A ARROGÂNCIA DO MERCADO

 

 

Uma senhora, estrategista da Brewin Dolphin Securities de Londres, que administra 39 bilhões de dólares, deu  o seguinte recado à Europa:

“A mensagem do mercado é clara: ajam em conjunto ou nós ( o mercado ) vamos destruí-lo ( o Euro )”

Essa determinação foi transmitida à Bloomberg e foi noticiada pelo Estadão, na reportagem de Silvio Guedes Crespo, intitulada  “Corretora já pensa no fim do Euro.”

O que dá tanto poder aos agentes do mercado financeiro globalizado ? Serão eles os donos do mundo ? Eles têm a chave da verdade ? Qual a sua riqueza ?

A história da moeda é longa; e as bases desta crise que afeta os países desenvolvidos vêm sendo construídas através dos últimos 200 anos, pelo menos, em torno de um conceito econômico errado, baseado em ADAM SMITH, segundo o qual o dinheiro teria um valor de troca.

Os créditos de que são detentoras as pessoas  que investem no mercado edificam-se sobre as moedas, emitidas pelos diversos Estados nacionais. Essas moedas são valores – mas não são valores de troca. Quem inventou, com suposta base em ARISTÓTELES, que a moeda seria um valor de troca foi o pai da Economia moderna, no seu livro Riqueza das Nações.

Cabe perguntar ao mercado: se os créditos que eles detém, que florescem em cima das diversas moedas nacionais, não forem valores de troca, o que eles terão em mãos ?

Segundo números que circulam pela imprensa, para um produto bruto mundial, da ordem de 62 trilhões de dólares, há créditos circulando no mundo em torno de 620 trilhões. Isso significa que os créditos nas mãos do mercado tem um valor dez vezes menor do que o seu valor de troca.  Ou prova que não há valor de troca ?

Sobre essa noção de troca construiu-se, através dos séculos, uma pirâmide em cujo ápice estão os mais ricos que, segundo STIGLITZ representam, apenas, 1% da população mundial, e  controlam cerca de 40% da riqueza do mundo, usufruindo 20% de toda renda.

Parece evidente que essa pirâmide é injusta e, na verdade, deveria ser invertida, para que a sua base – infinitamente maior – receba, em distribuição, a maior renda. Para isso é preciso derrubar o conceito smithiano de valor de troca.

Isso não quer dizer que a moeda deva acabar. O fracasso dos chamados “socialismos reais”, na medida em que se basearam nas teorias monetárias de MARX, consistiu na incapacidade de um regime, que centraliza praticamente todas as decisões , administrar um Estado tão complexo como o contemporâneo.

A moeda permite descentralizar o poder e tornou possível criar-se o deslumbrante mundo atual. Mas não foi o valor de troca que fez isso: foi o valor, pura e simplesmente o valor, a moeda.

Mantido o dinheiro na sua função descentralizadora, na sua condição de valor suge um mercado de capitais, no qual todos nós, afinal de contas, somos investidores, isto é, credores. Mas,antes de sermos investidores, somos cidadãos de Estados nacionais que emitem moedas e, no caso da Europa, cidadãos da zona do Euro, e não podemos permitir que alguém ameace nos destruir.

A destruição do Euro – ameaçada, arrogantemente, pela estrategista da Brewin Dolphin Securities de Londres será a destruição da União Européia, que não pode ocorrer, porque isso poderia levar, de novo, a uma guerra mundial – como sugeriu a própria chanceler ANGELA MERKEL, num comentário incidental, feito recentemente.

Os agentes do mercado, embora tenham um enorme poder político – credores, como hoje são, de dívidas soberanas – não são eleitos. Mas nós precisamos saber quem são, o que fazem, quanto gastam, com total transparência.

Há políticos corruptos – quem não sabe disso ? – e o mercado financeiro, especialmente o globalizado, tem dinheiro a rodo para os corromper. Isso dificulta, sem dúvida, o controle, e a regulamentação, sem falar na cegueira do discurso ideológico que é veiculado pela mídia, que pode ser pago com o dinheiro do mercado, capaz de subsidiar muitos analistas. Sem falar nas guerras que são pagas com o dinheiro dos ricos.

O mercado lida com algo muito sério, que é um valor, o principal de todos os valores. Sem a moeda emitida pelos Estados não há créditos, não há mercado. O mercado não pode ser, portanto, irresponsável, inimigo do Estado, e ameaçar destruir o Euro. É preciso punir essas condutas anti estatais dos agentes do mercado.

Os mercados têm uma enorme responsabilidade sobre a vida das pessoas. Eles não podem, em nome de um conceito equivocado de valor de troca  determinar quem será rico e quem será pobre, quais os povos que passarão fome, como ocorre atualmente.

Não é preciso combater o sistema de fora, como queriam os doutrinadores marxistas. Ele pode ser combatido “por dentro”, como, o fez, numa época, o megainvestidor SOROS e estão fazendo, atualmente, diversos intelectuais, alguns deles ganhadores de prêmios Nobel.

Uma experiência que, aparentemente, deu certo, foi o socialismo de mercado chinês. Mas a China não conseguiu  deixar de ser uma autocracia. A descentralização das decisões tornada possível  pela moeda não substitui a democracia. Como a moeda é um valor, e como ela é emitida pelos políticos que tem o poder nacional, os povos devem escolher os Parlamentos que vão controlar seus governantes.

A democracia pode contribuir, pois,mais do que a autocracia, para o controle e a regulamentação dos mercados financeiros. Ao ameaçar destruir o Euro a estrategista de que fala a reportagem do Estadão está  nos desprezando, mas zomba , também, da democracia.


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