UMA VISÃO RENOVADORA

Merece transcrição o seguinte trecho do artigo da ativista política NAOMI WOLF, intitulado “ A legião feminina de Hillary”, hoje publicado no Estadão:

“ Nessa visão, a América não está sozinha contra todos os demais, emitindo ordens e se concentrando estreitamente em lucros corporativos. Em vez disso, cooperando com outros líderes internacionais, os Estados Unidos tentam resolver os verdadeiros problemas mundiais: a degradação ambiental, o esgotamento dos recursos naturais, a alfabetização insuficiente e a pobreza aterradora em que vivem ‘os bilhões de baixo’. OBAMA compreende, como eu acredito que HILLARY CLINTON compreenda, que resolver essas crises é a verdadeira chave para questões de guerra e paz, o que de fato determina a possibilidade de alianças internacionais. HILLARY compreende que os conflitos surgem desses problema e acredito que OBAMA saiba disso. Usar a intervenção militar sem enfrentá-los é meramente o equivalente a jogar um cobertor num vulcão.”

Gostaria de traduzir, numa linguagem “jus monetária” o trecho acima:

As pessoas, a meu ver, em nossa época, estão concentradas, efetivamente, na obtenção de lucros corporativos cada vez maiores, sem se preocupar com o danos ambientais que essa atitude veio causando ao longo do tempo e que ameaçam o meio ambiente.

Além disso, passamos mais de um século, sem nos interessar muito pela situação dos “bilhões de baixo” cuja manutenção em estado de pobreza foi considerada, pelos ricos, como uma condição de preservação de sua respectiva riqueza.

Na raiz de tal pensamento – de que a riqueza de alguns deve sustentar-se na pobreza de outros – vislumbro uma concepção ideológica errônea do dinheiro, como valor de troca e repositório de poder aquisitivo, que foi divulgada por ADAM SMITH no seu famoso livro sobre a “Riqueza das Nações”.

O dinheiro, contudo, como a Lei, não tem conteúdo material.

A idéia de que a moeda contem valor provém da convicção secular de que os metais de que eram compostas as peças monetárias – especialmente o ouro, e a prata – irradiavam riqueza. Quando as peças monetárias passaram a ser emitidas em suportes de papel a idéia de poder aquisitivo, veio substituir a noção de valor intrínseco, como se a capacidade das pessoas de comprar tivesse passado a constituir o conteúdo da moeda em substituição ao metal.

A riqueza, para muitos, deixou de ser representada pelas peças monetárias que eram acumuladas nos tesouros e passou a ser expressa pelo poder de compra que a posse dessas peças assegurava aos seus detentores. Ao acumular peças monetárias e títulos de crédito os indivíduos se tornavam, por causa disso, detentores de riquezas que não eram distribuídas igualitariamente entre os povos, de modo que ao aumento de riquezas de certas Nações acabava correspondendo o aumento da pobreza de outras.

Para manter esse status quo as forças armadas dos países ricos foram usadas como cobertores lançados em vulcões, como diz NAOMI WOLF, e é isso que precisa, agora, ser mudado.

Se deixarmos de pensar na moeda como tendo valor de troca, que consistiria no seu poder aquisitivo – abandonando a convicação ideológica de que ele seria uma reserva de valor – poderemos enxergar melhor os caminhos para empregar o dinheiro como fator de organização social, de modo a que a sua maior acumulação pelos povos não se constitua, mais, num correspondente aumento de riqueza pelos seus detentores e de pobreza dos excluidos da sua posse.

Espero que essa visão, tão avançada, de NAOMI WOLF seja a mesma de HILLARY CLINTON, que deverá ser a próxima Secretária de Estado do governo norte americano.


IGUALDADE MONETÁRIA ENTRE OS POVOS

Qual é a origem da atual crise financeira internacional ?

Na síntese de PAUL KRUGMAN, no artigo do NYT, hoje traduzido pelo Estadão, intitulado “Para não esquecermos”, a explicação para a crise atual é a seguinte:

“Enquanto a bolha imobiliária inflava, os credores ganhavam muito dinheiro emitindo hipotecas para qualquer um que passasse pela porta; os bancos de investimento lucravam ainda mais refinanciando essas hipotecas com a emissão de novos títulos; e os gestores de recursos, que contabilizavam enormes lucros não realizados comprando esses títulos com fundos tomados emprestados, pareciam gênios e eram pagos de acordo.”

Acho essa explicação engenhosa, mas insuficiente: o problema, a meu ver, é o fracasso de um modelo de globalização monetária juridicamente desestruturado e injusto cuja solução deverá ser o emprego do dinheiro como fator de organização social e não mais como “reserva de valor”, para que haja maior igualdade monetária entre os povos.

Creio que ao defender a igualdade não estou sendo marxista, uma doutrina cujas soluções econômicas (diferentemente do que afirmou JOSÉ SARAMAGO numa entrevista recente ) parecem-me inaplicáveis à crise atual.

