O QUE É AUMENTO REAL ?

Os jornais anunciam que, segundo  a proposta de Orçamento do governo, o salário mínimo, no próximo ano, não deverá ter aumento real, cumprindo-nos tentar entender o significado desse conceito.

Para mim a expressão aumento real é uma metáfora. Senão, vejamos:

O salário mínimo atual é de R$ 510,00 ( quinhentos e dez reais ) e o projeto de Orçamento encaminhado ao Congresso pelo governo prevê que essa quantia passará a ser ela, em 2011, de R$ 538,15 ( quinhentos e trinta e oito reais e quinze centavos ).

Ora, se algo era 510 e passou a ser 538,15 é porque houve um aumento de 28,15, que corresponde a diferença entre as duas parcelas anteriores. Não só houve um aumento, como esse aumento foi “real”, na medida em que as pessoas que receberem 28,15 receberão, efetivamente, algo a mais.

Há, portanto, uma contradição entre dizer-se, ao mesmo tempo, que houve aumento e que não houve aumento.

O problema é que quase todos consideram – pelo menos aqui no Brasil – que se o aumento serviu, apenas, para “repor” a inflação do período, não houve aumento. Ora, se não houve, nesse caso,  aumento ( do salário ) não houve, também, aumento da inflação; ou houve, tão somente, aumento da inflação, e não houve aumento do salário. Ou terá havido, ao mesmo tempo, aumento da inflação e aumento do salário ?

Para sairmos dessa confusão é preciso compreendermos que tanto o aumento da inflação como o aumento do salário foram …nominais, e não reais ou, indo um pouco mais longe em nosso raciocínio,  que não há aumento real, porque os valores, numa ordem monetária, são todos nominais.

Os valores, numa ordem monetária, são, com efeito, nominais, e não reais. Real, digamos assim ( ressalvada a tautologia ), é a realidade: os valores não são reais sendo uma norma através da qual “julgamos” as condutas humanas reais.

O risco de consideramos que não há aumentos quando aumentamos as quantias relativas às obrigações em geral, inclusive os salários é passarmos a considerar que a moeda nacional não é a nossa unidade monetária,  mas, sim,  a inflação ou os índices ( ou indexadores ) que registram o aumento da inflação num determinado período.

Ou, enfim que a verdadeira moeda é … o poder aquisitivo da moeda, como acreditam os defensores da doutrina da correção monetária.

É esse o perigo de lidar com as metáforas – como fazem muitos, economistas e juristas  – como se elas pudessem expressar conceitos científicos.


2 comentárioss até agora

  1. Flavio setembro 1, 2010 8:02 pm

    Eu simplificaria dizendo que aumentos são nominais, logo, se o valor é maior, ocorreu aumento e ponto.

    E que as pessoas deveriam dizer que o aumento não será superior ao índice de inflação medido, mas que isto nada tem de real. A tentativa de ter uma outra moeda associada a inflação já nos levou a hiper inflação e que deveria ser abolido do vocabulário jornalístico.

    O ponto principal é que a inflação moderada é a forma mais adequada de reequilibrar a economia periodicamente.

    E apenas para completar o raciocinio, se ocorrer deflação por um índice isto ia significar que teve aumento real de salário no caso de se manter o mesmo salário ? Provavelmente ninguém ia achar que houve aumento “real”, logo facilitaria a vida de todos parar de querer ter uma segunda moeda “ficticia”.

    De qq forma, o conceito é dificil de vender. As pessoas gostariam que a vida delas fossem indexadas e a dos outros não. O que eles acham real é eu ter vantagem enquanto os outros não tem. O ponto fundamental é que nossa experiência já mostrou que isto não funciona, logo que deveríamos não insistir no erro.

  2. letacio setembro 1, 2010 8:13 pm

    Concordo integralmente. Obrigado por ter ajudado a esclarecer melhor o meu texto.

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