A QUEM INTERESSA A INFLAÇÃO NO BRASIL ?
A resposta direta a essa indagação é fácil: aos especuladores em geral, na medida em que a inflação, através da correção monetária, transforma-se numa taxa ( de indexação ) que se transmuda em juros, mantendo estes elevados, a despeito de tudo que o Banco Central faz em sentido contrário, e desvaloriza o dólar, por causa do afluxo da moeda estrangeira em busca de rendimentos sem risco.
Vale a pena decompor o período acima:
a ) – a inflação brasileira interessa ao especulador;
b ) - as taxas de indexação ( os chamados indexadores ) são intercambiáveis com as taxas de juros,
c) – é por isso que as taxas de juros, por mais que o Banco Central as reduza, enquanto mantidos os indexadores, continuarão sempre altíssimas no Brasil;
d) – é por isso, também ( embora não seja essa a única causa ) que o Real está sendo valorizado diariamente, diante do dólar, pois os investidores transferem seus créditos para o Brasil, valendo-se da diferença entre os juros internacionais e os nossos para embolsar lucros.
Surge, então, a outra pergunta: porque não se acaba com isso ?
Ou melhor, quem não permite que seja extinta a indexação residual que sobreviveu ao décimo quinto aniversário do Plano Real ? Que órgãos defendem os interesses dos investidores ?Serão os bancos?
Essas reflexões me ocorreram ao ler hoje, no Estadão, a reportagem de MÁRCIA DE CHIARA, sob o título “ Na contramão do mundo, inflação resiste no Brasil – presença forte de indexadores nos cálculos de reajustes no País mantém índices de preços em alta”, que, dentre outros tópicos, transcreve a seguinte opinião do professor HERON DO CARMO, da USP sobre o tema:
“ A inflação ao consumidor para este ano poderia ser quase um ponto porcentual menor se não fosse o peso da indexação”.
Segundo o professor HERON, sem a indexação – isto é, diz ele, sem o mecanismo de reajuste que atrela os preços à variação de outros preços numa espécie de efeito dominó - o IPC-FIPE (que ele ajudou a apurar durante cerca de duas décadas ) projetado em 4,2% para 2009, poderia cair para algo em torno de 3,5%.
Só os preços administrados, como a energia elétrica, água e outros serviços de utilidade pública, que têm alguma indexação, pesam cerca de 20% nos IPCs. Além dos preços administrados a indexação que existe nos salários, especialmente no caso de aposentados e pensionistas da Previdência Social, “criam demanda e, com isso, uma certa resistência à redução no nível de preços.”
Por sua vez, o Coordenador do Índice de Preços ao Consumidor Semanal da FGV, PAULO PICCHETI, concorda com essa tese, apontando, também, a indexação como fator de resistência da inflação no Brasil, apesar da pequena desaceleração apurada nos últimos meses pelos índices de preços ao consumidor, afirmando que o grande peso na blindagem contra deflação, em nosso País, tem sido a correção monetária, baseada nos IGPs do passado.
Esse filme, como se diz vulgarmente, nós já vimos no passado, antes do Plano Real, e ele está sendo exibido de novo.
A minha torcida é de que o presidente LULA, para fazer frente à SERRA – que diz querer baixar os juros – seja obrigado, até o ano que vem, a acabar com a indexação residual, para facilitar a vida do candidato ( ou candidata ) que lançar à presidência.
Razões para fazer isso ele tem de sobra.
