ESTADO,SOCIEDADE E PESSOAS BELICISTAS

Na parte final de sua longa entrevista ao Estadão o presidente da Síria, BASHAR ASSAD, atribui à sociedade israelense – de modo, a meu ver, preconceituoso – a responsabilidade pela condenável política externa israelense, ao dizer:

“ Não dá para avaliar o governo sem avaliar a sociedade israelense. Esta mudança na direção da direita e do extremismo começou algumas décadas atrás. RABIN pagou com a vida o preço de ter ido em direção da paz. Portanto, o extremismo está presente na sociedade… Para nós, na Síria, não há grande diferença entre esses ( vários ) governos.”

A dicotomia Estado e Sociedade, muito divulgada, está sendo empregada por ASSAD , nesse ponto, sectariamente, diferentemente, por sinal, do restante da entrevista, que me pareceu, nas suas linhas gerais, comedida.

Falar mal da sociedade israelense é uma forma disfarçada de falar mal do povo judeu que não é o responsável pelo extremismo do Estado de Israel, como o povo alemão não foi o responsável pelo extremismo nazista de Hitler.

Parece claro que a sociedade israelense apóia o governo atual de seu país, mas ela, ainda assim,  não pode ser culpada da beligerância desse governo; o que quer dizer, em outras palavras, que não é culpando a sociedade israelense – nem o povo judeu – que se vai conter as atitudes belicistas daquele Estado.

A posição do Estado de Israel no tabuleiro estratégico do Oriente Médio decorre do papel que as potências ocidentais lhe incumbiram, que deu lugar à militarização compulsória do povo israelense que dificulta, hoje em dia, qualquer negociação.

A adversária da paz no Oriente Médio é a política bélica imposta, durante anos, a Israel, que moldou a mentalidade da sua população, que será, também, vítima da guerra que vários grupos beligerantes pretendem, se puderem, desencadear   na região.


AINDA SOBRE A POLÍTICA E A GUERRA

Na sua entrevista de hoje ao jornalista Gustavo Chiara, do Estadão, o presidente da Siria, BASHAR ASSAD, observa que o Estado de Israel trabalha contra a paz no Oriente Médio, e que se move “na direção da guerra, e não da paz.”

Quanto ao percentual de risco que a guerra, efetivamente, aconteça, na região, diz ASSAD:

“Como governo não podemos dizer que a possibilidade seja de 60% ou 10%, mesmo que seja 1% este 1% significa guerra, e pode se transformar em 100%.”

O Estado de Israel vai conseguir com o guerra o mesmo que conseguiria com as conversações políticas.

A guerra, portanto, não é uma opção natural, e causa tantas sequelas que deve ser evitada: o que se consegue com a guerra é o mesmo que se obtém com as conversações.

É preciso, portanto, agir politicamente, psicológica e economicamente para evitar a guerra no Oriente Médio – na exata direção do que o Brasil vem fazendo.

Diferentemente do que dizem alguns analistas “ocidentalizados” o papel da diplomacia brasileira não só é o correto, como pode ser fundamental para a paz na região.


POTÊNCIA MILITAR CONDUZINDO A POLÍTICA

Ao ler, nos jornais, a notícia de que os EUA e o Estado de Israel estão intensificando sua movimentação estratégica na região do Golfo Pérsico ficam mais claras as razões da diplomacia norte-americana diante das tentativas recentes ( bem sucedidas, aliás ) de o Brasil e a Turquia intermediarem negociações de paz entre o ocidente e o Irã.

O Estado de Israel instalou uma base em Tabuk, cidade ao noroeste da Arábia Saudita, ao mesmo tempo em o governo saudita autorizou Israel a usar o seu espaço aéreo para um eventual ataque ao Irã. Enquanto isso, no início do mês, 11 fragatas e 1 porta aviões de propulsão nuclear dos EUA, além de uma embarcação do Estado de Israel, cruzaram o Mediterrâneo para o Mar Vermelho, com o objetivo de obter informações sobre o programa nuclear iraniano.

