FORTALECER A MOEDA

A longa entrevista coletiva de ontem do ministro da Fazenda GUIDO MANTEGA, repleta de referências a números e a percentagens, que eram por ele esgrimidos para demonstrar tranqüilidade em relação à situação econômica do Brasil, transmitiu-me uma enorme sensação de insegurança.

O ministro da Fazenda, na sua fala, deu-me a impressão de não pisar, jamais,em terreno firme.

A sustentação teórica da sua exposição, por sinal, foi o discurso que o presidente LULA pronunciara, há pouco, na reunião de ministros, destinado a passar uma mensagem de otimismo, procurando dar o tom da campanha publicitária que vai ser desencadeada pelo governo para estimular o consumo.

Não basta, porém, procurar transmitir ânimo à população.

O Brasil tem grandes vantagens comparativas em relação a outros países: não está envolvido em guerras, como os EUA; não é uma autocracia, como a China; não tem mais o grau de miséria absoluta que a Índia ainda apresenta e conta com uma população bem intencionada, que está gostando de progredir.

Do ponto de vista monetário, contudo, a situação do Brasil ainda é frágil: a nossa moeda vem oscilando intensamente no mercado de câmbio e estamos longe de resolver o grande problema de termos as maiores taxas de juros em todo o mundo.

Os números e percentagens invocados pelo ministro MANTEGA não terão qualquer sentido, se não forem reflexos de uma correta política monetária.

Os enormes lucros dos bancos brasileiros, por exemplo, não vão durar muito tempo, não só porque o setor bancário, em geral, está em crise no mundo desenvolvido, como porque a inevitável queda das taxas de juros vai, necessariamente, reduzir os seus ganhos.

Por outro lado, não adianta dar dinheiro publico às construtoras, se elas insistirem em manter o seu modelo atual, que estimula as edificações de alto custo, em terrenos caríssimos, e despreza a construção de moradias populares, financiadas com juros fixos.

O governo LULA, que tanto acertou, até agora, em várias áreas, devia dedicar os seus dois últimos anos a fortalecer o Real, estabilizando o câmbio e reduzindo os juros.

Devia, enfim, aproveitar a oportunidade da crise, e promover as transformações indispensáveis ao amadurecimento definitivo da nova moeda brasileira, que vai completar seu aniversário de quinze anos em 2009, mas está se revelando uma adolescente ainda problemática.


O BELICISMO COMO UM MAU NEGÓCIO

Como se fosse um tabu, os americanos não gostam de divulgar que as despesas militares estão minando, há anos, a sua Economia, porque isso implicaria reconhecer que as guerras, próprias e de terceiros, das quais não resulte uma vitória imediata, são um péssimo negócio.

Parece claro que a “política de defesa” dos EUA, que custa uma fábula de dólares, é, hoje, a sua principal vulnerabilidade.

Além de estar travando, diretamente, duas guerras infindáveis em territórios estrangeiros distantes, eles financiam, há muitos anos, as despesas militares de Israel , e ainda planejam por em prática projetos caríssimos, como a construção, por exemplo, de um escudo anti míssil nas fronteiras da Rússia.

A impetuosidade bélica dos americanos – intensificada por GEORGE BUSH ( que se auto proclamava, até recentemente, um “presidente de guerra” ) – acabou tendo um efeito bumerangue, o que pode levar o presidente OBAMA a dar uma guinada de 180 graus nessa política, de forma semelhante a que GORBACHOV promoveu, há décadas, na URSS.

Até que isso ocorra o jeito vai ser o Estado, contrariando a ideologia dominante, intervir cada vez mais na economia, como estamos vendo acontecer cada dia.


UMA UTOPIA

O atual desarranjo financeiro internacional é uma crise monetária.

Há, presentemente, no mundo ( mal distribuído ) muito mais dinheiro do que coisas e serviços para comprar, do que resulta que a noção ( que provém de ADAM SMITH ) de que a moeda teria valor, e que esse valor consistiria no seu poder aquisitivo, espatifou-se.

Se o dinheiro não é poder aquisitivo – se ele, em si, não é riqueza – o que ele é então ?

O fato de ainda não se saber, exatamente, o que é a moeda, não quer dizer que a moeda vá deixar de existir. Ou, em outras palavras, a crise financeira atual não vai significar a superação do dinheiro – como muitos, consciente ou inconscientemente, o desejam – mas tornará ultrapassadas algumas noções que o acompanham há alguns séculos.

A meu ver, mesmo não sendo riqueza, mesmo não tendo como conteúdo o poder aquisitivo, o dinheiro vai sobreviver como um fator de organização social.

A crise financeira que estamos vivendo – sintoma de uma falta geral de organização – poderá ser superada, pois, através de formas mais criativas de utilização do dinheiro.

