Quando a atual Procuradoria Geral do Estado do Rio de Janeiro ainda representava os interesses municipais, nos tempos do antigo Distrito Federal e, depois, do Estado da Guanabara, uma das suas funções, por meio da uma de suas procuradorias especializadas,consistia em propor ações cominatórias para compelir os construtores de obras irregulares a demoli-las, o que era objeto de galhofa por parte de alguns procuradores, que chamavam essa sua competência de “derrubada de galinheiros”.
Mais tarde, depois de atuar, sem sucesso, na tentativa de regularizar, através de ações judiciais, obras em loteamentos municipais, a Procuradoria criou o Núcleo de Regularização de Loteamentos, cuja metodologia, idealizada pelo Procurador MIGUEL BALDEZ, sobrevive,até hoje, simultaneamente, em pelo menos três órgãos: no Núcleo congênere da Procuradoria do Município do Rio de Janeiro, no Núcleo de Terras da Defensoria Pública do Estado e na Sub Procuradoria de Direitos Humanos do Ministério Público do Estado.
Uma outra competência da Procuradoria era defender o Estado nos casos de alegada omissão da guarda nos presídios, quando morriam presos vítimas de queimaduras decorrentes de incêndios criminosos, o que os mesmos galhofeiros denominavam “churrasquinhos de presos”.
Esses fatos estão sendo rememorados para chamar a atenção de como mesmo alguns membros de um órgão tão sério, como a Procuradoria Geral do Estado, têm os seus preconceitos, reflexo, provavelmente,da ideologia da classe média da sociedade, onde eles são recrutados: as edificações irregulares, quase sempre de pessoas pobres, eram consideradas ”galinheiros” e as perdas de vida dos presos em incêndios eram apelidadas de “churrasquinhos de presos”.
Assim como a Procuradoria do Estado soube criar, numa época, o Núcleo de Regularização de Loteamentos, deveria pensar em instituir, agora, um Núcleo de Defesa dos Direitos Humanos, que contribuiria não só para divulgar, cada vez mais, internamente, uma visão humanizada de certos problemas que constituem o dia a dia dos procuradores, como poderia resultar numa parceria, com o Ministério Público e a Defensoria Pública, em área socialmente tão relevante no Rio de Janeiro, como é a política de Direitos Humanos.