A RESPONSABILIDADE DA IMPRENSA

Começou ontem, no Rio de Janeiro, o primeiro Seminário Internacional de Mídia sobre a Paz no Oriente Médio - “Promovendo o diálogo palestino-israelense, um ponto de vista sul-americano” – evento da ONU com a colaboração do governo brasileiro, no âmbito do qual o jornalista do GLOBO, RICARDO GALENO, obteve alguns relevantes depoimentos de jornalistas sobre o papel da Imprensa do Estado de Israel por ocasião do recente ataque à Gaza.

O jornalista árabe, MOHAMMED ABDALLAH, colunista do jornal al-Quids, de Jerusalém, ponderou, que a Imprensa de Israel precisaria mudar a mentalidade da população, especialmente “quando há um governo de direita no poder”, afirmando o seguinte sobre a invasão de Gaza:

-“ Não foi uma guerra, foi assassinato em massa.”

Por outro lado, GIDO LEVY, um dos mais respeitados colunistas da imprensa em Israel, na entrevista “ A mídia teve papel vergonhoso”, declarou:

- “A cobertura da imprensa israelense como um todo foi manipuladora, diria até criminosa…A mída de Israel vinha incitando, há algum tempo, antes de começar. E, quando começou, pressionou para continuar. A mídia israelense que é excelente, livre, teve um papel vergonhoso”.

Sobre a responsabilidade da mídia na formação da opinião pública disse LEVY:

- “ É a questão do ovo e da galinha. Parte da opinião pública foi influenciada pela mídia por meses. Mas creio que a mídia tem critérios profissionais e não está aí para agradar os leitores. Jornalismo não é entretenimento, é falar a verdade. E a mídia israelense não fez isso.”

A situação no Estado de Israel, onde a preocupação com a segurança “ é uma religião”, é mais grave, evidentemente, do que em outros países: mas vimos, há tempos,  a mídia norte americana fazer um papel igualmente vergonhoso quando,  montada nos carros de combate, apoiou a ilegal a invasão do Iraque; a imprensa de Honduras, entorpecendo, agora,  a opinião pública para dar a impressão de que o golpe de Estado trouxe de volta a normalidade ao país, e a imprensa brasileira que está transformando órgãos de informação  tradicionais em verdadeiros  pasquins.

Parece-me grave o fato de que a imprensa está sofrendo esse processo de transformação – para pior – numa época em que ela própria vive uma crise sem precedentes, diante de uma tecnologia revolucionária que ameaça mudá-la completamente.

Os donos de jornais e os jornalistas estão, provavelmente, receosos de perder o poder imenso que tiveram no século XX, quando eram, inclusive, eleitos com certa facilidade para os cargos políticos, e deveriam ter mais humildade, sob pena de serem superados pelos acontecimentos que lhes cabe relatar com isenção, o que eles não estão fazendo.


O GOLPE DE ESTADO NEGOCIADO

A opinião pública está presenciando, no caso de Honduras, um fenômeno novo no Direito Político: o golpe de Estado negociado pela diplomacia internacional.

Diversamente do que acontecia outrora, quando uma das esperanças dos estudiosos era aplicar à organização internacional o modelo dos Estados nacionais – o que fracassava sempre, pela impossibilidade de centralização e monopólio da violência “legal” – o que ocorre, agora, são os diplomatas estrangeiros tentando resolver o impasse nacional criado pelo golpista ROBERTO MICHELETTI ao derrubar militarmente, com a ajuda do Poder Judiciário, o presidente eleito MANUEL ZELAYA.

Segundo os jornais, tanto o presidente LULA como a secretaria de Estado HILARY CLINTON estão tentando superar os obstáculos que impedem o retorno de ZELAYA a Honduras, o que não prescinde de uma grande pressão popular a favor deste último, que está, contudo, cada vez mais difícil de ser organizada, mesmo porque a Mídia está ao lado do golpe, e passa para a população, todo o dia, uma impressão de normalidade institucional que não existe, fazendo, ao mesmo tempo, campanha contra o “chavismo” do presidente deposto.

O problema nesses casos para nós, latino-americanos – escaldados com os golpes de Estado que presenciamos durante tanto tempo em nossos paises – é a deposição dos chefes de governo se tornar “moda” ( como observou com propriedade, no momento exato, o presidente LULA ).

Se bobearmos, por exemplo, aqui no Brasil, os leitores que escrevem cartas iradas para o GLOBO são capazes de sair em marcha e, unidos aos membros do “Basta”, do “Cansei” – e de movimentos similiares patrocinados pela OAB de São Paulo – para pedir aos Tribunais superiores que destituam um presidente eleito que não tenha a popularidade do nosso atual.

O apoio popular ao presidente eleito é importante, mas não constitui um requisito jurídico de permanência dele no Poder, razão suficiente para sermos contra os golpes de Estado, tanto de Honduras, como de qualquer País emergente.

Se o que queremos – como queremos – é a democracia, o nosso adversário é o autoritarismo, que ainda permanece tão vivo em países importantes tão diferentes, como a Arábia Saudita e a China mas que é desejado por uma parcela do público, e instigado por setores da imprensa.

A questão hondurenha é a manifestação de um fenômeno político novo, produto da globalização,  que merece um estudo sério e demorado.