Como as pessoas dos países ricos dispõem, excessivamente, de dinheiro, esse dinheiro poderá ser empregado como fator de organização social dos países pobres, com o que os ricos poderão ganhar dinheiro investindo para retirar outras pessoas da pobreza.

Isso, de quebra, pode ajudar a preservar o meio ambiente e tornar, com o tempo, as guerras desnecessárias.

Será uma utopia ?


AINDA A CRISE FINANCEIRA

Com a redução das dimensões da atividade econômica e financeira dos EUA – essa a verdadeira e inevitável crise subjacente, a fluir da conjuntura – as operações subprime do mercado interno americano, repassadas e disseminadas entre bancos internacionais de grande porte (veja-se Lehmann Brothers e China) visaram, em ultima análise, preencher um vácuo surgido nessa economia, a partir da ampliação dos espaços pelos e para os emergentes.

Esse expediente, entretanto, teria falhado porque os níveis das operações compatíveis com esse propósito transcendem às bases operativas reais, tornando necessário contornar os limites convencionais das negociações clássicas de mercado e, com a condescendência das autoridades reguladoras, expandir os seus limites além da segurança razoável, com a criação de ativos virtuais, ou seja, tendo como lastro apenas a aceitação e a boa vontade dos mercados.

Pois bem, não deu certo, mas considere-se que, se desde logo fossem respeitadas as regras tradicionais e ortodoxas, as conseqüências não seriam muito diversas, vez que teria lugar não mais a ponta do iceberg do subprime, mas a verdadeira face da crise, que é a recessão paulatina da economia americana, em função da atividade substitutiva crescente dos emergentes.

De mais a mais, esses movimentos de placas tectônicas econômicas são cíclicos, inesperados e irreversíveis, concretizando-se em marcos históricos significativos, como o foram a I e a II Guerra Mundial, a queda do muro de Berlim, o desaparecimento da Cortina de Ferro a agora a queda dos muros de Wall Street. Caem os reis de copas e ascendem os dois de paus, embalados pelas virtudes e qualidades que anteriormente projetaram os paises hoje em declínio.,,

Em síntese: as inocentes operações subprime do mercado interno americano vieram a encobrir um gap surgido em sua economia, causado pela emersão dos emergentes: o que aliviou momentaneamente as pressões e adiou a crise subjacente, já prenunciada pela queda do muro de Berlim e pelo desaparecimento da Cortina de Ferro, ao que se seguiria, agora, a queda dos muros de Wall Street. Falharam essas operações porque os níveis necessários a cumprir esse propósito – substituir os espaços da economia subtraídos pelos emergentes – não são factíveis com procedimentos ortodoxos, o que levou os mercados, diante da oportunidade, a criarem novas formas e limites de negociações, extremando as suas fronteiras e abrindo mão de garantias convencionais.

Não deu certo. Mas, se fossem respeitadas as regras e realizadas as operações by the book, não haveria essa complementação da economia, e a crise seria a outra, a verdadeira e que permanece com a sua potencialidade em curso: o declínio da economia americana e a sua paulatina substituição pelos paises emergentes. Si non e vero

JOSÉ EDUARDO SANTOS NEVES


REFLEXÕES SOBRE A CRISE

Tem se afirmado que a atual crise global da economia seria explicada por operações desastrosas originadas em empresas financeiras ou imobiliárias americanas – subprime – que teriam desembocado numa falência generalizada da confiança, pressuposto essencial da existência do próprio mercado financeiro. Não há dúvida de que esses eventos seriam o gatilho imediato da crise, mas essa explicação é por demais simplista para ser aceita sem um distingo, ou o aprofundamento de algumas especulações sobre a sua causa primária.

Especulemos, pois.

Antes, um parêntese: devem ser lembradas as semelhanças entre o início formal da atual crise (suprime) e a crise do SFH – o Proer dos militares, entre os muitos cometidos no período, valendo referir o emblemático caso Coroa/Brastel – quando, então, os ativos, podres ou não, foram enfiados garganta abaixo do mercado financeiro, especialmente a CEF, que recebeu, essa ultima, como cala a boca, as contas do FGTS, já devidamente depauperadas e esquartejadas.

