O HÁBITO DOS ALTOS ACESSÓRIOS

Ninguém reclamou muito da alta dos juros, não só porque os espíritos foram preparados com antecipação, especialmente através de pronunciamentos do presidente do Banco Central, HENRIQUE MEIRELLES, como porque todos nós estamos habituados a conviver com altíssimos acessórios.

Estou denominando acessórios, de uma maneira geral, os juros e a correção monetária, que incidem, de uma forma ou de outra, sobre o principal da dívida.

Como temos uma larga vivência de inflação – e, mesmo, de hiperinflação – não nos causam estranheza os altos percentuais de juros e de correção monetária, contra os quais estamos vacinados. Lembro-me de que o então ministro MAILSON DA NÓBREGA, numa época em que, depois de fracassados dois ou três planos econômicos,  nos aproximávamos da superinflação do final do governo SARNEY, teve o desplante de declarar que o que lhe cabia, no momento, era por em prática uma política monetária de “arroz com feijão”.

O Plano Real, por sua vez, além de preservar o passado, e de não impor perdas aos rentiers, ficou no meio – ou em 2/3, vá lá – do caminho, pois manteve a correção monetária residual no sistema financeiro, nos contratos de prazo superior a um ano ( o que depois foi excepcionado em favor do mercado imobiliário ) e no caso das dívidas judiciais.

Os brasileiros poderosos, e os que pagam os juros e as correções monetárias, estamos todos acostumados com altos acessórios: o que não quer dizer que não vá chegar o momento em que as distorções provocadas por essa situação anômala passem, de fato, a incomodar e alguma providência venha a ser tomada, não se sabe, porém, quando…


NA LEI OU NA “MARRA”

Esse slogan do meu tempo de juventude bem que podia ser adaptado para ajudar a Igreja Católica a sair da encurralada em que se meteu com essa história de pedofilia  associada à imposição do celibato do clero.

O celibato do clero é uma tolice.

Mesmo que ele não tenha sido o único motivo dos casos de pedofilia na Igreja– e mesmo que, no futuro, com um outro Papa, a instituição trate melhor desse assunto – o só fato de ter se generalizado a opinião de que a pedofilia e o celibato tem alguma relação já é razão suficiente para que se acabe, imediatamente, com a proibição de sexo para os sacerdotes.

Por mais difícil que isso seja os padres de todas as idades deveriam dar início a um processo de desobediência individual e coletiva,  eliminando o celibato de seus projetos de vida pessoais.


O FIM DA GUERRA ÀS DROGAS

Os dois oficiais mais graduados, em relação ao cone sul,  da Drug Enforcemente Administration ( DEA ) ALEX TORTH e PATRICK STENKAMP, que estão no Rio para participar da IDEC ( a maior conferência internacional anti drogas ) afirmaram ao Estadão que “ a tese da guerra às drogas, que pautou a política americana durante anos, foi superada.”

Trata-se de uma boa notícia: a famigerada “war on drugs”, que começou em 1971 no governo NIXON –  segundo a qual, em última análise, pretendia-se salvar do vício a “angelical” população americana entrando numa verdadeira “guerra” contra os países responsáveis pela produção ou intermediação dos tóxicos – oficialmente acabou.

Segundo os referidos membros da DEA ( cuja formação profissional não foi esclarecida na reportagem do jornal, mas me pareceram falar como militares, ou policiais ) a responsabilidade pela política anti drogas deve ser tanto dos países produtores, como dos países consumidores, e o problema deve ser atacado em três frentes: operações policiais, investimentos em educação e tratamento dos dependentes.

Quanto à legalização das drogas – que eles, de certo modo, eles identificam com a liberação – os dois são radicalmente contra. Dizem que os que tentaram esse caminho se deram mal e tiveram gastos astronômicos com o sistema de saúde.

Ora, argumento econômico por argumento econômico eu continuo a preferir o do professor GARY BECKER, que tem trabalhos importantes demonstrando que se o lucro do tráfico de drogas não for tão grande isso afastará dessa atividade muitos jovens e tornará o setor menos violento, e uma das formas de baixar os ganhos do narcotráfico seria, precisamente, legalizá-lo.

Parece-me, contudo, que, por ora, não é possível um grande avanço, no sentido da regulamentação.

De qualquer modo o reconhecimento explícito, pela DEA, de que a guerra às drogas foi superada, já é uma bela notícia.


O EURO E A UNIÃO POLÍTICA DA EUROPA

A crise financeira da Grécia e o rebaixamento do grau de investimento de Portugal e da Espanha não significam que a instituição do Euro tenha sido um equívoco, ao contrário do que insinuam alguns comentaristas.

A Europa, há alguns anos, vinha procurando se unir, para superar séculos de desentendimentos, de nacionalismos e de guerras locais até que conseguiu, afinal, emitir uma moeda comum que foi emitida  e começou a circular em 1º de janeiro de 2002.

A emissão de uma moeda regional supranacional, por um Banco Central Europeu, não teve relevância apenas comercial, como parece a muitos, mas importância política, porque a moeda, como as leis, é um fator de disciplina das condutas das pessoas na sociedade, responsável pela organização de  um “Estado” monetário.

Até a emissão do Euro – porque a moeda só começa a ter existência quando é emitida por uma autoridade central – não tinha havido, na História, outra moeda internacional, com características formais definidas. O fato de moedas de certos países, como, por exemplo, a libra, o dólar, servirem de meios de pagamento em negócios entre nações não quer dizer que essas unidades monetárias tenham validade de moeda internacional.

É verdade que a Inglaterra, uma nação histórica, cultural e geograficamente européia, não ingressou, ainda, na zona do Euro, o que é lamentável. Isso, porém,  não retira da moeda única a sua importância política. Basta lembrar que dois países que travaram guerras tão sangrentas entre si – como a Alemanha e a França – possuem, hoje, o mesmo dinheiro, o que torna muito mais difícil, para seu povos, voltarem a odiar-se, como se odiaram, antes, em tantas ocasiões.

A despeito do Euro as nações da Europa precisam dar outros passos institucionais  para tornar-se uma organização política tradicional –  como um Estado confederado, federado, ou sob outra forma –  não merecendo ouvidos aqueles que se dizem contra a moeda única mas são, no fundo, a favor de uma regressão.