UM EDITORIAL DEBOCHADO

Sob o título “A festiva crise do MERCOSUL” o jornal O Estado de S. Paulo de hoje faz uma análise cínica da reunião de cúpula da entidade, realizada na última sexta-feira em Assunção, como se tivessem sido discutidas, apenas, frivolidades, e não os verdadeiros problemas da região.

Segundo o editorialista o presidente LULA teria esboçado um “roteiro de salvação” que incluiria a) – a adoção do SML ( Sistema de Comércio em Moeda Local ) e  b)  – a instalação do Banco do Sul, que serviriam – equivocadamente, no entender do jornal – para liberar cada vez mais o MERCOSUL do emprego do dólar em suas transações.

Embora admitindo que a aplicação dessas duas providências possam ter  alguma “utilidade” (simplicando e barateando as trocas e facilitando os negócios) o editorial considera tudo, no fundo, um entusiasmo sem fundamento, que não vai fazer com que as empresas deixem de usar a moeda de reserva que mais lhes convém, que seria o dólar.

Como pano de fundo, o MERCOSUL é apresentado, ao mesmo tempo, ao leitor, com se estivesse sido posto – especialmente pelo atual governo brasileiro – às portas da decadência e permanecesse paralisado, sem conseguir equacionar, sequer, os seus principais problemas, tais como a extinção da cobrança dupla da Tarifa Externa Comum, ainda não resolvida, e as medidas protecionistas da Argentina, que tanto incomodam a nossa Confederação Nacional da Indústria.

Não aceita o Estadão, que o progresso do MERCOSUL – que sempre foi, desde a sua origem, deliberadamente, uma organização anêmica, pouco mais do que uma simples retórica – esteja, exatamente, no desenvolvimento de um programa monetário comum.

Na verdade, mais do que o coroamento de um processo econômico a moeda comum é um fator político de aglutinação internacional tão ou mais importante que os pactos e tratados tradicionais, como ficou demonstrado após a instituição do EURO.

Assim como, para os europeus, foi mais fácil emitir uma moeda única, do que votar a nova Constituição européia, a moeda regional do MERCOSUL – o Sur, como eu proponho que ela venha a se chamar – e o Banco Central do Cone Sul tendem a se tornar instrumentos de ação institucional da América do Sul, mais eficientes do que organismos convencionais.

A moeda é uma norma jurídica de nível fundamental, de caráter substantivo, que não prescinde, porém, de aplicação num processo, e de órgãos financeiros que a administrem, o que evidencia a utilidade do SML, defendido pelo presidente LULA, e do BANCO DO SUL, proposto pelo presidente CHÁVEZ, ambos mais avançados, a meu ver, do que o editorialista do Estado de S. Paulo, em matéria de conhecimento de questões monetárias.


ANIVERSÁRIO DE TRÊS ANOS DO BLOG

Quando o OTÁVIO FONSECA – há três anos atrás, no dia 31 de julho de 2006 – instalou, para mim, o www.letacio.com , eu não tinha a menor idéia da curtição que seria tornar-me um blogueiro, aos setenta anos de idade.

Graças à tecnologia pude transformar-me, como num passe de mágica,no dono do jornal, no chefe do conselho editorial e no secretário da redação ao mesmo tempo, emitindo, publicamente, as minhas opiniões, sem precisar pedir permissão a ninguém, escrevendo o que me parecesse certo, da maneira que eu considerasse adequada, respeitando a lei e a inteligência e os sentimentos dos meus eventuais leitores.

A proposta inicial do Blog permanece a mesma, tal como figura na página inicial, embora tenha acrescentado, recentemente, os “Palpites políticos”, que não são ensaios, comentários, nem análises, mas meros instrumentos para servir de descarga dos meus humores e de veículo dos meus eventuais cacoetes ideológicos.

Agradeço aos meus leitores, aos fiéis e aos infiéis.

Espero que eu tenha sabido interpretar bem as notícias da imprensa que tem servido de matéria prima para os meus textos e repiques ao longo desses três anos.


A MOEDA NÃO É PODER AQUISITIVO

No artigo “Sábios dizem como mudar nosso olhar”, hoje publicado no Estadão, o jornalista WASHINGTON NOVAES resume o relatório da Comissão Stiglitz-Sem-Fitoussi, encarregada de definir novos caminhos para definir as expressões monetárias que se referem ao desenvolvimento econômico.

Segundo esse relatório há, atualmente, “ uma grande distância” entre os critérios usados pelos especialistas e a percepção da sociedade sobre em que consiste o desenvolvimento econômico.

A conclusão da Comissão que elaborou o Relatório é de que “o aparato estatístico precisa ser revisto” para que a descrição do PIB, por exemplo, inclua outros elementos que não sejam, apenas, números que refletem os chamados valores de mercado.

O que está por trás dessa discussão, a meu ver, é o conceito de moeda como “valor de troca”, que incorpora o “poder aquisitivo”, que deve ser substituído pela noção de dinheiro como norma, como instrumento de organização jurídica da sociedade, similar à lei.

Não se trata, portanto, de mudar “o aparato estatístico” mas, na verdade, de mudar os conceitos que informam esse aparato, dentre os quais o mais relevante, a meu ver, é a noção de poder aquisitivo, que precisa ser revista.