VISÃO SUPERFICIAL DE UM TURISTA NOS EUA

Estou fazendo turismo nos Estados Unidos onde se desenvolve uma difícil campanha do Partido Republicano para escolher o seu candidato à presidência.

Vários pré-candidatos parecem inexperientes na televisão, sem saber olhar para a câmera. Os dois pré-candidatos mais desembaraçados são NEWT GRINGRICH e MITT ROMNEY.

GRINCHRICH  tem muita cancha, um jeitão descontraído, lembrando-me, às vezes, a figura largada  do ANTÔNIO CARLOS MAGALHÃES.

O MITT ROMNEY, por sua vez, é todo estudado, nos mínimos pormenores, como se estivesse imitando o REAGAN, fazendo o papel de um presidente numa dessas séries americanas de televisão.

Os republicanos, a meu ver,  têm mais a ver com o MITT ROMEY que é capaz de passar a mensagem ( demagógica ) de que os EUA ainda vive o seu momento de grande  potência.

Quanto à crise financeira americana ela não é perceptível  para o turista despreocupado.

A tensão social, por sua vez, parece-me que não é muito grande, graças, talvez,  à capacidade de diálogo e tolerância do presidente OBAMA.


APENAS UM MONETARISTA DE ESQUERDA

O ex-deputado ANTONIO CARLOS BISCAIA brincava comigo chamando-me de “monetarista de esquerda”.

Com efeito, se eu tivesse que me definir perante as três grandes correntes do pensamento político ocidental – o conservadorismo, o liberalismo e o socialismo – eu teria que me classificar como socialista.

E, ainda assim, cada vez admiro mais a formidável invenção humana chamada dinheiro… Haverá, nisso, uma contradição?

Creio que não. Acho um equívoco dos marxistas ortodoxos quando eles demonizam o dinheiro. É preciso que todos nós, sejamos conservadores, liberais e socialistas, procuremos entender o que é o dinheiro, deixando de subtendê-lo como se ele fosse sujo, ou precisasse ficar o tempo todo escondido nos contratos onerosos e nas Bolsas de Valores.

Temos, por outro lado,  que deixar de lado o preconceito de que o Estado não pode emitir moeda sem lastro. Há limites para a emissão; mas não há lastros, pois os lastros são coisas físicas, e a moeda não exsurge da realidade como se fossem os raios dourados que saem do sagrado coração de Jesus.

Qual é o lastro da emissão ? O ouro ( uma relíquia bárbara ), ou a prata ? Quem sabe o cobre ? Os imóveis ?  Os créditos ? Ou o dinheiro é um valor intrínseco, que cabe aos bancos centrais criar ? Tudo isso precisa ser discutido.

Em conclusão: a esquerda precisa de outros monetaristas, que não apenas eu.


AS VOZES DAS RUA E DO MERCADO

Ontem, ao receber a ex-presidente chilena MICHELLE BACHELET, sub secretária da Organização das Nações Unidas e Diretora Executiva da “ONU Mulher” a presidenta DILMA ROUSSEFF declarou o seguinte:

“ Hoje estamos vendo processos de desemprego dramáticos ( nos países desenvolvidos ) e processos de desemprego dramáticos levam necessariamente a processos de perda de qualidade de vida e condições de sobrevivência, por isso acho que os governos precisam romper a dissonância cada vez maior entre a voz dos mercados e a das ruas.”

Como romper essa dissonância ?

Para começar, precisamos entender, sem preconceitos,  ambas as vozes: para saber o que dizem as ruas e o que dizem os mercados.

As ruas protestam. Elas acham injusto que 1% da população mundial detenha quase toda a riqueza disponível, contra a maioria, de 99%, que não têm mais chance ( como o capitalismo prometia anteriormente ) de chegar ao topo.

Os mercados, por sua vez, não são violões “por natureza”; e, de certa forma, fazem parte desses 99% da população, na medida em que as pessoas compram ações de empresas, ou põem o seu dinheiro para render na conta de poupança.

Cumpre lembrar que os mercados – e não o capitalismo, note-se bem – tornaram-se o modo de organização dos países emergentes: a China é um socialismo “ de mercado”; o mercado, no Brasil, cresce e se expande, estimulando o consumo interno, o mesmo ocorrendo na Índia, na Rússia e na África do Sul.

Como resolver a questão da má distribuição dos valores ?

