DINHEIRO É COISA SÉRIA
A existência dos “paraísos fiscais” nunca esteve tão ameaçada. Por um lado, o governo dos Estados Unidos está pressionando os bancos suíços a abrir o sigilo de suas contas, para que possam ser rastreados os recursos desviados pelos sonegadores de impostos. Por outro lado, a Europa levará à próxima reunião do Grupo dos 20, uma proposta de acabar com os sistemas financeiros “paralelos”, onde quer que eles se situem. Isso sem falar na perspectiva, cada vez mais próxima, de os bancos norte americanos serem estatizados.
O que parecia impossível, há um ano atrás, está em vias de se tornar realidade, e esse será, sem dúvida, um efeito positivo da atual crise monetária internacional.
Havia uma grande tolerância com o sigilo bancário suíço e com as contas secretas dos outros paraísos fiscais que, contudo, juridicamente, não se justificava. O dinheiro é, hoje, o principal elemento de organização das sociedades, tendo superado, em importância, a própria lei, que substitui com vantagem em um grande número de casos.
Como o dinheiro, contudo, diferentemente do que ocorre com a lei – que é, apenas, publicada – é também emitido ( para que dele, sob a forma de peças monetárias, as pessoas possam se tornar detentoras) ele tende a atravessar as fronteiras com facilidade, o que não quer dizer que ele seja “livre”.
Na verdade, o dinheiro nada tem de livre, pois ele é emitido, em caráter de monopólio, pelos Bancos centrais dos Estados nacionais, sob rígido controle. O fato de sua circulação, apoiada no crédito, lhe dar mobilidade internacional – que a lei não tem – não significa que ele perca, com isso, o carater estatal que o define.
Essa noção de que o dinheiro não é livre – mas, ao contrário, rigidamente vinculado aos poderes estatais – ainda choca muita gente: cega, em geral, por uma radical ideologia econômica liberal, e neo liberal; e é por isso, a meu ver, que o governo OBAMA reluta em nacionalizar os bancos em seu país.
Estatizar os bancos, mesmo temporariamente, ameaça não só os acionistas – dentre os quais estão, por certo, inúmeros estrangeiros – como é a demonstração pública de que a política monetária pode chegar ao ponto de retirar os bancos, mesmo no país mais liberal do mundo, do domínio da iniciativa privada, o que parece, a muitos, um sacrilégio.
Aparentemente não há alternativas para a estatização dos bancos, nos EUA, e para a fiscalização internacional dos paraísos fiscais.
A explicação teórica para esse fenômeno é muito simples: o dinheiro, senhores e senhoras, é coisa muito séria.
