Na sua origem, em 1964, a correção monetária baseava-se, compulsória e automaticamente, num indexador denominado ORTN ( Obrigação Reajustável do Tesouro Nacional ) que nada mais era do que uma contrafação do dólar manual.
O que o governo militar pretendia, ao instituir a correção monetária, era que o dólar passasse a consistir numa medida de valor de certas obrigações monetárias de que eram titulares aqueles que faziam parte do tripé em que se fundamentou o golpe ( as empresas multinacionais, as empresas brasileiras e a burocracia tributária ). Criou-se, então, a chamada “moeda dos ricos” ( a ORTN ) enquanto que os meios de pagamento, a “moeda dos pobres”, continuaria a ser o Cruzeiro ( a então unidade monetária nacional ). Essa cisão da ordem monetária coincidiu com a cisão da ordem jurídica imposta pelo Ato Institucional, que criara uma ordem institucional – dita revolucionária – ao lado da ordem constitucional vigente.
Com o tempo tal cisão – que gerara uma esquizofrenia monetária – passou a ser combatida, motivando os sucessivos planos monetários, desde o plano Cruzado, de 1986, até o plano Real, de 1994, todos destinados a acabar com a indexação e a restaurar a unidade monetária no Brasil.
Passo importante para desatrelar a correção monetária do câmbio foi dado no Plano Collor II, que criou a Taxa Referencia l ( TR ) que não estava mais vinculada, necessariamente, à inflação passada – e, por tabela, à variação do dólar manual – mas a índices financeiros que poderiam, em tese, ser controlados pelo Banco Central.
O Plano Real, finalmente, acabou com a correção monetária mas deixou subsisitir, não só a TR como uma indexação residual, especialmente no sistema financeiro. Essa indexação residual já não se baseava no câmbio, mas na meta de inflação que o governo passou a estipular.
Hoje, 16 anos depois da desindexação da economia,promovida pelo Real e suas medidas complementares, temos uma meta anual de inflação de cerca de 4,5% e juros de cerca de 11% ao ano, e uma equiparação, para alguns, dos juros nominais aos juros reais, já que a inflação não é deduzida do montante dos juros nominais mas, ao contrário, adicionada a eles
Como temos os juros nominais e reais mais altos do mundo, os capitais especulativos estão migrando para o Brasil em quantidade assustadora, o que ajuda a valorizar, artificialmente, o Real.
Ou seja, o câmbio que dirigia a correção monetária brasileira está sendo, hoje, em parte, dirigido por ela.
Para romper esse impasse – e voltar a levar o câmbio a níveis razoáveis – é preciso, primeiro, acabar com a correção monetária residual.