Talvez seja esta a explicação de porque os bancos brasileiros escaparam das operações subprime, de semelhante etiologia e natureza, pois já devidamente escaldados pela crise do SFH, cientes e conscientes da fragilidade desse mercado no Brasil e da fatal inadimplência que encerraria a equação. E Deus é brasileiro, pois quando os bancos estrangeiros e nacionais se dispunham a admitir essas operações no País, em face dos mirabolantes resultados aos quais os mercados não são insensíveis – às favas os escrúpulos, diria Passarinho, em outra oportunidade – os fatos (certamente por intervenção divina) se precipitaram, inclusive com a surpreendente (e oportuna, diante do efeito demonstrativo radical) quebra do banco Lehman, esta sim, de conseqüências previsíveis, porém não previstas…

Está a ressumbrar que a “crise” é a contrapartida da própria globalização, instituída como meio e modo dos países ditos “ricos” ingressarem nos mercados dos países ditos “pobres”, superando a hiper “proteção” de suas incipientes indústrias de produção de bens e serviços. Na verdade, essa abertura comercial não teria mão e contramão, como teorizado, posto que não há paridade verdadeira entre os países detentores de indústrias altamente sofisticadas e especializadas e os países produtores apenas de insumos primários e commodities, de pouco valor agregado. E mais, impondo a subsistência da política de proteção de suas atividades primárias – especialmente agrícolas – que eventualmente poderiam ser (ou se sentirem) ameaçadas pelos países ditos emergentes, que tenham desenvolvido alguma agricultura de relevância.

Essa abertura dos mercados protegidos das minipotências às “nações amigas” se deu via recursos e financiamentos internacionais condicionados á aceitação dessa política qualitativamente unilateral, via BID, FMI, Banco Mundial BIRD e União Européia, sujeitando as linhas de crédito existentes a essas limitações, criando o dilema para esses países: ou aceitar a nova regra do jogo, para prosseguir viabilizando minimamente o desenvolvimento de serviços públicos essenciais às populações do dito terceiro mundo – admitindo a dicotomia produtos com valor agregado X commodities, de valor então sub-apreciado; ou prosseguir protegendo as suas indústrias, contra todas as vicissitudes e sem os financiamentos que as viabilizariam, com a fragilização dos governos dos países emergentes, sujeitos a convulsões sociais, muitas vezes fomentadas pelos próprios agentes de poderes externos, com o auxílio da imprensa local, sempre deficitária e ideologicamente orientada.

Ocorre que essa política maquiavélica fugiu ao controle, pois foram subestimadas as conseqüências do ingresso de capitais na base da pirâmide social – quando os recursos são potencializados em espiral ascendente, verdadeira e virtuosa causação circular cumulativa. Esses parcos recursos (parcos para as nações desenvolvidas), todavia, representam significativos recursos para as nações em incipiente estágio de desenvolvimento e trazem ínsito o peso específico para desbloquear as atividades industriais e comerciais de pequeno porte (de pequeno porte para quem, cara pálida?), propiciando a intensificação das atividades econômicas e financeiras dessas populações, com a criação e o fortalecimento de seu mercado interno, contrariamente ao pretendido: afinal, os ingleses tinham razão, pois, para manter o status quo, necessário privar esses países de toda e qualquer tecnologia, até mesmo de louças e vasos sanitários, como ocorria no princípio do século passado… Esses resultados lembram a subestimação dos efeitos da leve e morna inflexão do Governo LULA no sentido dos mais carentes – sob um coro orquestrado de protestos – via bolsa família, crédito em consignação e um desconhecido e insuspeito juizado federal, que resultaram em imprevisto – e para alguns ainda inexplicável – fomento da economia nacional e de seu mercado interno, com o aumento do consumo das classes C e D, com distribuição de riqueza em níveis “antes jamais atingidos neste País”.

Dinamizando, pois, a economia como um todo, pela extrema capilarização de seus vasos comunicantes, para cima e para os lados, a partir da base social, contra todas as previsões, criando um mercado interno fortalecido, que atualmente é um dos baluartes contra a atual crise, preservando o Governo e ampliando o prestígio do Presidente – repita-se, contra todas as previsões, dentro ou fora do Governo.

Criou-se, pois, internacionalmente, peso específico para a virada – a transferência (reitere-se, mínima) de tecnologia e de capitais para países subdesenvolvidos, com mão de obra de baixo custo, inclusive para justificar a existência do pretendido comércio globalizado, que exige parcerias de alguma espécie, mesmo sem equivalência paritária, posto que a atividade comercial é multilateral, e sempre pressupõe contrapartidas, motivações e interesses, ainda que em graus qualitativos diversos. O que implicou em aumento do consumo interno dessas populações de baixa renda (baixa renda em confronto com a de quem, cara pálida?) e a dinamização de suas economias numa escala nunca antes ocorrida, surgindo os BRINCHs e os PIGs. Reitere-se, resultado direto do fortalecimento do consumo e do mercado interno desses países, em face da riqueza marginal criada por um inédito revigoramento da atividade industrial de países até então acomodados a seu destino. E como se não bastasse, criando poder de embate suficiente para os emergentes poderem deslocar e obter algum espaço de países até então hegemônicos, absolutamente dominantes até passado recente.

JOSÉ EDUARDO SANTOS NEVES