.000 soldados americanos do Iraque o risco de eles se tornarem vítimas de um fogo cruzado praticamente desaparece.

Em resumo: se as forças políticas americanas – contrárias à guerra – não se manifestarem essas escaramuças acabam provocando uma guerra, mesmo a contragosto. Haverá sempre quem diga que vai ser uma guerra “super tech”, toda aérea, e que tudo vai se resolver em três tempos. A experiência mostra, porém, que nunca é assim.

Parece-me uma loucura imaginar que o presidente OBAMA- e os democratas –  estariam tramando entrar numa guerra para driblar os republicanos  e ganhar pontos, com isso, para a sua eleição.

Tudo, porém, é possível. É bom que esse clima belicoso desapareça, antes que exploda uma guerra que ninguém, no fundo, deseja.


SOBRE O PRINCÍPIO DA RETRIBUIÇÃO

 

A noção arraigada, mas sem respaldo histórico, de que a origem do dinheiro é a troca provém, como se sabe, da Ética a Nicômano, de ARISTÓTELES, e sobrevive, generalizada, até hoje.

A troca, com efeito, a que alude o filósofo grego, consistia, isso sim, numa manifestação do “princípio da retribuição”, que surgiu nos tempos do homem primitivo, sob a forma, primeiro, da Lei de Talião: “olho por olho, dente por dente, morte por morte.”

Como salienta KELSEN, no seu livro “Sociedade e Natureza”, a “idéia de uma equivalência entre o mal sofrido e o que se deve infligir é uma característica do princípio da retribuição, que faz com que a retribuição apareça como uma espécie de troca (exchange,  no original ), embora seja mais correto considerar a troca um tipo especial de retribuição”, acrescentando pouco adiante, o seguinte :

“ O princípio da retribuição tem, conforme a sua idéia, um caráter dúplice. Significa não só que uma desvantagem sofrida por outrem deve ser devolvida com idêntica desvantagem, mas, também, que uma vantagem recebida deve ser reembolsada com vantagem semelhante.  A retribuição não tem o sentido, apenas, de castigo, mas também de recompensa”.

O dinheiro ( no sentido de valor ) é, na verdade,  anterior à permuta, pois é dele que nos valemos – como se valia o homem antigo – para ponderar as vantagens e desvantagens do intercâmbio dos bens e serviços permutados.

ADAM SMITH, ao formular a noção de valor de troca, utilizando-se do conceito aristotélico de troca –  não como retribuição, mas como ato que teria dado origem aos contratos monetários – incorreu, portanto,  num equívoco, que contamina a idéia ainda predominante hoje de poder aquisitivo, que repousa sobre a noção de valor de troca.


UM ARGUMENTO A FAVOR DO EURO

 

 

No artigo “Depressão e Democracia”, hoje publicado em O GLOBO, o economista PAUL KRUGMAN diz que, na Europa, “os valores democráticos estão ameaçados”, que “tendências políticas sinistras não devem ser desconsideradas só porque não há um Hitler no cenário” e que, se o continente europeu não repensar suas políticas econômicas, “haverá mais enfraquecimento da democracia – e o fim do euro será o menor dos problemas.”

Ele se refere, no artigo, às guinadas para a direita em diversos países e vê, nisso – com razão, a meu ver – uma ameaça.

A verdade, contudo,  é que o euro não foi uma criação da esquerda e a sua aplicação não depende de a Europa tornar-se menos de direita. A moeda, aliás, é mais cultuada pelos conservadores e liberais do que pelos anarquistas e marxistas, que não gostam dela.

Mas o euro permite que governos de centro direita, como os da Alemanha e da França, saiam em defesa da unidade européia.

KRUGMAN pode ter razão quando diz que a política econômica recessiva não é boa para a Europa.

Mas o seu artigo – embora ele seja um eurocético – é um argumento a mais a favor do euro.


O FIM DA GUERRA DO IRAQUE

 

 

Devemos celebrar o fim da guerra do Iraque, ontem solenemente anunciado pelo presidente OBAMA.

Essa guerra – afora o fato terrível de ter custado a vida de mais de 100 mil civis iraquianos inocentes – tem uma característica que a torna, historicamente, diferente das outras: ela baseou-se numa mentira em pouco tempo desmascarada.

É provável que outras guerras tenham-se apoiado, também, em mentiras. Mas a alegação falsa de que o Iraque tinha armas de destruição em massa foi em pouco tempo desmentida, porque vivemos numa sociedade transparente e de comunicações instantâneas.

A discussão sobre se o ex-presidente BUSH sabia, ou não, que se tratava de uma mentira é importante, mas isso só se vai saber com o tempo.

O mais provável, a meu ver, é que BUSH, antes de decretar a guerra, estava informado de que, pelo menos, havia a probabilidade de tais armas inexistirem mas, ainda assim, preferiu auto enganar-se, certo de que a vitória sobre o inimigo apagaria, por si só, essa questão.

A guerra, contudo, não foi ganha e, embora OBAMA tenha afirmado que os soldados voltam para casa de cabeça erguida, a derrota dos americanos ficou clara.

Em suma: uma guerra que custou mais de um cem mil mortos, alguns trilhões de dólares, desgastou a imagem dos EUA no exterior, e foi baseada numa mentira, acabou perdida.

Creio que é um fato único na História: e o seu princiapl protagonista, GEORGE W.BUSH, será conhecido, através dos tempos, como o responsável por esse desastre. Ele se tornará,  sem dúvida, o Imperador NERO dos nossos tempos.


A SOFREGUIDÃO DO MERCADO FINANCEIRO

 

 

 

Tanto a lei, como a moeda, são normas.

Como a moeda, contudo, é emitida, ela pode ser transferida de mãos em mãos, o que não ocorre com a lei, cuja aplicação depende de Tribunais e de um processo legal. A moeda é aplicada muito mais fácil e simplesmente do que a lei e, sendo extremamente móvel, pode globalizar-se melhor.

Os bancos centrais emitem moeda, e o mercado financeiro negocia com créditos.

O mercado financeiro globalizou-se monetária e  crediticiamente, mas não legalmente, na medida em que ele é operado por empresas e pessoas subordinadas às leis de seus Estados nacionais.

O tempo de maturação da moeda e dos créditos é mais rápido do que o das leis e tratados. Daí a sofreguidão do mercado financeiro internacional que não quis esperar sequer pela transformação do recente acordo europeu em leis e tratados.

O mercado vai ter, porém, que esperar. A decisão de maior disciplina fiscal já foi tomada e não vai desfazer-se diante da subida ou descida das bolsas ou das notas das agências de classificação de risco.

O investidor que se curvar à sofreguidão dos mercados pode dar-se mal, mesmo porque as empresas e pessoas do mercado, em última análise, dependem da lei.