A EUROPA POSSÍVEL
No artigo “O fim da Europa”, hoje publicado no Estadão, GILLES LAPOUGE refere-se a uma Europa que está na cabeça dele e não ao Estado nacional que vem surgindo no espaço europeu depois do final da Segunda Guerra Mundial.
Uma coisa é o que o articulista imagina ser, fantasiosamente, a Europa; outra a ordem jurídica que está sendo construída, com dificuldade, mas consistentemente, num local tão rico de história e de tradições.
A moeda comum, da qual GILLES LAPOUGE tanto desconfia, saiu-se bem do teste a que foi submetida. O fato de o Banco Central Europeu ter ido tão longe, quanto foi, em defesa da moeda única, não foi um erro ( como parece a CELSO MING ) mas um acerto: uma lição a ser seguida.
Não é fácil edificar um novo Estado sobre nações estruturadas há séculos com tantas culturas diferentes como é o caso da Europa. A verdade, porém, é que os europeus já deram passos a favor de sua unidade que são, a meu ver, irreversíveis. Depois da união européia, com características predominantemente comerciais, eles conseguiram criar uma moeda única, fizeram um parlamento, votaram uma constituição, e estão se transformando, aos poucos, mas firmemente, numa organização, que enfrenta seus desafios, mas sabe superá-los.
O que GILLES LAPOUGE não disse, no seu artigo – e talvez não tenha sequer vislumbrado – é que a Europa de seus sonhos é aquela mesma que se enfiou, no século XX, em duas guerras desastrosas, que custa a pensar que ocorreram.
A única forma de a Europa não voltar ao desastre de que foi palco no século passado é tornar-se um Estado nacional – confederado, federado ou unitário.
É provável que os sindicatos europeus se renovem, diante dos cortes que estão sendo impostos aos trabalhadores, e as populações voltem às ruas para protestar, o que pode assustar certas almas mais sensíveis, mas será uma demonstração de vitalidade democrática.
