DITOS POPULARES
Duas notícias do caderno de economia do Estadão de hoje lembraram-me dois ditos populares aos quais, aliás, eu tenho recorrido muito ultimamente neste Blog. O primeiro deles, que meu pai empregava muito, é “enquanto o pau vai e vem folgam as costas”; o segundo não é, exatamente, um dito popular, mas uma frase de GLAUBER ROCHA que ficou famosa: “o sertão vai virar mar, o mar vai virar sertão”.
Comecemos pelo segundo. Informa o jornalista Fábio Alves que, segundo o economista HERON DO CARMO, a meta da inflação de 4,5%, que é para ser um teto, virou piso, isto é: o sertão virou mar.
Essas metáforas – teto, piso, torneirinha, etc … através das quais coisas concretas, do plano da realidade, transformam-se em conceitos do plano das normas, são muito arriscadas, pois quem as emprega perde, muitas vezes, as referências e pode, de um momento para o outro, usá-las de forma invertida. O mar, enfim, frequentemente se transforma em sertão.
O pior é a hipostasia que esse tipo de pensamento produz: aquilo que só existe no nível do conhecimento vira um bicho real, no qual a pessoa acredita fielmente, com toda a convicção. No caso da meta de inflação o economista HERON DO CARMO tem toda a razão. Depois de ficar tanto tempo tabelada em 4,5%, e de ser várias vezes ultrapassada, a meta de inflação tornou-se um piso: o governo fica felicíssimo se trouxer a meta para 4,5%, ou seja, para o piso – que era teto – de 4,5%. Isso sem contar que 4,5% é um percentual altíssimo para a inflação, de causar inveja a qualquer país desenvolvido, que está com a taxa de juros em zero ou perto disso.
O outro dito – esse bem popular – nos ensina como é bom manter as coisas como estão, mesmo que elas sejam ruins ( ainda mais se forem boas ) para que elas não piorem. Ou seja, para os analistas econômicos comprometidos com o status quo, diante do risco de o COPOM reduzir as taxas de juros, é melhor lutar para que elas se mantenham inalterada, e não subam, do que deixá-las baixar.
Pelo que entendi, o tal boletim FOCUS é uma publicação que não expressa, isentamente, a realidade, mas o que o mercado financeiro quer que aconteça. Daí não estranhar que ele preconize a manutenção da taxa SELIC , no patamar em que ela está, o que é preferível a reduzi-la, pela perda que isso representa para os investidores.
Como o prejuízo dos investidores significa um ganho enorme para o governo, que reduz a sua despesa com o pagamento de juros, cabe ao governo – aí incluído o Banco Central, que não é um órgão de Marte – baixar desde logo a taxa de juros, na próxima reunião do COPOM.
A redução da taxa de juros vai significar uma diminuição de despesa do Estado. Ela contribuirá para o enxugamento das despesas públicas, e não o contrário.
Os homens públicos devem ter coragem cívica. O presidente e os diretores do Banco Central estão, sem dúvida, pressionados pela Administração central, por um lado, e pelo mercado, de outro. Os dois concordam em que a taxa de juros não deve ser elevada. Mas o mercado quer que ela fique onde está, e a Administração central quer baixá-la. O momento não é de ficar em cima do muro: é de mostrar que podemos diminuir os juros – e eliminar a indexação residual, que com eles se confunde – e obter recursos para promover mais investimentos que vão acabar beneficiando, também, o setor privado.
