O colunista CELSO MING, no artigo “Reforma Global”, publicado no Estadão, ao examinar a proposta de reforma do sistema monetário, que, segundo o presidente SARKOZY, deverá ser discutida pelo G-20, nas próximas reuniões ( a partir de 2011 quando a França assume a presidência do Grupo ) refere-se ao que ele denomina um obstáculo de “natureza técnica” para a concretização de tal reforma, afirmando:
“ Não há, no mundo, nenhuma moeda capaz de substituir o dólar na função de reserva internacional de valor. O euro, que parecia mais próximo de atingir essa condição, está estruturalmente frágil, uma vez que é emitido por uma instituição que não conta com o respaldo de unidade fiscal e política.”
Já que não é possível substituir o dólar na função de reserva internacional de valor porque não superar a própria noção de …. reserva de valor.
Desde os tempos em que começou a viger a doutrina do valor intrínseco divulgou a convicção de que a peça monetária “teria” valor. Essa noção fazia algum sentido ( ainda que mágico ) quando as peças monetárias eram fabricadas sobre suportes de metal, e havia a idéia tradicional de que os metais preciosos ( como o ouro e a prata ) tinham valor em si.
Os metais preciosos, todavia, tornaram-se, hoje, “relíquias bárbaras”, como os designou KEYNES, há alguns anos. Depois que as peças monetárias passaram a ser emitidas em suportes de papel – desde que o papel moeda passou a constituir todo o meio circulante atual no mundo inteiro– não há mais ninguém que consiga defender a tese de que uma cédula de papel tenha valor em si.
O conceito de poder aquisitivo surgiu, especialmente através da pena de ADAM SMITH, para dar aos ricos uma segurança similar a que eles tinham quando possuíam tesouros de prata e de ouro.
A idéia de poder aquisitivo – como “conteúdo de valor” da moeda – porém, é tão equivocada quanto a de valor intrínseco. A moeda não tem outro poder senão o liberatório, que é o de liberar as pessoas de suas obrigações Poder aquisitivo não passa de uma noção auxiliar que repousa sobre a técnica estatística dos números-índice, sendo, do ponto de vista jurídico, um meio de prova, não se devendo atribuir-lhe significado mais amplo.
Na verdade, como o valor pertence ao plano normativo, é um erro referirmo-nos ao valor como ele se encontrasse na realidade. As peças monetárias, quaisquer que elas sejam, de ouro, de prata, de cobre, ou de papel, não têm valor. A moeda, enfim, não tem valor: ela é valor.
Se a moeda não tem valor é um outro erro – talvez maior – dizermos que ela tem a função de reserva de valor.
É a velha história, de que falava RABELAIS em relação à metafísica, que ele considerava semelhante à situação de um professor cego, ensinando a uma turma de alunos cegos, a procurar num quarto escuro um gato … que não existe.
O que está acontecendo nos dias atuais – do que MING, aliás, dá notícia – é uma rápidas globalização que está em vias de superar o conceito de moeda nacional, para criar – pela primeira vez na História – uma moeda internacional, que não seja reserva de valor.
Nessas condições, o problema de que moeda vai substituir o dólar como reserva de valor é uma falsa questão: e a resposta a essa indagação é nenhuma, não porque não haja outra unidade monetária nacional tão valiosa como o dólar, mas porque moeda alguma tem valor.
É preciso parar de procurar esse gato preto num quarto escuro, porque ele não existe.
Isso não quer dizer que não precise haver uma reforma urgente do sistema monetário internacional, nem que seja fácil fazer essa reforma, mesmo porque, como acentua CELSO MING, os Estados Unidos, que se beneficiaram durante anos com a possibilidade de emitir dólares, como se estivessem emitindo uma moeda internacional como “reserva de valor”, vão lutar o quanto puderem contra a criação de um Banco Central Internacional, ao qual eles não vão querer ficar submetidos ( logo ele, que não gostam de respeitar nem o FED ! )
De qualquer forma, partindo da constatação de que a moeda é um valor, estaremos em condições de dar partida a uma revolução monetária internacional.