QUEM MATA QUEM ?
A mídia deu um enorme destaque à violência brasileira nos últimos 30 anos, isto é, desde 1981 até hoje, período em que houve 1,1 milhão de homicídios, na quase totalidade por armas de fogo.
O GLOBO, por exemplo, estampou a seguinte manchete de 1ª pagina: “Violência mata 1,1 milhão de brasileiros em 30 anos – é mais que no conflito Israel x Palestina, ou um Carandiru por dia”.
A comparação do jornal é, ao mesmo tempo, bem e mal feita: em todos os casos – inclusive no nosso – as vítimas desses assassinatos são pessoas mais pobres e mais fracas do que o assassinos. No conflito palestinos x israelenses o número de mortos é, quase todo, de palestinos; no Carandiru foram os pobres presos que foram exterminados.
Os jornais precisam averiguar melhor essa questão, para fazer, apenas, a comparação bem feita.
É importante lembrar que, em passado não muito distante, vivemos dias sombrios de escravidão, em que grassaram os capitães do mato; e que, em 1981, estávamos começando a sair de uma ditadura militar conservadora que durara , até então, cerca de 20 anos.
Se aprofundarmos a nossa reflexão talvez cheguemos à lamentável conclusão de que esse número alarmante de assassinatos consiste numa política de extermínio, numa forma de “limpeza étnica”, que existe, latente, no Brasil, e que alguns pesquisadores vez por outra denunciam.
No Estado do Rio de Janeiro, por exemplo, há poucos anos atrás, as comunidades pobres traziam ao conhecimento das autoridades responsáveis pela política de Direitos Humanos o desaparecimento de inúmeros jovens, em geral negros, que as polícias encarregavam-se de executar.
Isso ocorre também em São Paulo e, com maior intensidade, nos Estados do norte e do nordeste do Brasil.
Não basta dizer que houve 1,1 milhão de homicídios no Brasil nos últimos trinta anos. Dito assim, parece que são pessoas da mesma classe social que se desentendem e matam-se entre si. Mas não é isso.
Existe, no Brasil, um conflito político mais grave do que direita x esquerda: é o conflito dos ricos x pobres, no qual muitos de nós, indiretamente, acabamos envolvidos.
Desconfio que a maior parte desses 1,1 milhão de assassinatos por armas de fogo foram praticados por policiais, a serviço ou à paisana. Tenho a certeza, por outro lado, de que a quase totalidade das vítimas foi de pessoas pobres. É indispensável apurar.