Considero impossível disciplinar uma Economia cada vez mais complexa, e globalizada, de forma centralizadora, como preconizavam os marxistas. As informações necessárias para as pessoas enfrentarem o seu dia a dia são tantas que é inevitável descentralizar o controle da atividade econômica, o que só é possível fazer através do mercado. É por isso, aliás, a meu ver, que a China, embora não tenha se transformado em um país capitalista ( como dizem alguns analistas de araque ), e continue mais que nunca comunista, optou pelo insólito sistema de “socialismo de mercado”.

Embora não concordando, portanto, com as soluções que muitos marxistas sugeriam (como alguns ainda o fazem até hoje ) para disciplinar a Economia, ao preconizar a igualdade entre os povos estou sendo “esquerdista”.

Com efeito, NORBERTO BOBBIO num livro muito divulgado, “Esquerda e Direita”, concluiu que a direita preza mais a liberdade e que a esquerda se caracteriza por preferir a igualdade. No meu caso, todavia, embora eu pregue a igualdade monetária dos povos, num mercado internacional globalizado, sou a favor do emprego cada vez maior da moeda e, nesse sentido pelo menos, defendo a liberdade ( o que levou o meu amigo ANTÔNIO CARLOS BISCAIA, aliás, numa época, a me denominar um “monetarista de esquerda”).

Na raiz da atual crise financeira, portanto, não está a crise das hipotecas subprime norte americanas, e seus desdobramentos, nem, apenas, o “sistema bancário paralelo” e os “trambiqueiros” de sempre, a que alude PAUL KRUGMAN em seu artigo: está a injustiça do modelo financeiro globalizado o que impõe ao Direito Internacional Público a difícil tarefa de traçar, daqui para diante, os caminhos para a estruturação de uma nova ordem monetária internacional , em que a emissão da moeda adquira um caráter supra nacional, de organização da sociedade, e não mais de repositório de poder aquisitivo ou de valor de troca.


AINDA A INDEXFLAÇÃO

A indexflação, como os leitores deste Blog sabem, é a inflação que resulta da indexação; podendo ser entendida, também, ao contrário, como a indexação que resulta da inflação: de qualquer modo é um problema monetário tipicamente brasileiro, imposto pelo movimento militar de 1964 que, até hoje ( mesmo depois do Plano Real ) ainda não nos deixou.

Como o Brasil sofre de indexflação, nós não vamos poder baixar os juros, como afirmou, ontem, o presidente HENRIQUE MEIRELLES, à Comissão de Orçamento do Congresso nacional.

Todos os outros países estão baixando os juros, mas – diz o dirigente máximo do Banco Central – “cada um deve tomar a decisão adequada ao seu caso, não cedendo à tentação de usar o mesmo remédio do vizinho”.

MEIRELLES não explicou porque a nossa situação é tão diferente: mas ela é diferente por causa da indexflação.

Nós não podemos baixar os juros, sendo obrigados a mantê-los no maior patamar mundial, porque temos o maior medo – aliás, justificado – de que a inflação, aumentando, provoque uma onda incontrolável de reindexação da Economia, que nem se sabe bem por onde começará, embora não haja dúvidas de que chegará rapidamente aos salários.

O momento atual seria propício para que o Banco Central, e o governo, celebrando os quinze anos, que se aproximam, da decretação do Real, desse o arremate final nesse Plano – em tantos aspectos tão bem sucedido – para acabar, de vez, completamente, com a indexflação.


QUEM TEM MEDO DE CHÁVEZ ?

O Estadão de hoje informa que o presidente HUGO CHÁVEZ e os demais integrantes do bloco denominado ALBA (Alternativa Bolivariana para as Américas) – Bolívia, Cuba, Dominica, Honduras e Nicarágua – discutiram examinar se os países da região podem declarar a existência de uma zona monetária comum, como um passo para a instituição de uma moeda única.

Trata-se, como se vê, de uma iniciativa “de mercado”.

Outra surpresa, foi o chefe de Estado venezuelano oferecer um diálogo aberto ao novo presidente americano, BARACK OBAMA, o mesmo que fizera, por sinal, há poucos dias, numa entrevista aos jornais, o presidente cubano RAUL CASTRO.

Por outro lado, a Venezuela acabou de promover uma eleição livre e democrática, cuja idoneidade foi assegurada por mais de uma centena de observadores internacionais, e a oposição – que, afinal, decidiu participar eleitoralmente do jogo político, e teve algumas vitórias expressivas – propôs um diálogo com o governo.

Diante desses fatos fica cada vez mais difícil para os meios de comunicação veicular uma propaganda negativa, visando a demonizar o presidente HUGO CHÁVEZ: ele enfrentou eleições democráticas, quer criar uma moeda comum, pretende melhorar as suas relações com os EUA.

Ninguém pode ser obrigado a gostar de CHÁVEZ: mas dizer que se trata de um demoníaco ditador – uma espécie caudilha de SADAM HUSSEIN – agora, não dá.

Vamos ver, contudo, as cartas que escreverão a respeito os leitores de O GLOBO !