OS ECONOMISTAS E O EURO

Dizendo as coisas de um modo muito simples podemos afirmar que os economistas, em geral, não gostam do Euro.  Ao ler as suas entrevistas, ao assistir às suas participações em programas de televisão, é fácil perceber: eles não gostam do Euro.

Como os economistas tornaram-se, no mundo monetário de hoje em dia, os grandes formadores de opinião, a opinião pública está começando a não gostar do Euro, e se pergunta: por que os gregos, tão abagunçados, fazem parte do Euro ?  por que os portugueses, tão pouco voltados para a modernidade, estão na zona do Euro ? e os italianos, com aquele presidente tão desqualificado moralmente, por que razão têm o Euro como moeda ?

Os economistas, em geral, são muito críticos. Para ser crítico, porém, é preciso ter um ponto de apoio. Os números esgrimidos, todos os dias, pelos economistas não teriam nenhum sentido se significassem, apenas, quantidades: eles expressam quantias que, por sua vez, traduzem valores. Para entender os economistas, portanto, e descobrir porque eles são tão contra o Euro, cumpre indagar quais são os seus valores: em que valor eles acreditam.

Dirão vocês:  os economista acreditam nos valores de mercado. Em quê valores, porém, acreditam os mercados ? Parece-me que eles acreditam no valor de troca, que incorpora o poder aquisitivo.

A noção de valor de troca, como um repositório de poder aquisitivo, surgiu em substituição ao conceito de valor intrínseco que considerava os metais – especialmente o ouro e a prata – como irradiando valor, assim como o sagrado coração de Jesus, naquelas imagens dos calendários da nossa infância, emanava raios límpidos de bondade e resignação.Os marxistas não contestam a noção de valor de troca, mesmo porque MARX considerava que o dinheiro era, no fundo,  uma mercadoria que virava moeda num determinado momento.

Se separarmos os planos do dever ser e do ser, e refletirmos um pouco, entenderemos que  a derivação de um elemento do ser para o plano do dever ser consiste numa falácia.

Chegamos, assim, à conclusão de que os economistas não gostam do Euro porque eles acreditam no valor de troca, e o valor de troca é o resultado de um pensamento metafísico confuso.

Diante dessas considerações, que a leitura do Estadão de hoje ensejou, fico ao lado do colunista ROGER COHEN, que enxerga beleza nas instituições que visam unir a Europa, e contra a sugestão de KENNETH ROGOFF, que acha que “sair do Euro é um custo menor diante de uma recessão profunda”.

O esfacelamento do Euro – usando uma imagem do agrado dos políticos europeus que lutam para que isso não aconteça –  será uma catástrofe”institucional” não só para a Europa, como para todos nós.


UMA DÉCADA PERDIDA: POR QUÊ ? PARA QUEM ? ATÉ QUANDO ?

Os jornais nos informam que muitos europeus, diante das atuais medidas de austeridade, preparam-se para enfrentar uma década futura perdida.

Uma pergunta, de ordem moral, logo nos ocorre, diante dessas notícias : serão  necessárias, de fato, tantas medidas de austeridade ? Ou essas restrições fiscais decorrem de uma vontade de punir os europeus ?

Os neo liberais sempre acharam o Estado europeu de bem estar social algo pesadão,  antiquado e muito caro. O seu desmonte, porém, não custará mais caro ainda ?

Essas questões vão resolver-se num embate político. Será que os milhões de desempregados,  da Espanha e de Portugal – por exemplo –  ficarão satisfeito com esse prognóstico, de década perdida?  E, se não ficarem, o que irão fazer, além de protestar ? Votar ? Em quem ?

Por enquanto só há uma resposta para tudo isso: será uma década perdida, mas não para a parcela 1% mais rica da população mundial.

Mas até quando ?


É PRECISO REGULAMENTAR O MERCADO FINANCEIRO

Muito boas as entrevistas de GAYATRI SPIVAK, “ A vitória não é grandiosa, mas é crucial”, e de MICHAEL SANDEL “Os limites morais dos mercados financeiros”, publicadas, ambas, no caderno “Prosa e Verso” de O GLOBO (  o nosso único jornal de grande circulação no Rio de Janeiro que parece, afinal, ter percebido a enorme responsabilidade cultural que tem, tão descuidada por ele nos últimos tempos ).

Ambos os entrevistados falam dos movimentos populares dos indignados da Europa e dos ocupadores de Wall Street nos EUA,   referindo-se à sensação de injustiça que tomou conta das pessoas diante da ganância dos líderes dos mercados financeiros globalizados.

Não acredito que essa sensação de injustiça vá dar em nada, se  limitar-se a exigir atitudes moralistas por parte dos agentes financeiros. É importante, isso sim, que esses protestos sensibilizem os legisladores para que haja uma disciplina jurídica do mercado financeiro.

O primeiro passo para aprimorar a precária regulamentação hoje vigente, seria aprovar a taxação das operações financeiras internacionais, através do que os Estados nacionais teriam acesso a informações essenciais sobre o funcionamento do mercado globalizado.

Não apenas os sociólogos e os filósofos, têm um papel importante a cumprir, refletindo sobre as conseqüências da globalização. É fundamental, nesse processo, a presença dos juristas, que me parecem, por enquanto, muito calados.


VOZ ISOLADA, MAS SENSATA

Escrevendo da Islândia o economista PAUL KRUGMAN, no artigo “O caminho esquecido”, publicado em O GLOBO, insiste no seu combate solitário contra a doutrina, atualmente ainda triunfante, de que os governos devem gastar menos, para permitir a superação das suas respectivas crises monetárias.  Segundo KRUGMAN,

..” austeridade expansiva é a idéia dominante tanto entre os republicanos no Congresso americano como no Banco Central Europeu, que cobrou dos governos da Europa que fizessem a consolidação fiscal.”

A minha impressão de leigo é que os financistas privados cobram austeridade dos poderes públicos para que sobre dinheiro suficiente para pagar os empréstimos e os juros que eles cobram.

A minha má vontade contra as receitas de “ajuste” fiscal talvez me leve a gostar dos argumentos de PAUL KRUGMAN favoráveis, em última análise, a que os governos gastem mais ou, pelo menos, não economizem além do necessário.

O exemplo da Islândia, por outro lado, pareceu-me bom. Ela

“…não evitou efeitos econômicos nocivos ou uma queda na qualidade de vida. Mas conseguiu limitar tanto a expansão do desemprego como o sofrimento dos mais vulneráveis.”

Será que o sofrimento imposto aos “indignados” da Europa, como diz o professor KRUGMAN, é desnecessário ?

Caso isso ocorra, como conseguir, politicamente, reverter essa situação ?

Parece-me que é essa a questão a ser, senão resolvida, pelo menos encaminhada, pela esquerda européia hoje em dia.