Por outro lado, os sistemas de satélites de Israel tem condições, atualmente, de acompanhar tudo o que se passa no Oriente Médio. Além disso, sua indústria aeronáutica já lançou modelos de aeronaves não tripuladas com autonomia de vôo capazes de alcançar o território iraniano. E os aviões sem piloto são capazes de bombardear, de for o caso, instalações do Irã.

Com tanto poderio o Estado de Israel, apoiado pelos EUA,  não se acha subordinado a entendimentos  políticos para saber o que deve ou não fazer.

Ou, em outras palavras, tanto o Estado de Israel quanto os Estados Unidos empregam a sua potência militar para tentar impor a sua vontade política ao Irã, e não ficaram nada satisfeitos com a “intromissão” de Estados com poder militar infinitamente menor – e declaradamente pacifistas, como o Brasil – querendo valorizar o “poder político” nas negociações sobre a natureza, pacífica ou não, do programa nuclear iraniano.

As alternativas dos Estados Unidos e do Estado de Israel consistem em impor as suas deliberações através da guerra, ou da ameaça de guerra, subordinando a política à força militar. Quanto ao Brasil o seu poder não é esse – e sim político, econômico e moral.

Diante do fracasso  da guerra do Iraque, e da situação indefinida da OTAN no Afeganistão – e tendo em vista que à China e a Rússia, que também são potências militares, interessa ampliar os seus negócios com o Irã – espero que a estratégia pacífica brasileira acabe ganhando espaço.


O PONTO FRACO DO GOVERNO LULA

O governo LULA, ao manter, estritamente, inspirado em PALOCCI, a política financeira dos tempos de PEDRO MALAN,  não soube inovar e vai legar à sua sucessora metas de inflação e taxas de juros altíssimas, além de uma situação de câmbio muito desfavorável.

Bem que o candidato JOSÉ SERRA, através de uma entrevista de SÉRGIO GUERRA  à revista VEJA  quis dizer algo parecido: mas a reação da classe dominante – se me permitem o jargão – foi tão forte que ele se sentiu obrigado a recuar.

O problema, com efeito, é que LULA, nesse ponto, representa a ideologia dos poderosos e SERRA não tem como aparecer como o candidato das esquerdas – mesmo porque ele não o é, de fato.

Nem as esquerdas, a rigor, contestam a política financeira do governo LULA.

O Conselho Monetário Nacional estabeleceu, recentemente, uma meta de inflação de 4,5% até 2012, e o Banco Central elevou os juros acima dos dois dígitos, e ameaça subir mais.

Essa meta de inflação é uma das mais altas do mundo. Por outro lado, política monetária não se faz apenas através dos juros, especialmente  no Brasil,que ainda tem distorções graves, que não foram consertadas pelo Plano Real.

O candidato SERRA também tem razão em dizer que as áreas monetária e fiscal do governo – o Banco Central e o Ministério da Fazenda, aqui no Brasil – precisam conversar, o que foi interpretado como uma declaração dele contrária à independência do Banco Central.

É difícil para um candidato da oposição política fazer oposição econômica: as pessoas que têm dinheiro apóiam o governo LULA, embora não gostem do PT.

Quem vai pagar caro por tudo isso é a candidata DILMA ROUSSEF, se for eleita, como tudo indica, para ser a próxima presidenta da República.


IMPOSTO SOBRE OS BANCOS

A boa notícia, que vem da Europa, é a taxação do sistema financeiro que será instituída, em moldes comuns, pela Alemanha, pela França e pelo Reino Unido.

Os bancos têm no dinheiro,digamos assim, a sua matéria prima.

A moeda é emitida pelos Estados nacionais, sendo um bem público; mas o crédito, manipulado pelos bancos privados,  assumiu dimensões tão grandes que a moeda “privatizou-se”, com danosos resultados

O imposto sobre os bancos – que o Brasil, no início, não vai querer aceitar, mas acabará tendo que adotar  - é um passo importante para a “republicização”  do dinheiro.