Há vários programas em curso de distribuição de renda – de diminuição das desigualdades sociais – que não prejudicam os ricos mas, ao contrário, estimulam a Economia, e deve ter sido a esses programas a que a presidenta DILMA se referiu, quando recebeu o exemplar do Relatório da ONU sobre o “Piso de Proteção Social” que lhe foi entregue pela ex-presidenta BACHELET.

Ou seja, a distribuição de renda, através de programas como o brasileiro “Bolsa Família”, por exemplo, melhora a vida dos pobres e não causa prejuízo aos ricos. É preciso indagar por que razão isso ocorre.

Como é que dar valores “reais” – que são propriedade dos ricos – aos pobres não significa tirar uma parcela do que pertence aos ricos ? Como o Robin Hood pode   ajudar os pobres sem roubar dos ricos ?

Proponho enfocarmos essa questão à luz da Teoria da Norma Jurídica que afirma não haver valores “reais”, porque a moeda é um valor nominal.

O programa de Piso de Proteção Social prevê a transferência de valores – monetários e em espécie – para famílias necessitadas. A transferência de valores se dá através de normas baixadas por Estados ou por organizações supra estatais. Emprega-se o Direito para transferir valores monetários.

Se esses valores fossem reais, e se, sendo reais, fossem propriedade dos ricos, eles não poderiam ser apropriados pelo Estado para ser transferidos para os pobres.

Dir-se-á que os ricos – isto é, os mercados – fingem que não estão vendo, tolerando, caritativamente, a transferência de renda que lhes causa prejuízo. Isso, porém, não é verdade. Se houvesse prejuízo ele seria acusado pelos mercados, que não são cegos.

A única explicação para o que está ocorrendo – para a aplicação, normativamente controlada, sem prejuízo para os mercados, dos programas de Piso de Proteção Social – é que as pessoas não são proprietárias do dinheiro que possuem.

Se a moeda não é propriedade da pessoa que a detém, se o Estado pode dispor sobre a moeda que emite e se, ao mesmo tempo, a moeda, mesmo não sendo um valor real, é, ainda assim, um valor, podemos  percorrer os caminhos que são necessários para romper as dissonâncias atuais entre as vozes das ruas e do mercado.


QUEM MATA QUEM ?

A mídia deu um enorme destaque à violência brasileira nos últimos 30 anos, isto é, desde 1981 até hoje, período em que houve 1,1 milhão de homicídios, na quase totalidade por armas de fogo.

O GLOBO, por exemplo, estampou a seguinte manchete de 1ª pagina: “Violência mata 1,1 milhão de brasileiros em 30 anos – é mais que no conflito Israel x Palestina, ou um Carandiru por dia”.

A comparação do jornal é, ao mesmo tempo, bem e mal feita: em todos os casos –  inclusive no nosso – as vítimas desses assassinatos são pessoas mais pobres e mais fracas do que o assassinos. No conflito palestinos x israelenses o número de mortos é, quase todo, de palestinos; no Carandiru foram os pobres presos que foram exterminados.

Os jornais precisam averiguar melhor essa questão, para fazer, apenas,  a comparação bem feita.

É importante lembrar que, em passado não muito distante, vivemos dias sombrios de escravidão, em que grassaram os capitães do mato; e que, em 1981, estávamos começando a sair de uma ditadura militar conservadora que durara , até então, cerca de 20 anos.

Se aprofundarmos a nossa reflexão talvez cheguemos à lamentável conclusão de que esse número alarmante de assassinatos consiste numa política de extermínio, numa forma de “limpeza étnica”, que existe, latente,  no Brasil, e que alguns pesquisadores vez por outra denunciam.

No Estado do Rio de Janeiro, por exemplo, há poucos anos atrás, as comunidades pobres traziam ao conhecimento das autoridades responsáveis pela política de Direitos Humanos o desaparecimento de inúmeros jovens, em geral negros, que as polícias encarregavam-se de executar.

Isso ocorre também em São Paulo e, com maior intensidade, nos Estados do norte e do nordeste do Brasil.

Não basta dizer que houve 1,1 milhão de homicídios no Brasil nos últimos trinta anos. Dito assim, parece que são pessoas da mesma classe social que se desentendem e matam-se entre si. Mas não é isso.

Existe, no Brasil, um conflito político mais grave do que direita x esquerda: é o conflito dos ricos x pobres, no qual muitos de nós, indiretamente, acabamos envolvidos.

Desconfio que a maior parte desses 1,1 milhão de assassinatos por armas de fogo foram praticados por policiais, a serviço ou à paisana. Tenho a certeza, por outro lado, de que a quase totalidade das vítimas foi de pessoas pobres. É indispensável apurar.